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Mundo

Índia aposta na reciclagem de lixo eletrônico para extrair minerais críticos e reduzir dependência externa

Crescimento do setor pode gerar até US$ 6 bilhões por ano, mas cadeia ainda enfrenta informalidade e riscos ambientais
Por O Correio de Hoje
06/03/2026 | 15:33

A Índia vem intensificando o aproveitamento de resíduos eletrônicos para recuperar minerais estratégicos usados em tecnologias avançadas, em uma tentativa de fortalecer sua posição na corrida global por inteligência artificial e reduzir a dependência de importações desses insumos.

Em uma fábrica no norte do país, centenas de baterias descartadas percorrem esteiras até serem trituradas e transformadas em um pó escuro rico em metais valiosos. O material passa por processos químicos até se converter em elementos como lítio e cobalto — minerais essenciais para a fabricação de smartphones, carros elétricos, aeronaves militares e equipamentos de alta tecnologia.

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Índia aposta na reciclagem de lixo eletrônico - Foto: Reprodução

A estratégia ganha relevância em um contexto de preocupação global com a concentração da produção desses minerais na China, que domina boa parte da cadeia mundial de fornecimento. Para Nova Délhi, a chamada “mineração urbana” — extração de metais a partir de resíduos — surge como alternativa diante da capacidade limitada de mineração tradicional.

Baterias descartadas contêm lítio, cobalto e níquel; telas LED concentram germânio; placas de circuito reúnem metais como platina e paládio; e discos rígidos podem guardar elementos de terras raras. Juntos, esses componentes transformam o lixo eletrônico em uma espécie de depósito de minerais críticos.

Segundo dados oficiais, a Índia gerou quase 1,5 milhão de toneladas de resíduos eletrônicos no último ano, embora especialistas estimem que o volume real possa ser até o dobro. Em instalações como a da empresa Exigo Recycling, no estado de Haryana, baterias de patinetes elétricos são processadas até virar pó negro, matéria-prima para a recuperação de lítio.

“Ouro branco”, descreve o cientista-chefe da unidade ao observar o material sendo coletado em bandejas.

Estimativas do setor indicam que a reciclagem desses resíduos poderia gerar até US$ 6 bilhões (cerca de R$ 31,4 bilhões) por ano, criando uma nova cadeia industrial voltada à recuperação de minerais estratégicos.

O interesse crescente no setor também reflete a vulnerabilidade da economia indiana na cadeia de suprimentos de minerais críticos. De acordo com o Instituto de Economia Energética e Análise Financeira, o país depende integralmente da importação de insumos como lítio, cobalto e níquel.

Para reduzir essa dependência, o governo do primeiro-ministro Narendra Modi aprovou no ano passado um programa de US$ 170 milhões destinado a estimular a reciclagem formal de lixo eletrônico.

A iniciativa ampliou o sistema de transferência de direitos eletrônicos para recicladores registrados e busca atrair investimentos para ampliar a capacidade industrial do setor.

Apesar dos esforços oficiais, a maior parte do lixo eletrônico ainda é processada fora do sistema regulado. Segundo a Organização das Nações Unidas, mais de 80% dos resíduos eletrônicos na Índia continuam sendo reciclados de forma informal.

Nessas oficinas, trabalhadores desmontam equipamentos manualmente para extrair metais de venda mais imediata, como cobre e alumínio, enquanto minerais estratégicos acabam sendo desperdiçados.

O centro de estudos NITI Aayog alerta que a reciclagem organizada avança em ritmo inferior ao crescimento acelerado da geração de lixo eletrônico no país.

A reciclagem informal também envolve riscos significativos à saúde e ao meio ambiente. Práticas comuns incluem queima a céu aberto de cabos, banhos de ácido e desmontagem sem equipamentos de proteção, expondo trabalhadores a gases tóxicos e contaminando solo e água.

Em bairros como Seelampuri, na periferia de Nova Délhi, ruas estreitas estão repletas de cabos, placas eletrônicas e aparelhos quebrados aguardando desmontagem.

“O negócio cresceu, não diminuiu”, afirma o comerciante Shabbir Khan, que trabalha na triagem de sucata eletrônica.

Especialistas afirmam que mesmo o material que chega às recicladoras formais frequentemente passa antes pelas redes informais de coleta e desmontagem.

Algumas iniciativas buscam integrar esses trabalhadores à cadeia formal. A ONG Ecowork oferece treinamento para reciclagem segura e melhor aproveitamento dos minerais presentes nos equipamentos.

Os cursos ensinam desde técnicas de desmontagem até a identificação de metais raros presentes em componentes eletrônicos.

Em um galpão nos arredores da capital indiana, o jovem trabalhador Rizwan Saifi desmonta um disco rígido e retira um pequeno ímã que será enviado a uma recicladora especializada na extração de disprósio, metal usado em eletrônicos avançados.

“Antes só nos importávamos com cobre e alumínio”, diz. “Agora sabemos o valor desses ímãs.”