Quinze homens presos na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, criaram uma coleção de roupas que foi convidada para a New York Fashion Week, a semana de moda de Nova York, marcada para fevereiro de 2027. A Coleção Revoada reúne 25 peças, montadas em 12 looks e feitas com técnicas manuais como crochê, macramê, bordado e fuxico. O trabalho nasceu num projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que junta criação artística, qualificação profissional e geração de renda para pessoas privadas de liberdade.
O convite partiu da Runway 7, e o desfile está previsto para acontecer no Sony Hall, de 10 a 14 de fevereiro de 2027. Para levar a coleção aos Estados Unidos, a equipe ainda procura patrocinadores e parceiros que ajudem a pagar a viagem.

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Origem
A coleção é fruto do projeto Tecendo Liberdades, criado e coordenado por Jéssica Cerejeira, que faz doutorado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRN e atua como professora colaboradora voluntária no Departamento de Artes da universidade. Em andamento desde o começo de 2026, a iniciativa usa o teatro e a confecção de figurinos para abrir aos participantes novas formas de expressão.
O ponto de partida foi o livro A Conferência dos Pássaros, de Peter Sís. Na história, um bando de aves sai em busca de um rei e, depois de cruzar sete vales, percebe que aquilo que procurava estava nelas mesmas. A narrativa guia as oficinas e também a nova montagem de Revoada, espetáculo do Grupo Arkhétypos de Teatro da UFRN que deve voltar aos palcos em setembro de 2027.
Nas atividades, cada interno constrói um personagem inspirado num pássaro e anota o que vive em diários sensíveis, método desenvolvido pelo pesquisador Thulho Cezar Santos de Siqueira. Todo o processo faz parte da tese de doutorado de Jéssica, Tecidos Encarcerados: o figurino e a cena como tecitura de liberdades, que tem como orientador o professor Robson Carlos Haderchpek, fundador do Arkhétypos.
“Ver os internos se entregando ao jogo e se reconhecendo como sujeitos, como seres criativos, tem sido revelador. A arte tem nos permitido quebrar barreiras e tem nos ajudado a voar, mesmo num espaço de restrição de liberdade”, disse Haderchpek.
Peças
De março a julho, os participantes traduziram em roupa as imagens do livro. As plumagens viraram franjas, as cristas deram forma aos chapéus e as asas apareceram em mangas largas. Doaram o material o SENAI-RN e as empresas Uniformize, Vicunha Têxtil, Santana Têxtil, Bonor e Casa do Zíper.
A estreia ocorreu em julho, no GINGA Moda RN, e os internos acompanharam o desfile por transmissão ao vivo dentro da penitenciária. Um dos modelos foi João Batista, ex-interno que já tinha deixado a prisão e cruzou a passarela vestindo um manto de crochê feito no projeto. Hoje, ele trabalha em casa, com as próprias máquinas de costura, e produz bolsas para vender.
A primeira edição do GINGA Moda RN foi realizada pelo Sebrae/RN em parceria com o Senai/RN e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec). O evento reuniu 45 marcas potiguares, recebeu lojistas de 18 estados e fechou R$ 1,5 milhão em negócios em dois dias, conforme balanço divulgado em agosto.
Repercussão
A coleção ganhou projeção nacional com um vídeo publicado pelo jornalista de moda e stylist Rogério S., elogiado pela cantora Fafá de Belém. Desde então, o trabalho virou tema de mais de 12 reportagens e passou a receber convites para eventos no Brasil e no exterior. Em setembro, com o apoio da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN) e do SIFT-RN, as peças desfilaram no Santa Catarina Fashion Week, em Florianópolis.
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Trabalho
Fora das passarelas, o projeto levou cursos e trabalho pago para dentro da penitenciária. A iniciativa Costurando Liberdades obteve R$ 99,3 mil no Edital 001/2026 de Penas Pecuniárias do Tribunal de Justiça do RN (TJRN). A proposta foi apresentada pela Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (FUNPEC).
A formação em moda é coordenada por Haderchpek, com Jéssica Cerejeira e o professor Sebastião Silva na vice-coordenação. As aulas começaram em 14 de outubro e percorrem dos fundamentos da área à prototipagem. A formação tem certificado da UFRN e termina com uma mostra-desfile em 12 de dezembro. O dinheiro do edital também vai comprar máquinas industriais, manequins de moulage e material para a oficina.
Por um acordo com o SIFT-RN, os internos já fazem bolsas mediante pagamento, destinadas à Feira da Indústria, atividade que também conta para a remição de pena. Está em negociação com a Uniformize outro acordo, que pode levar peças da coleção a uma loja colaborativa em São Paulo, com o valor das vendas repassado a quem as criou.
Próximos passos
A equipe tenta transformar as atividades em política permanente com a Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SEAP). No dia 29 de outubro, o plano foi apresentado ao secretário Raimundo Aribaldo Mendes de Souza. Entre as ideias está instalar um galpão fabril dentro da penitenciária para ampliar as vagas de capacitação e de trabalho, iniciativa incentivada pelo Ministério Público do Trabalho no RN que vai disputar verba em edital.
A experiência também chegou à universidade. No mês passado, o projeto foi exposto no 21º Colóquio de Moda, realizado na Universidade do Estado de Santa Catarina. Ainda em novembro, segue para o ICERI2026, em Sevilha, na Espanha, onde Jéssica vai conhecer também o Centro Penitenciário Sevilla II. Em 2027, a agenda prevê um desfile na sede da SEAP e uma mostra na Pinacoteca.
Participam do trabalho professores e alunos do Grupo Arkhétypos, coordenado por Sebastião Silva, além de Leônidas Oliveira. Também atuam os bolsistas Cadidja Alves Bezerra, Fanny Frasse Alberti, Graicy Awanny da Costa Machado, Layfson Gabriel da Silva Costa e Helton dos Santos Farias. A estudante de graduação Anny Costa integra ainda as oficinas, dedicadas à expressão corporal e à criação de outras formas de convivência entre os participantes.
Para Jéssica Cerejeira, o alcance do projeto não se mede pelas roupas. “Quando um homem que aprendeu a se encolher veste uma peça que ele mesmo criou e caminha de cabeça erguida, algo se reorganiza por dentro. O figurino permite que ele seja visto por outra narrativa, que não a da sentença. É isso que a arte pode oferecer: ferramentas para que eles escrevam uma nova história com as próprias mãos”, afirmou. As atividades podem ser acompanhadas no Instagram @tecendoliberdades, segundo publicou a edição impressa do Correio de Hoje desta sexta-feira 6.
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