Natal viveu, nas últimas décadas, um ciclo de gestões meramente burocráticas. A cidade parece ter se acostumado com o básico, como a prestação de serviços essenciais, algumas intervenções pontuais e a manutenção do funcionamento mínimo da máquina. Nada que tenha configurado política de desenvolvimento urbano capaz de colocar a capital potiguar no patamar adequado ao seu potencial.
Faltou capacidade de investimento. E, sobretudo, faltaram recursos. Os dados falam por si. De 2002 a 2025, Natal não conseguiu nenhum financiamento externo relevante para obras estruturantes. Por dificuldades fiscais, a cidade ficou impedida de obter crédito. Enquanto isso, capitais nordestinas como Fortaleza (CE) e Salvador (BA) conseguiram empréstimos na casa de US$ 500 milhões a US$ 700 milhões no período.

É preciso reconhecer, porém, que a atual gestão municipal tem buscado romper essa lógica. Em que pesem os questionamentos da oposição, muitos deles legítimos, pertinentes e necessários, há um esforço evidente da equipe do prefeito Paulinho Freire (União) para tirar a cidade da letargia administrativa. Diante de um município há anos estrangulado fiscalmente, obter crédito é, neste momento, a única via realista para financiar transformações que a cidade deixou de fazer por décadas.
São três operações de empréstimo pretendidas pela gestão municipal. A última delas está em tramitação na Câmara e foi aprovada em primeiro turno no plenário nesta terça-feira 9. O projeto que autoriza a Prefeitura a contratar até R$ 660 milhões em operações de crédito com recursos do FGTS. O pacote prevê investimentos essenciais e historicamente represados: drenagem, urbanização, habitação, mobilidade e transporte.
Os vereadores da base, ao defenderem o projeto, listaram intervenções aguardadas por anos – de lagoas de captação a pavimentações em bairros periféricos, passando por obras estruturantes em áreas vulneráveis.
Antes disso, em novembro, a Prefeitura recebeu aval para buscar R$ 100 milhões para o projeto Natal Digital: Cidade Inteligente, Gestão Eficiente. Uma das ações previstas, entre muitas outras, é a construção do Centro Integrado de Operações Urbanas (Ciou), equipamento que vai integrar câmeras, sensores, trânsito, segurança pública, Defesa Civil e dados meteorológicos com uso intensivo de inteligência artificial. Além disso, o projeto prevê modernização de processos administrativos e uma série de incrementos tecnológicos que vão beneficiar, entre outras áreas, o turismo. É o tipo de salto tecnológico que cidades brasileiras já fizeram e que Natal deixou de perseguir por anos.
E há ainda o Natal Integra: Desenvolvimento Social e Econômico Integrado, talvez o mais relevante projeto social da cidade da história. Com US$ 50 milhões (mais de R$ 270 milhões, na cotação atual), em parceria técnica com o Banco Mundial, o programa cria uma nova infraestrutura social, agregando, entre outros equipamentos, as chamadas Cidades Sociais e as Casas do Fazer, que reunirão assistência, qualificação, cozinhas comunitárias, convivência comunitária e apoio à primeira infância. São 78 equipamentos de assistência social que deverão ser construídos. É um modelo moderno, usado em grandes capitais, e cuja lógica financeira prevê economia com o fim de aluguéis para amortizar parte da operação de crédito.
Três iniciativas, três frentes distintas – infraestrutura urbana, tecnologia e gestão, e desenvolvimento social –, todas ancoradas na premissa de que Natal só voltará a crescer se voltar a investir. E para investir, precisa buscar recursos.
Os que criticam a tomada de empréstimos têm razão ao exigir rigor, planejamento e transparência. Todo endividamento público precisa ser fiscalizado. Mas é improdutivo defender que uma cidade cuja receita mal cobre o custeio consiga realizar sozinha obras de grande porte. Sem novos financiamentos, nada disso sairá do papel.
Importante destacar ainda que todos os projetos terão aval e acompanhamento do Governo Federal. No projeto dos R$ 660 milhões, as propostas que a Prefeitura busca contemplar estão previstas no Novo PAC.
Natal, há muitos anos, não investe porque não tem como investir. E, se a única forma de romper esse ciclo é recorrer a operações de crédito bem estruturadas, com aval federal ou garantias próprias, que assim seja. O que não se pode é confundir prudência fiscal com imobilismo.
É legítimo debater prioridades, sugerir ajustes, questionar valores, fiscalizar cada execução. O que não parece razoável é tratar a busca por recursos como fraqueza ou temeridade. Quem pode ser contra investir na cidade? Quem pode ser contra devolver a Natal a capacidade de planejar e executar projetos estruturantes – aqueles que moldam o futuro e não apenas mantêm o presente funcionando?
Se Natal quer reencontrar seu projeto de cidade, precisa voltar a investir. Se, para investir, precisa financiar, que financie – com planejamento, rigor e visão de futuro. Porque o único cenário realmente inaceitável é permanecer parada.