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Mercado
Quando a morte vira rotina de trabalho para profissionais na capital potiguar
Embora ainda enfrente tabus ou seja cercada de muita curiosidade, a tanatopraxista atrai potiguares não só pelo salário, mas pela flexibilidade na escala de trabalho
Wagner Guerra - Editor
29/05/2018 | 18:30

Existem numerosas formas de nos depararmos com o fato de que nossa vida e a dos nossos entes têm um fim. Ir a um funeral é uma delas. Sem dúvida, um dos eventos sociais mais difíceis de participar, diante do sofrimento da despedida. Mas, graças aos tanatopraxistas, essa dor é amenizada pelo ‘trato’ que é dado no falecido. Eles são profissionais responsáveis pela conservação, desinfecção e estética do corpo, deixando-o com um semblante natural – ‘como se tivesse dormindo’.

Em Natal, não existe curso técnico. Os profissionais que estão hoje no mercado precisam sair do Estado em busca do conhecimento prático. A média de investimento gira em torno de R$2.500, fora os custos da passagem aérea e hospedagem. Os tanatopraxistas trabalham em uma escala de 12 horas trabalhadas por 36 de folga e recebem entre 2 e 3 salários mínimos.

No grupo Vila, referência no segmento funerário no Nordeste, cada profissional da área de tanatopraxia recebe em média cinco corpos para a realização do procedimento. O serviço funciona nos três turnos do dia, com base operacional situada no Alecrim.

Aos 26 anos de idade, a técnica de enfermagem Rafaela Porello se considera outra pessoa quando entrou na profissão de tanatopraxista. Há seis anos trabalhando com a morte, ela garante que levará para sempre algumas lições: “Ser humilde acima de tudo. Não valorizar ou desejar tanto o material, principalmente esquecendo o ser humano”.

Rafaela Porello Tanatopraxista Grupo Vila Funerária 14
Foto: José Aldenir

Para ela, apesar dos corpos que chegam todos os dias em suas mãos serem de pessoas que nunca conheceu na vida, é preciso ter respeito e ética, antes, durante e depois dos procedimentos de conservação, higienização e estética.

Os profissionais trabalham em uma sala ampla que lembra um centro cirúrgico. Eles precisam utilizar o equipamento de proteção individual (EPI), que inclui máscara de filtro por conta dos gases cadavéricos, luvas especiais, botas de PVC e mangotes descartáveis. Ficam literalmente paramentados dos pés à cabeça. “Não acho que exista preconceito, mas percebo que muitas pessoas são curiosas com a minha profissão, até porque sou mulher e geralmente há homens na tanatopraxia”, avalia.

ESTÉTICA – De uma base aplicada no rosto a um esmalte nas unhas, tudo é previamente combinado. Os tanatopraxistas não podem, por exemplo, retirar a barba ou tingir o cabelo do falecido sem o consentimento da família. A roupa a ser vestida no corpo também fica a critério da parentela. Todo o processo dura em torno de 1 hora e meia e custa R$ 600.

Segundo Rafaela, o que se pede aos tanatopraxistas é para deixar quase sempre o falecido com um aspecto natural. Nada de maquiagens pesadas, esmaltes em tons escuros ou vestimentas inapropriadas. Contudo, ela observa que há casos em que a própria família pede justamente o contrário. “Já chegamos a fazer escova nos cabelos e maquiagem mais elaborada, com direito a rimel, batom, sombras e cílios postiços. A estética também envolveu a colocação de pulseiras, anéis e brincos”, lembrou.

RELIGIÃO – Além das roupas, da estética facial e dos adereços, os tanatopraxistas também precisam analisar o aspecto religioso do falecido e de seus parentes. A urna funerária diverge em detalhes de acordo com o credo. “Quando o falecido é evangélico, por exemplo, a família pede para que durante a colocação do corpo no caixão, a gente não lhe deixe com os dedos das mãos cruzados”, observou.

Marivaldo Amaro Grupo Vila tanatopraxista 19
Foto: José Aldenir

CONSERVAÇÃO – Como a pessoa geralmente morre em momentos inesperados, o supervisor do setor de tanatopraxia do grupo Vila, Marivaldo Amaro, afirma ser imprescindível a preparação do corpo para suportar o tempo necessário do velório ao sepultamento.

Nesse caso, explica, são utilizados fluídos bactericidas e substâncias que fixam os tecidos para retardar o processo de autólise (autodestruição celular), permitindo assim a conservação do corpo em curta ou longa duração.

Há 30 anos trabalhando no mercado da morte, dos quais 13 foram na área de tanatopraxia, Marivaldo supervisiona uma equipe de 12 tanatopraxistas.

Entusiasta da profissão, ele lembra momentos marcantes na carreira, como a morte de 228 pessoas, durante a queda de um avião da Air France, em maio de 2009, a 600 quilômetros do arquipélago de Fernando de Noronha. “Como o grupo Vila também tem empresa no Recife, precisei ser deslocado até lá para, com tanatopraxistas de vários estados do país, preparar essa grande quantidade de corpos. Foi um trabalho árduo, porém de muito aprendizado com colegas de larga experiência na técnica”.

Apesar disso, Marivaldo salienta que é preciso estar sempre atualizado nesse segmento que, apesar de ser desconhecido pela maioria das potiguares, vem alcançando um patamar cada vez mais importante no mercado de trabalho a nível nacional.

 

 

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