Os números da mais recente pesquisa AtlasIntel indicam que a eleição presidencial de 2026 será, mais uma vez, uma disputa de medos. Assim como já aconteceu em 2022, quando Lula da Silva derrotou Jair Bolsonaro no fotochart, o eleitor caminha para fazer sua escolha decidindo o voto não porque foi convencido de um determinado programa, e sim para evitar o que entende ser um mal maior.
De acordo com o levantamento, 47,5% do eleitorado tem mais medo de uma eventual reeleição do presidente Lula do que da vitória de Flávio Bolsonaro. Outros 44,9% citam exatamente o contrário: que têm mais medo do filho do ex do que continuar com o atual. E para 7,1%, qualquer resultado é de dar calafrios.

Esses dados ajudam a compor o retrato do Brasil de 2026. Lulistas e bolsonaristas alimentam a radicalização para provocar justamente esse resultado. Afinal, o eleitor que teme um adversário tende a votar em quem está diametralmente do outro lado, em quem representa exatamente o oposto. É por isso que é tão difícil para o País sair da atual situação. Em um cenário como esse, há pouco espaço para a moderação, para o discurso conciliatório.
Lula nem esconde a estratégia. Numa reunião recente com ministros, ele falou que fará de tudo para evitar que o País volte ao “horror”. Já Flávio disse que, em outubro, o eleitor só tem duas escolhas: ou o “abismo” ou a “prosperidade”. Nada como levar o debate para o emocional. Assim, boa fatia do eleitorado é conduzida para o campo afetivo, e não para o debate racional. Em 2022, discursos amedrontadores foram usados excessivamente. O futuro pintado era aterrorizante. Agora, o caminho parece ser o mesmo.
Isso não é bom para a democracia. Na ciência política, há teóricos que mostram que, quando o medo é acionado, cresce a demanda por líderes percebidos como fortes e capazes de restaurar ordem. A busca passa a ser não por um gestor, e sim por alguém que vai resistir àquilo que se teme.
Não à toa, dos dois lados, os respectivos campos buscam constantemente projetar seus líderes como figuras messiânicas — um até se chama Messias mesmo e outro é cultuado como Deus. Também é por isso que o PT tem dificuldade de achar um substituto para Lula e o bolsonarismo resiste a ungir outro nome que não alguém da família. Quem poderia ser melhor do que o mito? Vale para os dois.
Assim, eleitores vão às urnas não para dar um voto, e sim um não-voto. A opção por Lula é para evitar Lula, e uns vão de Flávio para evitar Lula. Vence quem errar menos. Ou quem botar mais medo.
Quase sempre o medo parte de teses exageradas, do irrealismo. O caos projetado pelo bolsonarismo para o caso de uma vitória de Lula não se materializou. E o contrário provavelmente também não teria ocorrido. Mas, como diria Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, o terror não está no estrondo, apenas na antecipação dele. Nessa, para alguns é melhor não esperar para ver.
Enquanto isso, a discussão sobre o Brasil real fica em último plano. Não ganham destaque os planos de cada um para responder aos anseios da maioria da população. A maioria do eleitorado consegue detalhar com clareza o que pensa cada um dos lados sobre política de emprego, saúde, educação, assistência social, segurança pública? Não há profundidade no debate.
Candidatos que tentam se viabilizar como terceira via têm chamado atenção para isso. Mas parecem pregadores no deserto. Pouca gente parece disposta a ouvi-los.
Com isso, a política vai deixando de ser o terreno para o diálogo e a conciliação. E se transforma em um ringue no qual a vitória só se dá quando o adversário vai a nocaute. Nesta quinta-feira, aliás, foi quase isso que aconteceu no Congresso, quando parlamentares partiram para o confronto físico num ambiente cuja essência é o “parlar”, verbo em latim que significa falar, discutir, dialogar.
Quando o medo substitui o argumento, a política deixa de ser instrumento de solução e passa a ser mecanismo de sobrevivência. Enquanto a escolha for orientada pelo temor do outro, e não pela clareza de propostas, continuaremos reféns de ciclos de tensão que elegem governos, mas adiam soluções.
A pesquisa AtlasIntel foi realizada pela internet, com 4.986 entrevistas entre os dias 19 e 24 de fevereiro. Os eleitores foram selecionados pela metodologia de recrutamento digital aleatório. A margem de erro é de 1 ponto percentual. O nível de confiança da pesquisa é de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-07600/2026.