A proximidade do centenário de nascimento da rainha Elizabeth II, que completaria 100 anos em 21 de abril, ocorre em meio a uma das mais profundas crises enfrentadas pela monarquia do Reino Unido nas últimas décadas. O momento, que deveria ser marcado por celebrações e homenagens, acabou sendo ofuscado por escândalos envolvendo membros da família real, dificuldades políticas no país e crescente questionamento público sobre o papel da instituição.
No tradicional mercado Jubilee Market Hall, em Covent Garden, no centro de Londres, o comerciante Larry Bonds, de 67 anos, diz sentir diretamente os efeitos desse desgaste. Segundo ele, produtos ligados à antiga soberana continuam sendo muito mais procurados do que itens relacionados ao atual monarca, Charles III.

“Tudo o que é relacionado à rainha vende pelo menos três vezes mais. Mesmo quando reduzimos o preço, poucos se animam a comprar algo ligado ao rei”, afirma Bonds, que teme que a crise de imagem da monarquia afete seus negócios.
A percepção do comerciante reflete um sentimento mais amplo captado por parte da imprensa britânica. A revista New Statesman estampou recentemente em sua capa uma coroa despedaçada no chão, sob o título que descreve o momento da instituição: “A Coroa em ruínas”. Na reportagem, o jornalista Will Lloyd aponta que a Casa de Windsor enfrenta uma “tempestade perfeita”, marcada por escândalos, divisões internas e perda de prestígio público.
Entre os elementos que agravam a crise está o novo capítulo envolvendo o príncipe Andrew, Duke of York. O irmão de Charles III voltou ao centro de controvérsias após investigações que o ligam ao financista americano Jeffrey Epstein, acusado de comandar um esquema internacional de exploração sexual e tráfico de mulheres antes de morrer em prisão nos Estados Unidos em 2019.
Segundo reportagens do jornal The Observer, Andrew e o ex-ministro trabalhista Peter Mandelson foram detidos recentemente sob suspeita de fornecer informações privilegiadas a Epstein. As investigações também revisitam episódios anteriores envolvendo o príncipe, que sempre declarou inocência.
O dominical britânico também trouxe novas informações sobre o acordo firmado em 2022 entre Andrew e os advogados de Virginia Giuffre, que acusou o príncipe de abuso sexual após ter sido traficada por Epstein. O valor do acerto, estimado em 12 milhões de libras, nunca teve sua origem totalmente esclarecida. Investigações preliminares apontam que a própria Elizabeth II teria contribuído para reunir os recursos destinados à indenização.
O caso reacende o debate sobre o legado da monarca, que reinou de 1952 até sua morte, em 2022, tornando-se a soberana mais longeva da história britânica. Conhecida por defender valores como serviço público, unidade nacional e ética institucional, Elizabeth II agora tem sua trajetória revisitada à luz dos escândalos envolvendo membros da própria família.
A crise da monarquia ocorre paralelamente a um período de instabilidade política no país. O governo do primeiro-ministro Keir Starmer enfrenta turbulências internas após a saída de dois de seus principais assessores: o chefe de gabinete Morgan McSweeney e o diretor de comunicação Tim Allan. Ambos deixaram seus cargos em meio ao desgaste provocado pelo caso envolvendo Andrew.
Com eleições regionais previstas para os próximos meses e pesquisas indicando possível derrota do governo, lideranças do próprio Partido Trabalhista passaram a pressionar Starmer. Na Escócia, dirigentes da legenda chegaram a pedir sua renúncia e a antecipação do pleito geral, atualmente previsto para 2029.
O ambiente de insatisfação também tem se refletido no cenário eleitoral. Em votação especial na região da Grande Manchester, a candidata do Partido Verde do Reino Unido, Hannah Spencer, uma encanadora de 34 anos, conquistou uma cadeira no Parlamento com 41% dos votos. O resultado colocou os trabalhistas apenas na terceira posição, atrás inclusive do candidato do partido de ultradireita Reform UK.
Em seu discurso de vitória, Spencer afirmou que pretende representar trabalhadores comuns no Parlamento, destacando que pessoas como ela “finalmente terão lugar na mesa decisória”.
Analistas interpretam o resultado como reflexo da crescente desconfiança dos britânicos em relação às elites políticas e sociais do país — um sentimento que atinge tanto a classe dirigente quanto a própria monarquia.
Assim, no ano em que se recorda o centenário de Elizabeth II, a instituição que ela simbolizou por sete décadas enfrenta um momento delicado. Entre escândalos, crise política e mudança de humor da sociedade britânica, a Casa de Windsor se vê diante de um dos maiores desafios de sua história recente.