O potiguar Ítalo Ferreira venceu, nesta quinta-feira, 19, o Pipe Master, última fase do Circuito Mundial de Surf, realizado no Havaí, arquipélago dos Estados Unidos da América. Essa notícia, que já ocupa todos os jornais, fala do jovem nascido em Baía Formosa (RN), famoso por começar sua carreira surfando em pranchas de isopor e que hoje, lidera a elite do surf mundial.
Aos 23 anos, Ítalo é o terceiro brasileiro a conquistar a primeira posição no Circuito Mundial de Surf, após Gabriel Medina e Adriano de Souza, o “Mineirinho”, mas, diferente dos demais, não cresceu em meio a referencias do esporte. O pai era pescador e a mãe trabalhava numa pousada em que a família morava, e ninguém mais via o surf como uma profissão. Apesar do cenário azul e salgado de Baía Formosa, o surf comparava-se ao futebol: uma diversão para as crianças e um esporte que só se via na TV. Mas Ítalo não pensava assim. Na verdade, segundo relatos da mãe, Katiana Ferreira, para ele, era mais sobre sentir o esporte, do que sobre pensar a respeito.

“Eu mesma não queria. Queria que ele estudasse para fazer uma faculdade, mas só que o negócio dele era surfar. Mesmo quando ele ia para o colégio, a aula tinha início de 7h30, dava 8h20 Ítalo estava aqui, chegava dizendo que não tinha aula, pegava a prancha e ia surfar”, confessa a mãe. “O negócio dele era está dentro do mar, dentro da água, pegando onda. Ele sempre foi assim.”, acrescenta.

Em uma conversa com o AGORA RN, a mãe falou sobre momentos da infância e da adolescência do atleta, que foram decisivos para alcançar o título conquistado nesta quinta, 19.
“O Ítalo não tinha prancha, a gente não tinha condições de comprar, então ele esperava os primos sair do mar para pedir emprestado, mas eles não gostavam disso, porque tinham medo de ele quebrar, mas ele perturbava tanto os meninos, que terminavam emprestando, chateados, mas era assim que ele ia treinar.” relata.
Katiana, assim como muitas mães, conta que foi difícil ver o filho partir tão cedo.
“Com 12 a 13 anos de idade ele foi para São Paulo, morar lá. Ah, foi uma dor muito grande, né? Porque eu tinha ele do meu lado e, de repente, ir embora… eu ficava imaginando mil e uma coisas, porque queria que ele estudasse.”
Apesar do receio, pouco a pouco Katiana foi adentrando no mundo de Ítalo. A cada torneio, a compreensão da dimensão do esporte clareava as ideias da família. Um campeonato, em especial, é famoso por ter marcado a trajetória do atleta. Durante uma edição do Rip Grom Search, realizado da praia de Ponta Negra, em Natal (RN), Ítalo foi alvo de um olheiro e garantiu seu primeiro grande patrocínio, com a Oakley. A aposta foi de Luís Campos Pinga, que se admirou com o desempenho do rapaz e até o momento, segue sendo seu treinador.
Katiana relata que essa era uma preocupação dele. “Sempre ele me dizia ‘mainha se eu não sair de Baía Formosa e ir para os campeonatos eu não vou conseguir nenhum patrocínio’”. “Eu não deixava ele ir para viagem nenhuma, porque eu tinha medo” confessa.

Mas essa foi uma vitória que começou aos poucos, veio lá de trás.
Sabe-se que uma “baía” pode ser qualquer ambiente separado por divisórias, mas, o mais comum, é referenciar uma porção de mar rodeada por terra. E aí está a ironia: nascido na única Baía do Rio Grande do Norte, Ítalo nunca soube o que são barreiras. Foi para o mar aberto, em diferentes litorais, por diversos campeonatos, até conquistar o tão sonhado mundial.
“Ele começou numa tampa de isopor, aí o pai juntou dinheiro e comprou uma prancha, depois veio uma ajuda, de um shaper que fazia prancha, a gente pagava a metade e a outra metade ficava por conta dele. Aí Ítalo foi pegando o ritmo dos campeonatos, e ganhando, e todas as etapas ele (como diz na gíria deles, “arrastava”) a primeira premiação, ele foi se destacando.” explica a mãe.
Hoje o destaque ocupa as revistas, os portais e os telejornais, mas, de acordo com amigos e familiares, não altera a personalidade simples do atleta. Debaixo do Sol e sempre sobre as águas, poucas coisas lhe sobem à cabeça. De poucas palavras, ele já provou que prefere deixar o surf contar sua história.
Hoje a vitória vai para a família Ferreira, do Nordeste brasileiro.

“E aí está a ironia: nascido na única Baía do Rio Grande do Norte, Ítalo nunca soube o que são barreiras. Foi para o mar aberto, em diferentes litorais, por diversos campeonatos, até conquistar o tão sonhado mundial.”