Mariana Moreira, potiguar de 27 anos, encontrou na bicicleta uma forma de atravessar a cidade e, ao mesmo tempo, de permanecer nela. Foi a partir de deslocamentos simples pelas ruas de Natal que ela passou a construir uma nova relação com o espaço urbano, transformando a rotina em descoberta e percurso em narrativa.
A aproximação com o ciclismo é recente. Surgiu da necessidade: morando a poucos quilômetros do trabalho, Mariana buscava uma alternativa mais econômica e prática para o dia a dia. A bicicleta resolveu o problema e rapidamente ganhou outro significado. “Foi amor de cara. Me apaixonei pelo ciclismo e, quando vi, já tava fazendo isso todos os dias da semana e como hobby no fim de semana também”, conta.

Estudante de Geografia, ela já carregava um olhar atento para a cidade. Mas foi pedalando que esse olhar se ampliou. No início, a ideia era registrar trajetos e expor as dificuldades enfrentadas no trânsito. “Eu queria gravar rotas e o dia a dia no trânsito, mostrando que apesar de usar as ciclofaixas eu ainda sofria bastante com desrespeito de motoristas e motociclistas. Mas depois percebi que dava pra apresentar a cidade de uma forma diferente”, explica. Aos poucos, o conteúdo deixou de ser apenas denúncia e passou a ser também convite.
Assim nasceu o perfil Natal de Bike no Instagram, que hoje acumula mais de 10 mil seguidores. Nos vídeos, Mariana percorre bairros, ruas e pontos conhecidos, e outros nem tanto, sempre trazendo contexto histórico e curiosidades que passam despercebidas na pressa cotidiana. O crescimento do público veio de forma espontânea, impulsionado por uma identificação coletiva. Um vídeo despretensioso, gravado na Ladeira do Sol, ultrapassou milhões de visualizações.
“Antes do Natal de Bike publiquei um vídeo pedalando na Ladeira do Sol, com áudio viral, desses de meme do instagram mesmo, e viralizou! Antes do fim do ano já tinha alcançado mais de 1 milhão de visualizações e as pessoas foram chegando por reconhecer o local. Foi mais um ‘gatilho’ de perceber que o natalense precisa e quer ver Natal nas redes sociais”, diz.
Mais do que produzir conteúdo, Mariana passou a experimentar a cidade de outra maneira. Pedalar exige atenção ao percurso: escolher ruas, observar fluxos, entender conexões e a organização da cidade. Quando estamos em veículos motorizados, normalmente nos preocupamos em chegar rápido ao local de destino, a velocidade e o destino importam mais que o percurso. De bicicleta não, o percurso é a parte fundamental.”, afirma. É nesse ritmo que a cidade se revela em detalhes. “A sensação é que Natal agora tem outras cores, outros formatos.”
Essa mudança também redefine o propósito do perfil. Mais do que incentivar o uso da bicicleta, Mariana quer aproximar as pessoas do lugar onde vivem. “Sou escoteira há 15 anos e sempre que recebemos visitas de escoteiros de outros estados faço questão de levar no centro histórico, explicar cada cantinho. Amo Natal e uso o Natal de Bike para que mais gente também possa sentir isso”, conta.
Ao mesmo tempo, pedalar também evidencia os limites da cidade. A falta de infraestrutura e o comportamento no trânsito aparecem como obstáculos constantes. “As ciclovias são insuficientes e muitas não se conectam. E, acima de tudo, falta respeito. Os motoristas ainda enxergam a bicicleta como um atraso”, relata. Entre buzinas, fechadas e disputas por espaço, o trajeto cotidiano exige atenção redobrada.
Ainda assim, Mariana segue pedalando e narrando. Entre um destino e outro, ela grava, observa, pesquisa. Muitas vezes, vive o percurso primeiro e registra depois, numa tentativa de não perder o que considera essencial: a experiência. “Eu tento aproveitar o passeio de verdade. A gravação vem depois, com mais calma”, explica.
Hoje, mesmo sem se colocar inicialmente nesse lugar, ela reconhece o impacto do que produz. Mais do que uma influenciadora de estilo de vida, Mariana se vê como alguém que desperta olhares. “Gravo o caminho chegando no local, gravo alguns takes do destino e só gravo o texto do roteiro (narração) depois de chegar em casa, pra conseguir aproveitar bem o passeio”, diz.
Esse é o ponto central do seu trabalho: desacelerar o olhar. Em uma cidade tantas vezes atravessada com pressa, Mariana propõe outro tempo, mais atento e sensível. No ritmo do pedal, ela mostra que a cidade não precisa ser apenas atravessada. Ela pode ser vivida, descoberta e, sobretudo, sentida.