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Editorial

Fátima evitou um salto no escuro

Confira o editorial do Agora RN desta quinta-feira 19
Editorial
19/03/2026 | 05:12

A decisão da governadora Fátima Bezerra (PT) de permanecer no cargo até o fim do mandato, abrindo mão da disputa ao Senado, foi uma demonstração de responsabilidade e maturidade política. Diante das circunstâncias, a governadora preferiu agir sob cálculo político e abandonar um projeto pessoal, em vez de mergulhar o Estado em um cenário de ainda mais instabilidade.

Para disputar o Senado, Fátima teria de deixar o governo até 4 de abril. O plano, que vinha sendo trabalhado desde 2022 — quando ela foi reeleita — acabou inviabilizado após o vice-governador Walter Alves (MDB) anunciar que não assumiria o Executivo em caso de renúncia da titular. Com isso, o Estado caminharia para uma eleição indireta na Assembleia Legislativa, cenário em que o grupo governista não detém maioria suficiente para garantir a escolha de um sucessor.

Fátima Bezerra - Foto: Joana Lima/Governo do RN
Fátima evitou um salto no escuro - Foto: Joana Lima/Governo do RN

A perspectiva de um governo tampão em meio a uma Assembleia fragmentada ampliava o risco institucional. Além disso, havia a possibilidade concreta de o PT perder o comando da máquina justamente no período crítico da eleição. Isso poderia atrapalhar os planos não apenas da candidatura de Fátima ao Senado, mas também o projeto do secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier, ao governo.

Diante desse quadro, a governadora optou por permanecer no cargo. Ao justificar a decisão, afirmou que “não há cargo no Senado que valha sua coerência”, sinalizando que a conjuntura não oferecia condições seguras para a transição. Disse, ainda, ter “coragem” para tomar decisões difíceis como a de agora.

A decisão tem, portanto, um componente claro de cálculo político. A ausência de base parlamentar suficiente, somada à indefinição sobre o comando do Executivo em caso de renúncia, reduziu a margem de manobra. Em vez de avançar em um cenário incerto, Fátima recuou para manter o controle político e administrativo até o fim do mandato.

Não foi uma decisão trivial. Ao abrir mão da disputa ao Senado, a governadora deixa de concorrer a um cargo para o qual reunia condições competitivas, especialmente considerando o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o peso do lulismo no Nordeste. Além disso, a partir de 2027 ela ficará sem mandato pela primeira vez desde 1994, quando foi eleita deputada estadual.

Para completar, sua saída da disputa pode acabar enfraquecendo a chapa encabeçada por Cadu Xavier.

Ao permanecer no cargo, a governadora assume, por outro lado, papel central na articulação do seu campo político para 2026. Ela própria afirmou que vai “para a rua” e terá participação intensa no pleito. Caberá a ela liderar com muito mais comando a construção da candidatura ao governo, o fortalecimento das chapas proporcionais e a definição do nome ao Senado. A tendência já sinalizada é que o PT mantenha candidatura própria.

Não será tarefa simples. O candidato do governismo parte de uma posição modesta nas pesquisas e precisará crescer em um ambiente de forte polarização. Além disso, a oposição tentará transformar fragilidades da gestão em ativo eleitoral. Caberá a Fátima, portanto, não apenas concluir o mandato, mas entrar na campanha com disposição, articulação e capacidade de transferir capital político.

Fátima fez uma leitura responsável. Em vez de insistir em um projeto pessoal legítimo, mas dependente de uma engenharia política que desmoronou, optou por preservar a governabilidade. Em tempos em que boa parte da política gira em torno de conveniências imediatas, não é irrelevante que alguém contenha o movimento quando percebe que o custo institucional pode ser alto demais.

O Rio Grande do Norte, que já convive com dificuldades fiscais, gargalos históricos na educação e pressões permanentes sobre os serviços públicos, não precisava de mais um fator de perturbação.

Esse ponto é central. O Estado já enfrenta obstáculos relevantes demais para ser lançado em uma aventura de resultado imprevisível. Uma eleição indireta poderia produzir um governo provisório com baixa sustentação e forte tendência a operar sob lógica eleitoral. O resultado provável seria mais ruído administrativo, mais insegurança política e menos capacidade de resposta em um momento em que o RN precisa justamente do contrário.

A decisão reforça um aspecto importante: há momentos em que a política se orienta menos por ambição e mais por limites concretos. O cenário apresentado não oferecia garantias mínimas para uma saída segura do governo. Diante disso, a permanência se impôs como alternativa mais estável.

Com isso, o Estado evita entrar em um período de incerteza institucional que poderia comprometer a continuidade administrativa e projetos em andamento. A escolha não elimina os problemas existentes, mas reduz o risco de agravá-los em um momento já delicado.