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Venezuela

Bebê nasce entre escombros após terremotos na Venezuela

Jovem de 19 anos entrou em trabalho de parto em campo de beisebol após tremores de 7,2 e 7,5 de magnitude atingirem La Guaira
Por O Correio de Hoje
09/07/2026 | 14:42

A venezuelana Eliana García, de 19 anos, deu à luz ao primeiro filho em um campo de beisebol transformado em abrigo improvisado após dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 atingirem o estado de La Guaira, na costa da Venezuela. Grávida de 38 semanas e com uma cesariana agendada para a semana seguinte, ela entrou em trabalho de parto enquanto buscava proteção ao lado da família durante os tremores que já deixaram mais de 3.600 mortos, segundo dados oficiais.

Os médicos haviam informado que Eliana não poderia ter parto normal por possuir a pelve estreita, motivo pelo qual o nascimento do bebê seria por cesariana. No entanto, as contrações começaram antes do previsto na tarde de 24 de junho, quando milhares de moradores deixavam suas casas para escapar dos desabamentos provocados pelos terremotos.

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Jovem de 19 anos entrou em trabalho de parto em campo de beisebol após tremores de 7,2 e 7,5 de magnitude atingirem La Guaira - Foto: Reprodução

No campo de beisebol, onde dezenas de pessoas tentavam se proteger dos prédios que desabavam, Eliana percebeu que o parto havia começado.

“Sentia uma vontade enorme de fazer xixi. Mas eu fazia força e fazia força, e, como não saía nada, entendi que o bebê estava vindo”, contou García à AFP em um abrigo.

Sem acesso a atendimento médico, familiares improvisaram um local para o parto utilizando o único lençol que conseguiram retirar durante a fuga. Já era a madrugada de 25 de junho quando a cunhada da jovem, Julia Di Giuseppe, saiu descalça e no escuro em busca de ajuda.

Segundo ela, ninguém respondeu aos pedidos de socorro até que encontrou uma paramédica que também procurava familiares entre os escombros.

“Foi então que implorei a uma paramédica que estava procurando seus familiares entre os escombros, e ela resolveu ajudar”, relata Julia, de 37 anos.

Sem água, luvas ou equipamentos médicos, a profissional utilizou apenas álcool em gel enquanto realizava o parto sob a iluminação das lanternas de celulares que ainda possuíam bateria. Ao redor, moradores acompanhavam o nascimento em meio às réplicas dos terremotos.

A família acreditava que o bebê seria uma menina, mas nasceu um menino. Inicialmente, ele não chorou. Segundo Julia, o choro veio após as pessoas que acompanhavam o parto começarem a aplaudir o recém-nascido.

Sem instrumentos adequados para finalizar o procedimento, os próprios moradores improvisaram o corte do cordão umbilical.

“Ali não tínhamos como cortar o cordão umbilical, e as pessoas começaram a tirar os elásticos de cabelo, amarramos o cordão em duas extremidades e, com bastante álcool, conseguimos cortá-lo com uma tesourinha de unhas.”

Após o nascimento, Eliana perdeu as forças e não se recorda do restante do atendimento. Familiares a transportaram primeiro nos braços, depois em uma carroça motorizada e, por fim, em uma ambulância que conseguiu levá-la até um hospital público.

A unidade estava sobrecarregada pelo grande número de vítimas dos terremotos. Embora mãe e filho tenham recebido atendimento, não havia vacinas disponíveis para imunizar o bebê.

Posteriormente, a família foi encaminhada para uma escola pública transformada em abrigo na região de La Guaira, uma das mais atingidas pelos tremores.

A tragédia também atingiu diretamente os parentes de Eliana. Duas sobrinhas, de 14 e 11 anos, morreram após o desabamento do conjunto habitacional onde viviam. Segundo a família, o pai reconheceu as meninas apenas por uma pulseira prateada usada pela filha mais velha.

A irmã de Eliana, mãe das adolescentes, e um sobrinho continuam desaparecidos. Enquanto observa o bebê sendo amamentado, Julia resume o sentimento da família diante da tragédia.

“Salvamos ele, mas perdemos nossas duas sobrinhas.”

Antes do parto, Eliana havia escolhido o nome de uma menina para a criança que esperava. Caso fosse um menino, pretendia chamá-lo Daniel Eduardo. No entanto, decidiu mudar a escolha em homenagem à irmã desaparecida.

“Mas minha irmã sempre dizia para eu colocar Gael”, diz a jovem. “Então, por causa dela, decidi chamá-lo de Gael Jesus. É a minha maneira de mantê-la aqui.”

O governo interino da Venezuela declarou o estado de La Guaira como zona de desastre, enquanto equipes de resgate seguem as buscas por desaparecidos entre os escombros deixados pelos terremotos.