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Cultue

Clube do livro: Se adaptar, de Clara Dupont-Monod

Confira a indicação e crítica de leitura deste mês
Por José Jullian Souza
17/07/2026 | 10:27

⭐⭐⭐⭐⭐

“O que a vida quer da gente é coragem”, disse Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Contudo, para falar sobre o romance da jornalista e escritora francesa Clara Dupont-Monod, “Se adaptar”, lançado em 2021, a frase, e peço desculpas pelo óbvio trocadilho, é adaptação: “O que a vida quer da gente é adaptação”. Ajustar, modificar, adequar, transformar, libertar e transformar. Os três primeiros verbos explicam o significado da palavra adaptar; já os três últimos o significado do ciclo de vida da borboleta (que deixa de ser uma lagarta para tornar-se um ser alado). E também explicam o contexto central deste livro.

A obra de Dupont-Monod tem como pano de fundo para os acontecimentos Cévennes, uma cadeia de montanhas localizada no centro-sul da França, cobrindo parte dos departamentos de Gard, Lozère, Ardèche e Haute-Loire. Uma paisagem bucólica marcada por montanhas, natureza e uma família em um constante processo de metamorfose. A cena é a seguinte: nasce numa família um menino inadaptado. Um corpo mole, de olhar móvel e vazio. Mas, no começo, a família não percebeu que ele tinha um problema. Sim, um problema, ainda que o bebê fosse até bonito, “como a autora deixa claro logo nas primeiras páginas do livro.

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Jullian reflete sobre como o livro é uma metáfora sobre os encontros que cada um de nós temos com pessoas tão diferentes ao longo da vida - Foto: reprodução

“Se adaptar” não é uma leitura para diversão ou passatempo. Muito menos uma leitura leve e alegre. É uma leitura densa, introspectiva, reflexiva e pulsante e, aqui sim, podemos voltar para Guimarães Rosa: é uma leitura que requer coragem. Pois, após a morte desse menino inadaptado toda a vida da família é transformada (para sempre).

Em meio às montanhas, são as pedras do muro da velha casa da família que testemunham e narram as trajetórias dos outros três filhos. O filho mais velho, com todo o seu amor absoluto e protetor; a filha do meio, com toda a sua rebeldia que assume para rejeitar a dor e a chegada do mais novo, após a morte do menino, que cresce em meio à sombra das memórias.

A cada página o leitor torna-se um observador das pequenas modificações que ocorrem com a família. Como lidar com a perda de alguém que desde o começo é anunciado em tom de despedida? Como seguir a vida imaginando como poderia ter sido se…? E como chegar em uma família depois da partida de um irmão que você só conhece pela escuta (e tristeza) dos outros? E, como adaptar-se à complexidade das diferenças? São perguntas existentes nas entrelinhas da obra.

Ao leitor, deixo claro que a emoção, seja ela qual for, virá. É uma leitura humana que entranha o corpo, a mente, o espírito e o coração. O simples movimento de virar a página é doloroso, mas, ao mesmo tempo, nos provoca uma ânsia em acompanhar a história dessa família que poderia ser a nossa família. A família do nosso vizinho, de uma colega de trabalho, de uma professora da faculdade. Porque, afinal, a sociedade não parece estar pronta para lidar com as diferenças (ao menos na prática).

O livro é organizado em três grandes partes: o mais velho, do meio e o último. A partir da ótica de cada um dos filhos, narrada pelas pedras das montanhas, conhecemos a história do menino que partiu, dos pais e das relações entre a família sob os diferentes olhares e temporalidades.

E mais do que falar sobre a deficiência em si, “Se adaptar”, como destaca a autora, propõe uma reflexão sobre os laços entre os irmãos. “Deste então, o mais velho cresceu sem laços. Criar laços é muito perigoso, ele pensa. As pessoas que a gente ama podem desaparecer tão facilmente”. E com esta passagem, nós compreendemos no decorrer da leitura como o filho mais velho foi se relacionando com o mundo ao seu redor.

“Se adaptar” é um mergulho na alma humana. Na natureza mais profunda de uma família marcada não somente por uma perda, mas por várias perdas, distanciamentos, sofrimentos de quem viveu e de quem apenas sofreu as consequências de uma história ouvida pela “boca dos outros”. É uma metáfora sobre os encontros que cada um de nós temos com pessoas tão diferentes ao longo de nossa jornada de vida.