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Agora RN Visita Facções
Funcionários ressaltam boa qualidade de trabalho nas facções têxteis do RN
Agora Jornal visitou facções de costura em São José do Seridó e Parelhas e conta como é o cotidiano dos funcionários das microempresas, que podem deixar de funcionar caso ação do MPT prospere
Boni Neto
10/10/2017 | 13:00

O imbróglio envolvendo o Ministério Público do Trabalho, os funcionários das facções têxteis do interior do Rio Grande do Norte e o Grupo Guararapes segue gerando polêmicas. Após o órgão fiscalizador ajuizar Ação Civil Pública à Justiça do Trabalho pedindo a aplicação de uma multa de R$ 38 milhões à Guararapes, bem como a contratação integral dos operários que já possuem vínculo com as microempresas, por entender que eles não vêm tendo seus direitos trabalhistas respeitados, o grupo empresarial avalia a possibilidade de desistir de investir no seguimento, o que ameaça o emprego de cerca de 5 mil potiguares.

Com o pedido do MPT deixando os trabalhadores sob tensão, a reportagem do Agora RN atravessou o estado, a convite da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), para conferir a rotina de trabalho dos operários que atuam nas chamadas facções têxteis em duas das principais cidades onde esta cultura econômica predomina: São José do Seridó e Parelhas. Em uma série de cinco reportagens, o Agora RN pretende expor a realidade daqueles que trabalham diretamente no ramo e que enxergam com grande temor uma possível decisão favorável da Justiça ao Ministério Público do Trabalho.

Em uma viagem que durou pouco mais de 15 horas, percorrendo cerca de dez municípios, o Agora RN fez sua primeira parada em São José do Seridó, cidade que possui 15 facções têxteis, empregando, ao todo, 600 pessoas. Lá, duas oficinas foram conferidas pela reportagem: Araújo e Câmara LTDA. e a Canaã Companhia Têxtil, na zona rural de São José.

Na Araújo e Câmara LTDA., 36 funcionários operam de segunda à sexta-feira, das 7h às 11h30, e das 13h às 17h18, diluindo as horas de um sábado de trabalho, para que possam aproveitar totalmente o fim de semana. De acordo com Marionete Medeiros, que comanda a microempresa, todos os funcionários possuem carteira assinada e estão regularizados de acordo com a lei, recebendo em dia o salário que corresponde ao piso da categoria: R$ 942. Com clientes como a Guararapes e a Hering, a empresa produz cerca de 600 peças de vestuário inferior (jeans, saias e calças) por dia. Por mês, o faturamento chega a R$ 85 mil.

A preocupação com a segurança e a saúde deles é evidenciada pelo ambiente de trabalho: bebedouros e ar-condicionado para refrescarem o cotidiano escaldante do labor seridoense, além de protetores de ouvido contra o barulho ensurdecedor das máquinas de costura, e máscaras para evitar a inalação de fiapos de tecidos. O semblante concentrado dos 36 faccionistas, posicionados em um largo ambiente de trabalho, não demonstrava qualquer vestígio de dificuldade ou sofrimento. O que se viu foi uma empresa funcionando a pleno vapor com a ajuda de seus colaboradores.

Além de ver o cotidiano dos operários, a reportagem também se preocupou em ouvir o relato deles. Pausando momentaneamente o progresso de seu trabalho, a faccionista Francisca Azevedo, de 57 anos, elogiou o ambiente no qual está inserida e se mostrou bastante receosa do que pode acontecer à sua realidade financeira e do município de São José do Seridó caso a Justiça defira o pedido do Ministério Público do Trabalho.

“Toda essa situação é muito ruim, afinal, sobrevivemos disso. Penalizar a Guararapes vai piorar nossa situação, que, pelo clima do Seridó, já não é tão boa. Não teremos do que sobreviver. Estamos trabalhando com qualidade boa e somos sempre protegidos. Eu trabalho aqui há sete anos e não tenho do que reclamar. É preciso lembrar que as facções desenvolvem a nossa economia e o fechamento delas prejudicará muito o município. Aqui já sofremos com a seca; se perdermos emprego, não teremos dinheiro sequer para comprar o básico, que é justamente a água”, lamentou Francisca.

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A faccionista Francisca Azevedo se disse temorosa com a possibilidade de perder seu emprego (Créditos: José Aldenir / Agora Imagens)

A política de segurança observada na Araújo e Câmara LTDA. se mostrou multiplicada pelo restante das facções visitadas. Na Canaã Companhia Têxtil, pertencente à empresária Anny Fabíola Nunes, a realidade é similar. Com 33 colaboradores (todos da comunidade de assentados desapropriada pelo Incra), a facção produz 12 mil peças por mês também do vestuário inferior e operando nos mesmos horários que a Araújo e Câmara LTDA.

