A ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, que resultou na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, agravou a crise no Oriente Médio e elevou a tensão nas relações diplomáticas entre Brasil e Washington em meio às negociações para um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente americano Donald Trump.
A expectativa no governo brasileiro é que Lula reitere pessoalmente a Trump sua posição contrária aos ataques contra o território iraniano, acrescentando mais um ponto de divergência política entre os dois países em um momento de intensificação do diálogo bilateral. A reunião entre os dois chefes de Estado, no entanto, ainda não tem data definida.

A morte de Khamenei, ocorrida durante bombardeios em Teerã, desencadeou uma escalada militar que ampliou o conflito para diferentes pontos do Oriente Médio, com ataques e retaliações envolvendo forças iranianas, israelenses e americanas. O novo cenário internacional passou a influenciar diretamente a agenda diplomática brasileira.
O desalinhamento entre Brasília e Washington soma-se a outros episódios recentes. Em janeiro, o governo brasileiro reagiu à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas, classificando a ação como um “sequestro”. Lula também se posicionou contra sanções impostas a Cuba, outro tema sensível na relação bilateral.
Diante desse quadro, a diplomacia brasileira tenta adotar uma postura de equilíbrio: condenou os ataques ao Irã, mas também manifestou solidariedade a países como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Jordânia, apontados como possíveis alvos de retaliações iranianas.
Outro ponto sensível é a proposta de criação de um conselho internacional de paz defendida por Trump, iniciativa para a qual o Brasil foi convidado. Lula tem sinalizado que não pretende aderir ao formato sugerido e tem defendido que qualquer colegiado internacional trate especificamente da reconstrução da Faixa de Gaza, com participação direta dos palestinos.
No Palácio do Planalto, a avaliação é de que Lula precisará equilibrar princípios diplomáticos e pragmatismo político caso o encontro com Trump se confirme. O foco principal da reunião seria comércio e segurança, mas temas sensíveis — como Oriente Médio, Venezuela e Cuba — inevitavelmente devem entrar na pauta.
Interlocutores em Brasília e Washington afirmam que o primeiro encontro formal entre os dois líderes na Casa Branca, após conversas rápidas em Nova York e Kuala Lumpur em 2025, dependerá em grande medida da evolução da crise no Oriente Médio.
Auxiliares de Lula trabalham com a expectativa de que a reunião ocorra na segunda quinzena de março, embora não se descarte um adiamento para abril diante da instabilidade internacional. O cenário político interno também pesa: a proximidade ideológica entre Trump e o ex-presidente Jair Bolsonaro, principal adversário político de Lula e condenado por tentativa de golpe de Estado, acrescenta um componente doméstico à equação diplomática em pleno ano eleitoral no Brasil.
Para analistas, o encontro — se ocorrer — tende a ser marcado por cautela e pragmatismo. A professora Ana Garcia, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, avalia que a guerra alterou as prioridades globais.
Segundo ela, a gestão Trump tem operado sob um ambiente permanente de crises, deslocando o foco da agenda internacional.
Já a pesquisadora Marianna Albuquerque, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que um eventual adiamento pode ser conveniente para ambos os países, permitindo que os Estados Unidos se concentrem na resolução do conflito e que o Brasil evite que a guerra monopolize a pauta do encontro.
No governo brasileiro, a estratégia continua concentrada em dois eixos com forte repercussão interna: comércio e segurança. A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de derrubar o chamado “tarifaço” de Trump alterou parte do cenário das negociações comerciais, embora a criação de uma tarifa de 10% sobre importações de outros países ainda mantenha a preocupação brasileira.
Na área de segurança, o Brasil pretende aprofundar a cooperação entre o Ministério da Justiça, a Polícia Federal e a Receita Federal com autoridades americanas no combate ao crime organizado transnacional, mas sem comprometer a autonomia nacional. Em Washington, discute-se a possibilidade de classificar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas — hipótese vista com cautela por Brasília.
Outros temas em discussão incluem o fornecimento e a exploração de minerais críticos, assunto que ganhou destaque na relação bilateral após o vice-presidente americano JD Vance sugerir a formação de uma coalizão internacional para mineração e refino desses recursos.
Para especialistas, a tendência é que a eventual reunião seja conduzida com forte controle diplomático. O cientista político Michael Shifter, do Diálogo Interamericano, avalia que o encontro deve priorizar disputas comerciais, enquanto a presidente do Instituto Igarapé, Ilona Szabó, afirma que os dois governos devem manter discursos distintos em público, adotando uma diplomacia pragmática focada na gestão de riscos.
Já o ex-diplomata americano Ricardo Zúñiga acredita que, no atual cenário, será difícil construir uma agenda amplamente positiva. Para ele, a saída mais viável é restringir o diálogo a áreas de convergência, como comércio, minerais críticos e combate ao crime organizado.
Nesse contexto, analistas avaliam que a relação entre Brasil e Estados Unidos tende a ser conduzida menos por afinidade política e mais pela necessidade de administrar divergências em meio a um cenário internacional cada vez mais instável.