A atriz potiguar Alice Carvalho, de 30 anos, está diante de um dos maiores papéis de sua carreira. Nascida em Natal e criada em Nova Parnamirim, na região metropolitana da capital, ela interpreta Marta Vieira da Silva na cinebiografia Marta, dirigida por Andrucha Waddington.
O filme tem estreia prevista para 8 de abril de 2027, pouco antes da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, que será sediada no Brasil.

A preparação para o papel levou Alice a uma rotina diferente da que havia enfrentado em outros trabalhos. Além de estudar a trajetória e as motivações da jogadora, a atriz passou a treinar três vezes ao dia, mudou a alimentação, deixou de consumir álcool, passou a dormir oito horas por noite e realiza consultas diárias com médicos do esporte.
“Todos os trabalhos que eu faço têm uma coisa física, mas é diferente”, contou Alice em entrevista. “Além de estudar a vida, as motivações dela, eu tenho sentido no corpo o tranco que é.” A experiência também estabeleceu uma relação entre a preparação para o filme e a própria percepção da atriz sobre o trabalho artístico. Para Alice, a exigência física do futebol se aproxima da relação que um artista desenvolve com o próprio ofício.
“É um casamento com o ofício que causa dor física”, afirmou.
A aproximação entre Alice e Marta não se limita à necessidade de reproduzir os movimentos da jogadora diante das câmeras. Segundo a atriz, há elementos da origem das duas que também contribuíram para a identificação durante a preparação para o personagem.
Alice nasceu em Natal, foi criada em Nova Parnamirim e cresceu em uma família da classe trabalhadora. Ela descreve a infância como simples, marcada por brincadeiras na rua e pelos pés descalços. Também considera um privilégio ter sido criada em uma família progressista.
A atriz afirma que a educação e a arte fizeram parte da construção de sua trajetória e que as experiências anteriores continuam presentes na forma como encara os personagens.
“Eu sou sempre empurrada para personagens que me fazem inevitavelmente olhar para minhas raízes”, disse. Com Marta, essa percepção ganhou outra dimensão. Alice é torcedora do ABC Futebol Clube, de Natal, e identifica na jogadora características que reconhece também em si mesma, como a origem, a maneira de falar, a cadência e a voz.
As duas se conheceram pessoalmente em dezembro do ano passado. Apesar da distância e das agendas de trabalho, a relação entre elas se aproximou. Marta vive nos Estados Unidos, onde atua pelo Orlando Pride, enquanto Alice participa de filmagens na Suécia, no Rio de Janeiro e em Alagoas.
A atriz passou a integrar uma lista de transmissão no WhatsApp em que Marta envia, todas as manhãs, um áudio de um salmo gravado por um padre de sua cidade natal.
“Eu sou do Candomblé, mas adoro. De verdade, não existem essas fronteiras”, afirmou Alice.
Sobre a convivência com a jogadora, a atriz também destacou o humor de Marta. “Eu me surpreendi com a gaiatice, Marta é muito engraçada”, contou.
Antes de assumir o papel da jogadora, Alice já havia interpretado personagens de destaque. Entre eles estão Dinorah Vaqueiro, da série Cangaço Novo, e Fátima, professora universitária de O Agente Secreto, filme que concorreu a quatro estatuetas no Oscar de 2026.
A atuação, porém, não é a única área de expressão artística da potiguar. Alice tem três livros publicados e planeja lançar um quarto no próximo ano. Ela também possui composições feitas em parceria com Russo Passapusso, músico do BaianaSystem.
A relação com a banda baiana ganhou espaço na trajetória da atriz. Alice participa de projetos ligados ao grupo e descreve o BaianaSystem como um lugar de criação artística.
“O Baiana é onde eu enlouqueço, é onde sonhamos muito”, afirmou.
Ela também destaca a possibilidade de construir os shows como espetáculos, sem se limitar às exigências das redes sociais.
“É muito raro hoje em dia poder não se render à métrica de rede social, poder ter uma liberdade conceitual nesse momento de criação”, disse.
A aproximação com o universo musical também levou Alice a trabalhar com Anitta, que participou da faixa “Balacobaco”, do BaianaSystem.
A relação entre as duas chamou atenção do público para especulações sobre um possível relacionamento amoroso. Alice, no entanto, afirma que prefere manter a vida pessoal longe da exposição pública.
Sobre Anitta, a atriz diz ter admiração pelo trabalho da cantora e pelas contribuições dela para a cultura pop.
“É uma pessoa muito inteligente, muito massa e eu adoro colaborar com ela”, afirmou.
Alice também explicou como estabelece limites entre sua vida pessoal e aquilo que se torna público.
“Eu me relaciono com as pessoas de CPF para CPF”, disse. Segundo ela, preservar a intimidade é uma forma de manter as relações no âmbito das pessoas envolvidas.
Outro trabalho que dialogou diretamente com a experiência pessoal de Alice foi Guerreiros do Sol, em que interpretou Otília. A personagem vive um romance com Jânia, interpretada por Alinne Moraes.
Para a atriz, a relação entre as personagens também representa uma forma de construir histórias sobre mulheres que não dependam de estereótipos associados a casais lésbicos na televisão.
“Estou construindo algo para que daqui a 20 anos não vire notícia o dia em que as personagens vão se beijar”, afirmou.
Alice também já falou sobre o processo de compreensão da própria sexualidade. Aos 19 anos, durante um conflito familiar, ela saiu de casa e passou um período distante até se sentir segura para retornar.
“Não rompi relações com ninguém, mas me senti ultrajada”, lembrou. A trajetória profissional também trouxe para Alice uma preocupação que, segundo ela, tem diminuído com o tempo: o medo de que as oportunidades deixem de aparecer.
Ao falar sobre o que ainda precisa provar a si mesma como atriz, ela citou justamente a necessidade de acreditar na continuidade da carreira.
“O que eu mais preciso provar para mim mesma é que o castelo não vai ruir, que os trabalhos vão continuar vindo”, afirmou.
Alice chamou esse sentimento de “fantasma da escassez” e disse que ele tem ficado para trás. Ainda assim, a atriz reconhece que as experiências anteriores continuam influenciando a maneira como olha para o futuro.
Ao falar sobre a personagem que agora interpreta, Alice também relaciona a trajetória de Marta às questões de raça, sexualidade, origem e gênero presentes na vida da jogadora.
Para ela, a história de Marta não pode ser separada do fato de ser uma mulher negra, sertaneja e que escolheu construir uma carreira no futebol.
“Marta é um corpo político”, declarou.
Alice também chama atenção para a maneira como a jogadora construiu seu caminho dentro do esporte. Na avaliação da atriz, Marta não precisou abandonar suas características para conquistar espaço.
“Uma mulher que decidiu jogar bola e, ao invés de bater de frente, ela toca por debaixo das pernas”, afirmou.
A atriz também recorreu a uma imagem para falar sobre a relação da jogadora com outras mulheres que vieram depois dela: mesmo quando recebe a “coroa”, Marta a divide.
É nesse ponto que a interpretação da personagem volta a encontrar a própria trajetória de Alice. Entre o cinema, a televisão, os livros e a música, a atriz potiguar segue construindo uma carreira marcada por diferentes linguagens — enquanto, para interpretar Marta, retorna justamente ao lugar de onde veio.