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Entrevista
Pipa tem tudo para sair melhor da pandemia, aposta empresário
Para Lula Vasconcelos, um tradicional empresário do mercado imobiliário local, tudo agora é uma questão de afinar o discurso e buscar uma vocação que seja exclusiva à altura de um destino de prestígio internacional
Redação
01/07/2020 | 04:22

Houve um tempo, décadas atrás, em que os turistas vinham da Europa diretamente para a Pipa, usando Natal como uma mera escala. Não que a capital potiguar não fosse interessante, mas o distrito de Tibau do Sul já tinha um prestígio internacional consolidado.

Foi essa uma das razões que fez o empresário pernambucano Lula Vasconcelos deixar tudo de lado para viver e empreender em Pipa, em 1989. De lá para cá, cultivou num portfólio invejável de empreendimentos imobiliários, tornando-se mais do que um empresário, um ilustre morador de uma das praias mais famosas do Brasil.

Com a pandemia do novo coronavírus, mesmo com poucas contaminações pela doença e apenas um óbito relacionado a ela nos últimos três meses, o destino busca se reorganizar para o futuro. Nesta entrevista exclusiva ao Agora RN, Lula abre as dificuldades e diz que Pipa tem tudo para dar certo, se mudar a sua própria mentalidade empreendedora.

AGORA RN – Desde que escolheu Pipa para se estabelecer como empresário, em 1989, o senhor teve de vencer muitos desafios. Como qualificaria este da pandemia do coronavírus?

LULA VASCONCELOS – Para começar, Pipa nunca viveu crises, e sim ciclos de oportunidades. Pipa continua sendo um lugar de oportunidades, a despeito da má gestão do poder público. Temos um prefeito claudicante (Modesto Macedo, do município de Tibau do Sul) e um Governo do Estado despreparado. No entanto, Pipa nunca viveu ou dependeu da gestão pública para ser o que é. Todos os investimentos e negócios celebrados aqui se deram por conta e risco de seus empreendedores. De sorte que vejo agora, com a pandemia, uma oportunidade de corrigirmos os erros do destino. Uma gestão e uma unidade de gestão neste momento seria fundamental, mas não há. Teremos que nos adaptar a essa disfunção.

AGORA RN – Em que medida, em sua opinião, Pipa pode sair bem dessa crise sanitária?

LV – Sendo um destino voltado a públicos bem específicos. Sabemos que, por suas caraterísticas geográficas, Pipa não resiste a um turismo de massa. Para que isso pudesse ocorrer, seriam necessárias gestões públicas eficientes em todas as áreas. Do saneamento básico ao sistema viário e de controle de acesso às praias. Enfim, um estudo de capacidade que pudesse ser gerenciado de cada praia e da estrutura da cidade como um todo. Infelizmente, não temos isso. Nosso caminho, portanto, é outro.

AGORA RN – Então, os problemas de Pipa não estão propriamente na pandemia?

LV – A pandemia é importante por se tratar de um evento global, com reflexos sobre todas as economias mundiais, mas a nossa maior pandemia aqui e agora é a de gestão. Basta ver que, até hoje, registramos oficialmente pouco mais de 60 casos do novo coronavírus e nenhuma morte comprovada. Aliás, atribuíram um óbito a uma velhinha de quase 90 anos, com um histórico de vida muito sofrido, que tinha problemas respiratórios. Três meses depois do fechamento de tudo, falou-se na volta às atividades normais, o que não aconteceu. Quem preparou sua logística, comprando mercadorias perecíveis para equipar seus hotéis e restaurantes, perdeu tudo. Ou seja, por falta de gestão, ficamos dois meses fechados sem um único caso oficial. Se formos esperar que não haja mais casos em lugar nenhum para abrir Pipa ou para quando houver uma vacina, será tarde demais para um destino internacional como o nosso.

AGORA RN – Mas em que medida, em sua opinião, o vírus pode ser uma oportunidade?

