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Saulo Spinelly

Do 1% nas pesquisas à Prefeitura: a vitória improvável de Zohran Mamdani em Nova York

Confira o artigo de Saulo Spinelly desta sexta-feira 7
Saulo Spinelly
07/11/2025 | 05:23

Em uma das reviravoltas políticas mais surpreendentes dos últimos anos, Zohran Mamdani, 34 anos, venceu as eleições para a prefeitura de Nova York, derrotando o ex-governador Andrew Cuomo por mais de oito pontos percentuais. Com 50,4% dos votos, o jovem deputado estadual será o primeiro muçulmano a comandar a cidade e o prefeito mais jovem em mais de um século.

Nascido em Uganda, filho de mãe indiana e pai ugandês, Mamdani chegou aos Estados Unidos aos sete anos e cresceu no Queens. Antes da política, foi rapper (“Young Cardamom”) e conselheiro habitacional. Sua ascensão, de um político marginal a líder da maior metrópole americana, desafia o establishment. Cuomo, apoiado por empresários e até por Donald Trump, parecia imbatível. Mais de US$ 20 milhões foram investidos por grupos de interesse para derrotá-lo — sem sucesso.

Do 1% nas pesquisas à Prefeitura: a vitória improvável de Zohran Mamdani em Nova York
Do 1% nas pesquisas à Prefeitura: a vitória improvável de Zohran Mamdani em Nova York - Foto: Instagram/Reprodução/@zohrankmamdani/@karamccurdy @strange.victory

Mamdani se define como socialista e integra os Socialistas Democráticos da América, mas sua campanha fugiu da retórica ideológica. Construiu uma narrativa focada em problemas reais: aluguel, transporte, creches e custo dos alimentos. Defendeu o congelamento dos aluguéis, transporte público gratuito, creches universais e supermercados municipais. As propostas, progressistas, foram apresentadas como soluções práticas.

Se Cuomo se escondia da imprensa e evitava debates, Mamdani caminhava pelas ruas, conversando com moradores e reforçando a imagem de político acessível e autêntico. Tornou-se o símbolo do imigrante que enfrenta o sistema para defender a classe trabalhadora.

Além do corpo a corpo, sua estratégia digital foi decisiva. A campanha apostou em vídeos curtos e carismáticos, com estética vibrante e linguagem de internet. O resultado foi uma mobilização massiva de jovens — a chamada Geração Z — que compareceu às urnas em números recordes, garantindo mais de 2 milhões de votantes, o maior índice desde 1969.

Seu vídeo de vitória viralizou: mostrava as portas de um metrô se abrindo com a frase “Próxima e última parada: City Hall (Prefeitura)” — um símbolo de ruptura com a velha política nova-iorquina.

No discurso de vitória, Mamdani falou em resistência: “Se há alguma forma de aterrorizar um déspota, é desmantelando as condições que lhe permitiram acumular poder”, disse, mirando Trump. E, num tom provocador, completou: “Donald Trump, já que sei que está assistindo, tenho quatro palavras para você: turn the volume up (aumente o som).”

Mais do que um triunfo local, sua eleição é vista como modelo para a nova esquerda americana. Mostra que é possível vencer o poder econômico e partidário com uma mensagem direta, humana e visualmente poderosa.

Agora, Mamdani terá de provar que suas promessas progressistas podem virar políticas concretas. O desafio é enorme, mas, se há algo que Zohran Mamdani já provou, é que subestimá-lo é um erro.
Afinal, ele já fez o impossível uma vez.