No Brasil, existe um tipo de crime que raramente aparece nas manchetes sangrentas dos jornais, mas que causa um estrago muito maior do que se imagina. São os chamados crimes de colarinho branco – fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro, desvio de verbas públicas. Eles não envolvem armas ou sangue, mas tiram remédio dos hospitais, comida das escolas, segurança das ruas e oportunidades de vida dos mais pobres. E o pior: a maioria das pessoas nem percebe o tamanho desse prejuízo.
Esses crimes são cometidos por quem está no topo: empresários, políticos, gestores públicos – pessoas que, muitas vezes, ocupam posições de poder e prestígio. Justamente por não envolverem violência física direta, como um roubo à mão armada, muita gente acha que não são tão graves assim. É como se, por não ter grito, sangue ou sirene, não houvesse crime. Mas há. E dos grandes.

A diferença é que os efeitos não aparecem de imediato. Eles são silenciosos, mas profundos: hospitais sem estrutura, escolas sem material, ruas sem segurança, filas intermináveis no SUS. O dinheiro que deveria garantir esses direitos está, muitas vezes, no bolso de quem já tem demais. E quem mais sofre é quem tem menos.
A sociedade, em geral, não vê esse tipo de crime com a mesma revolta que sente quando presencia um roubo comum – inclusive, há quem os defenda como “legítima defesa contra um Estado opressor”. Isso acontece por vários motivos, mas, principalmente porque e os criminosos de colarinho branco raramente são mostrados como “criminosos” – continuam sendo tratados como “gente de bem”.
A ciência explica isso. O sociólogo Edwin Sutherland já dizia que esses crimes são aprendidos nos ambientes de elite, onde muitos enxergam a trapaça como parte do jogo. Já para a criminologia crítica, o sistema de justiça funciona de forma desigual: pune com rigor os pobres e protege os ricos. Quem tem dinheiro paga bons advogados, ganha tempo nos tribunais e, muitas vezes, escapa da prisão.
E não é só uma questão de teoria. No Brasil, os casos são muitos, mas a punição é pouca. A maioria se livra da cadeia com base em brechas da lei, lentidão da Justiça ou mesmo influência política. Enquanto isso, a população vê a impunidade virar regra e passa a desacreditar da Justiça.
Essa realidade gera um efeito perigoso: as pessoas perdem a confiança no sistema, na polícia e até na própria democracia. Quando veem que o crime compensa para os ricos, muitos deixam de acreditar no valor da honestidade.
A impunidade alimenta a desigualdade, e a desigualdade sustenta a impunidade. Um ciclo perverso que corrói o país por dentro. Mas há solução. E ela começa por fazer a população entender o tamanho do prejuízo causado por esses crimes invisíveis. A educação é peça-chave.