LV – É claro que foi uma catástrofe de dimensões avassaladoras. No entanto, se não entendermos esse evento como uma forma de crescer, a partir de uma gestão estratégica, podemos todos voltar para casa e dar tudo por perdido. É justamente o que não pode acontecer. Especialmente, porque – como já disse – não precisamos de turistas em escala industrial. podemos perfeitamente nos aprimorar num segmento, aliás, para o qual sempre fomos vocacionados, os casais e famílias em busca de experiências realmente gratificantes. Foi esse conceito que sempre vendeu Pipa para o mundo.

AGORA RN – Houve uma época em que Pipa tinha o metro quadrado mais caro e disputado do Estado. Hoje, como está o destino nesse quesito?

LV – Eu diria que ainda têm imóveis caros. A avenida Baía dos Golfinhos, por exemplo, continua com seu metro quadrado muito valorizado, tão alto quanto os melhores locais da capital, de Mossoró ou de Parnamirim. Só que, nesse trecho, hoje, não há nada absolutamente à venda. Fui o primeiro empresário de Pipa a empreender numa escala maior. Já chegamos a ter 15 imobiliárias aqui. Hoje, se temos três ou quatro, é um reflexo do que vivemos hoje, mas isto influi diretamente da desvalorização imobiliária, pelo contrário.

AGORA RN – Como assim?

LV – Pipa sempre viveu de ciclos. Quem não tem visão estratégica não consegue perceber isso. Já tivemos o dos pequenos apartamentos que já renderam um metro quadrado de R$ 10 mil. Imagino que, nessa época, esse valor regulasse ou fosse até maior do que em Natal. Hoje, os preços continuam dentro de patamares elevados. Como nas áreas nobres não há ofertas, quem quiser comprar terá que atingir o preço pedido. É a lei da oferta e da procura em Pipa, com ou sem crise. Em áreas menos nobres, há uma boa oferta de apartamentos. Já o mesmo não acontece com casas. Como o destino é muito bom, sempre há pessoas interessadas em usufruir dele ou usá-lo para ganhar dinheiro junto às plataformas imobiliárias.

AGORA RN – Por falar nisso, como estão os grandes empreendimentos de Pipa?

LV – As empresas que vêm para Pipa com a intenção de desenvolver um projeto sem estar ambientada com o destino, só com a visão urbana e sem nenhum compromisso com o lugar, podem até ganhar dinheiro, mas precisarão entender melhor o que representa há décadas uma praia como a de Pipa. Diferentemente de outras, do litoral norte ou do sul, não vivemos de temporada. Aqui há um intenso movimento o ano todo. E isso, por si só, já nos coloca num patamar diferenciado. Aqui, as pessoas não desfrutam de uma casa de praia, mas têm o privilégio de desfrutar de um ambiente paradisíaco, que tem vida própria, uma história, natureza exuberante, praias espetaculares, vida noturna intensa, ótimos restaurantes e uma convivência excelente. É isso que nos coloca entre os grandes destinos do mundo.

AGORA RN – Os empresários locais têm se mobilizado para debater sobre as consequências da pandemia ou estão isolados esperando a chuva passar?

LV – Infelizmente, o que temos em Pipa – e eu me incluo nisso – são empreendedores, e não empresários. A diferença está na visão estratégia, visão de longo prazo e responsabilidade social. Em vez disso, o que temos aqui são pseudoassociações, que defendem interesses medíocres representados por seus líderes. Como se não bastasse, são pouquíssimas associações e as pessoas que as lideram sempre puxam a brasa para sua sardinha, sem a visão do todo. Mas isso passa. Estou aqui desde 1989 e muitos prefeitos e empresários já passaram. Eu continuo por aqui.

AGORA RN – Como o senhor vê o futuro de Pipa a partir de agora?

LV – Eu vejo como um futuro muito interessante. Só basta ajustarmos nossas estratégias, o nosso marketing. Precisamos pensar o que queremos para nós como sociedade antes de nos definirmos como vendedores de serviços de turismo. Como ter longevidade com um destino que tem limitações ambientais de utilização? Como manter esse meio ambiente preservado para gerar ainda mais atrativos? São questões atuais que precisam ser respondidas.

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