Os números do Carnaval 2026 no Rio Grande do Norte não surpreendem. A drástica redução no número de ocorrências policiais e, sobretudo, a ausência de homicídios, feminicídios e latrocínios durante o período se somam a outras estatísticas positivas na segurança pública. São consequência de um processo que vem sendo construído nos últimos anos.
Durante o período carnavalesco, uma megaoperação com mais de 8 mil agentes de segurança foi mobilizada em todas as regiões do Estado. O resultado foi concreto: nenhuma morte violenta nas áreas oficiais de festa e 54% de redução nos registros operacionais da Polícia Militar em comparação com o ano anterior. Além disso, uma queda de 72,5% na lavratura de termos circunstanciados.

São números relevantes. Mas o que merece destaque é o contexto. Não faz muito tempo que o Rio Grande do Norte ocupava manchetes nacionais por rebeliões em presídios, avanço de facções e taxas de homicídio entre as mais altas do País. Em 2017, a taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes chegou a 71. A realidade, porém, mudou. No ano passado, o índice caiu para 24. Invertemos a posição no ranking. Pela primeira vez na história, o RN registra menos de 1 mil mortes violentas por ano.
Nada disso aconteceu por acaso. É preciso reconhecer que a atual gestão estadual estruturou uma robusta política de segurança, alicerçada em três eixos: recomposição de efetivo, modernização de estrutura e fortalecimento da inteligência policial.
Foram realizados concursos, algo em torno de 20 mil promoções na Polícia Militar, contratação de novos policiais civis, investimento em viaturas, tecnologia, integração de dados e interiorização da inteligência. A antiga estrutura do Itep, que ganhou destaque nacional com cadáveres no pátio, deu lugar à Polícia Científica, com sede moderna e melhores condições de trabalho. A Cidade da Polícia Civil, inaugurada recentemente, simboliza essa reestruturação.
Ainda assim, é preciso manter os pés no chão. A criminalidade não desapareceu. Facções continuam atuando em comunidades vulneráveis, o tráfico mantém sua lógica de expansão e o consumo de drogas segue como desafio. Segurança pública não é política que se esgota em estatísticas de um feriado. É trabalho permanente.
Também não se sustenta apenas com polícia. A presença do Estado precisa ser completa. Em muitos bairros, a ausência histórica de serviços básicos — saneamento, educação de qualidade, emprego — abriu espaço para que o crime ocupasse lacunas. A repressão qualificada é parte da solução, mas não pode caminhar sozinha.
O ponto central é outro: o Rio Grande do Norte conseguiu sair de um quadro de colapso para uma situação de controle progressivo. Isso não significa que o problema esteja resolvido. Significa que há um caminho em curso.
Às vésperas de um novo ciclo político no Estado, a segurança pública não pode virar refém de disputas ideológicas. Políticas que deram resultado devem ser preservadas e aprimoradas, independentemente de quem esteja à frente do governo. A recomposição de efetivo, a valorização profissional, a inteligência integrada e o planejamento estratégico não pertencem a um partido; pertencem à sociedade.
Há ainda um aspecto frequentemente ignorado pelas elites: a violência atinge de forma desproporcional os mais pobres. São as comunidades periféricas que sofrem com a ausência histórica do Estado. Quando um integrante das classes mais favorecidas se torna vítima, a indignação ganha holofotes; mas, no cotidiano das periferias, a insegurança sempre foi regra. Por isso, qualquer política séria deve priorizar esses territórios, combinando policiamento qualificado com ações de educação, cultura, esporte e lazer.
O Carnaval 2026 terminou sem mortes violentas nas áreas de festa. Famílias puderam ocupar espaços públicos com menos medo. Turistas circularam pelo litoral sob monitoramento permanente. Esse ambiente de normalidade é fruto de planejamento e investimento.
O desafio agora é manter o padrão. Segurança pública não pode ser tratada como política episódica, acionada apenas em momentos de crise. Ela exige continuidade, avaliação constante e compromisso real com a população.
A missão civilizatória de qualquer governo é assegurar que cada cidadão, independentemente de renda ou endereço, tenha garantido o direito básico de ir e vir. O Rio Grande do Norte mostrou que é possível sair do abismo. Manter-se fora dele dependerá da maturidade política de seus líderes e da vigilância permanente da sociedade.