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Comércio Exterior

Ex-embaixador vê escalada dos EUA

Rubens Barbosa afirma que novas tarifas deixaram de ser apenas medida comercial e passaram a incorporar componente político na relação bilateral
Por O Correio de Hoje
20/07/2026 | 16:24

O ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e no Reino Unido Rubens Barbosa avalia que a nova rodada de tarifas anunciada pelo governo de Donald Trump representa uma mudança de natureza na relação bilateral. Para o presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), a decisão deixou de ser apenas um instrumento de política comercial e passou a incorporar um componente político, reduzindo o espaço para negociações técnicas entre os dois países.

Segundo Barbosa, a definição das tarifas foi uma “imposição” da maior economia do mundo, em um cenário de enfraquecimento dos mecanismos multilaterais de solução de controvérsias. Na avaliação do diplomata, a investigação conduzida pelos Estados Unidos sobre práticas comerciais brasileiras teve peso secundário no desfecho. “O Brasil apresentou sua defesa, dentro do que podia fazer, assim como outros países, mas não adiantou absolutamente nada. Então não é uma negociação, mas uma imposição dos EUA”, afirmou.

Rubens Barbosa embaixador
Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil dos Estados Unidos e Reino Unido, classificou a decisão dos EUA como violenta - Foto: reprodução / internet

Barbosa classifica a medida como uma “violência protecionista, unilateral” e argumenta que o Brasil foi tratado de forma distinta em relação a outros países latino-americanos. Para ele, fatores como Pix e desmatamento tiveram pouca influência na decisão americana, enquanto temas ligados às grandes empresas de tecnologia e à posição geopolítica brasileira ganharam relevância.

O ex-embaixador considera que a manifestação pública do secretário de Estado americano, Marco Rubio, com críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, introduziu um elemento inédito na crise comercial. “Foi introduzido um componente político na relação Brasil-EUA que não existia. A nota do Marco Rubio foi o primeiro passo”, disse.

Para Barbosa, uma eventual adoção da Lei da Reciprocidade pelo governo brasileiro poderá provocar uma reação ainda mais dura de Washington. “O Brasil não tem cacife para retaliar os EUA. Se o Brasil retaliar, vai haver contrarretaliação que pode afetar qualquer coisa aqui. É muito preocupante, porque pode afetar a economia e as empresas brasileiras”, afirmou.

Segundo o diplomata, os efeitos da nova política tarifária tendem a ser concentrados em setores específicos da economia brasileira. Ele cita estimativas da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) segundo as quais cerca de US$ 11 bilhões em exportações poderão ser afetados pelas novas tarifas, sobretudo nos segmentos de máquinas, equipamentos e produtos industriais fabricados sob encomenda, cuja realocação para outros mercados é limitada.

Barbosa avalia que o impacto macroeconômico sobre o Brasil tende a ser restrito, mas alerta para consequências relevantes no nível microeconômico, atingindo empresas exportadoras e cadeias produtivas diretamente dependentes do mercado americano. Entidades empresariais brasileiras e americanas têm defendido a continuidade das negociações para evitar o agravamento da disputa comercial.