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Editorial

A pesquisa que deixou de medir

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 24
Editorial
24/03/2026 | 05:27

Há um momento curioso, e cada vez mais frequente, em que a política deixa de observar a realidade para começar a produzi-la. Não é um rompimento brusco, desses que se anunciam com alarde. Ao contrário, ocorre com a naturalidade das coisas que se repetem até se tornarem invisíveis. No caso das eleições, esse ponto parece ter sido alcançado quando a pesquisa deixou de medir o eleitor para, sutilmente, sugerir a ele o que pensar.

Os números mais recentes no Rio Grande do Norte oferecem um bom retrato desse fenômeno. Em um levantamento (Seta), Allyson Bezerra aparece com 37,3% das intenções de voto estimuladas, seguido por Álvaro Dias com 21,5% e Cadu Xavier com 8,1%. Em outro (Consult), Álvaro lidera com 31,18%, enquanto Allyson surge com 29,24%, em empate técnico. Cadu aparece com 6,35%. Entre um cenário e outro, não há apenas divergênciam, há quase duas narrativas distintas de realidade.

Consciência coletiva, participação e responsabilidade
A pesquisa que deixou de medir - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O eleitor, naturalmente, é convidado a escolher qual delas lhe parece mais plausível ou mais conveniente.

A inconsistência não é um detalhe técnico. Ela se amplia quando se observa o volume de indecisos: 51% na espontânea e 21,4% na estimulada de um dos levantamentos (Seta). Ou seja, metade do eleitorado, em certos recortes, ainda não decidiu seu voto. É precisamente nesse terreno indefinido que a pesquisa deixa de ser instrumento de leitura e passa a exercer uma função mais ativa: a de indução.

Como observou o juiz eleitoral Herval Sampaio, “a pesquisa funciona como um instrumento de alavancagem, totalmente deturpado da sua função”. Não se trata de uma acusação isolada, mas de uma constatação incômoda: o dado, que deveria iluminar, passou a orientar.

A lógica é simples e antiga, apenas mais sofisticada. O eleitor tende a se aproximar de quem parece viável. A percepção de força gera força. A de fragilidade, abandono. Nesse sentido, divulgar números não é apenas informar, é participar da disputa.

O problema, como sempre, não está na ferramenta, mas no uso que se faz dela. A pesquisa, quando conduzida com rigor, é um dos poucos instrumentos capazes de oferecer um retrato minimamente confiável de um momento político. Mas a própria legislação permite que esse retrato seja produzido sob critérios essencialmente formais. Cumpridos os requisitos burocráticos, pouco se indaga sobre a consistência material do resultado.

“Qualquer instituto atende aos requisitos formais com facilidade”, observou Herval. E, de fato, o País assistiu, nos últimos ciclos eleitorais, à multiplicação de institutos surgidos com a velocidade típica das oportunidades bem percebidas.

Não é difícil compreender o incentivo. A pesquisa publicada produz efeito imediato. Reorganiza discursos, movimenta apoios, altera estratégias e, sobretudo, molda expectativas. Em um ambiente político cada vez mais orientado pela percepção, e não pela substância, esse efeito vale tanto quanto o próprio voto.

Curiosamente, os profissionais da política conhecem bem essa diferença. É por isso que as chamadas pesquisas internas continuam sendo tratadas com discrição quase absoluta. Nelas, busca-se a verdade, ainda que incômoda. Nas públicas, com frequência, busca-se algo um pouco diferente: utilidade.

Há, nesse arranjo, uma espécie de acordo tácito. Todos sabem que os números podem não refletir integralmente a realidade, mas aceitam a regra do jogo enquanto ela lhes for, em algum momento, favorável. O eleitor, por sua vez, transita entre dados conflitantes tentando extrair deles uma coerência que muitas vezes não existe.

A Justiça Eleitoral, como reconhece o próprio Herval, atua com limites claros. Sua intervenção ocorre, em regra, apenas quando se consegue demonstrar abuso, o que exige um grau de evidência raro nesse tipo de prática. Fora disso, resta o controle formal e a expectativa, sempre renovada, de que o sistema se autorregule. Não tem se autorregulado.

Em países onde a tradição estatística é mais consolidada, discrepâncias relevantes entre pesquisas costumam exigir explicações técnicas detalhadas. Aqui, muitas vezes, produzem apenas novas pesquisas. A divergência não constrange; ela convive.

Há propostas para enfrentar esse quadro. Desde a criação de mecanismos de certificação de institutos até a limitação do número de levantamentos em determinados períodos. São ideias razoáveis, ainda que dependentes de uma vontade política que raramente se manifesta com urgência quando o problema beneficia, em alguma medida, todos os lados.

No fundo, a questão é menos técnica do que humana. A política sempre teve uma relação ambígua com a verdade. Precisa dela para se legitimar, mas frequentemente a considera um obstáculo operacional. A pesquisa, nesse contexto, tornou-se uma ferramenta elegante para resolver esse dilema: apresenta números. E os números, por definição, parecem neutros.

Nem sempre são.

O risco maior talvez não seja o erro pontual de um levantamento, mas a transformação silenciosa de um instrumento científico em peça de persuasão. Quando isso ocorre, a eleição passa a se desenrolar em dois planos: o real, onde os votos são depositados; e o percebido, onde as decisões começam a ser tomadas.

Entre um e outro, há espaço suficiente para que a política, como de costume, encontre formas de se reinventar.

Nem sempre para melhor.

O levantamento da Consult ouviu 1.700 eleitores em 55 municípios do Estado entre os dias 15 e 18 de março. Tem margem de erro de 2,37 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O registro na Justiça Eleitoral é o RN-03877/2026. Já a pesquisa Seta entrevistou 1.500 eleitores entre os dias 7 e 9 de março. A margem de erro de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. O trabalho está registrado na Justiça Eleitoral sob o protocolo RN-07529/2026.