Na Canaã, um ambiente um pouco menor, os trabalhadores utilizam os mesmos protetores de ouvido e máscaras vistos antes. Similarmente, os trabalhadores expuseram medo de perder seus empregos caso a Guararapes seja punida e resolva abandonar o mercado têxtil do interior do Rio Grande do Norte.

José Araújo, que trabalhou por 13 anos na construção civil e saiu “sem nada”, observa com tristeza a ameaça real aos empregos dos faccionistas. “É péssimo. A renda do Seridó vem daqui. Aqui eu sei que, quando sair, terei todos os meus direitos certinhos. Eu vejo que a contribuição das facções para a economia de São José é tudo. Aqui o trabalho é excelente e estamos sempre trabalhando protegidos; essa proteção é norma da empresa”, explicou.

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Funcionários das facções têm trabalhado com segurança e conforto (Créditos: José Aldenir / Agora Imagens)

Após a conversa com o faccionista José Araújo, o Agora RN deu adeus a São José do Seridó. O destino seguinte foi o município vizinho: Parelhas. Tão quente quanto São José, a cidade tem aparência menos rural que sua antecessora, mas nem por isso significa que pode se dar ao luxo de perder os empregos gerados pelas microempresas têxteis.

Na HI Confecções, primeira empresa visitada em Parelhas, o empresário Ivanildo Souza contou que trabalham exclusivamente com a Guararapes. Com uma possível saída do grupo, seu investimento de cerca de R$ 120 mil pode cair por terra. O medo dele é compartilhado por seus funcionários – com quem já considera ter uma relação familiar. Edilene Ícara definiu como uma “calamidade” o risco de tantas pessoas ficarem desempregadas de uma vez só.

“Estou há quase três anos trabalhando aqui e o trabalho é muito bom. Recebemos em dia e somos tratados muito bem. Sinto medo, pois sou mãe solteira e precisa do emprego, tanto eu quanto minhas amigas precisam desse trabalho para sustentar casa e filhos. Será uma calamidade se perdermos esse monte de empregos”, apontou a moça que, apesar de não trabalhar sob o frescor do ar-condicionado, conta com muitas aberturas para possibilitar o arejamento do local.

Caso o Ministério Público do Trabalho obtenha sucesso em sua empreitada, a previsão é de que cerca de R$ 420 mil deixem de circular por Parelhas. Levando em consideração que o suporte da cerâmica – outra atividade econômica que é tradição no interior potiguar – está enfraquecendo (em Parelhas costumavam haver 48 fábricas de cerâmica, agora são apenas 18), a perspectiva assusta os moradores que dependem das facções têxteis para sobreviver.

Vizinhas, a JJ Confecções e a Tendência Produção Têxtil foram as últimas paradas do Agora RN antes do fim da viagem. Com um espaço amplo e mais de 40 funcionários, a JJ Confecções e a empresária Eva Vilma Panício (presidente da Associação Seridoense de Facções) sofrem com a crise proporcionada pela ação do MPT. Sob risco da Guararapes ser penalizada, outras empresas têm evitado fazer demandas à facção. Há, inclusive, uma extensa sala complementar com maquinários abandonados. A intenção era dobrar a produção, mas, graças à incerteza do futuro, a JJ se vê obrigada a congelar seu crescimento como empresa.

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Facções estão sob tensão. Parecer favorável da Justiça ao MPT pode causar abandono do Grupo Guararapes às facções do interior (Créditos: José Aldenir / Agora Imagens)

A tensão afeta, como em todas as facções visitadas, o empregado. Valdeir Oliveira da Silva trabalha há três anos na JJ e torce para continuar lá por muito mais tempo. “A sensação é de que podemos ficar desempregados a qualquer hora, ultimamente as cerâmicas estão parando e aqui é basicamente nossa última fonte de renda”, contou à reportagem.

A sensação deixada pelos empregados das cinco facções visitadas se traduz na palavra “medo”. A principal preocupação dos empresários e faccionistas é que a ação do Ministério Público do Trabalho é baseada somente em algumas microempresas que foram flagradas desrespeitando as regras estabelecidas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Contudo, não são todas que estão incluídas neste patamar de infrações, mas, se a Justiça do Trabalho aceitar o pedido do MPT, as facções de 20 municípios do estado e 5 mil trabalhadores serão incluídos todos no mesmo barco.

thumbnail resized Facção Têxtil Canaã Sção José do Seridó 165

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