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Infância

Lesões autoprovocadas entre jovens crescem 44% no Brasil

Estudo aponta aumento de internações e mortes e destaca fatores de vulnerabilidade na infância e adolescência
Por O Correio de Hoje
15/04/2026 | 13:38

A infância e a adolescência são etapas marcantes na formação individual, período em que se desenvolvem aspectos como personalidade, habilidades sociais e resiliência. Ao mesmo tempo, essa fase é caracterizada por maior sensibilidade emocional, o que pode aumentar a vulnerabilidade a situações de estresse ou experiências traumáticas.

Nesse contexto, o Brasil apresenta um crescimento nas ocorrências de lesões autoprovocadas entre jovens. Estudo publicado em março nos Cadernos de Saúde Pública aponta aumento de 44,3% nas internações relacionadas a esse tipo de comportamento entre 2013 e 2023. No mesmo período, as mortes tiveram elevação de 26,3%. Ao todo, foram registrados 18.382 casos de internação e 261 óbitos.

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Dor emocional atinge jovens no País - Foto: José Aldenir / O Correio de Hoje

A análise foi realizada com base em dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH), que reúne principalmente registros do SUS, por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

“Comportamentos autolesivos podem ser compreendidos como uma forma de lidar com um sofrimento emocional intenso, complexo e que não pode ser explicado por uma única causa”, afirma a médica Gabriela Garcia de Carvalho Laguna, residente em Medicina de Família e Comunidade na UFSB e autora correspondente do estudo. Segundo ela, diversos fatores podem ter influenciado o aumento das ocorrências ao longo da década.

Entre os elementos associados estão processos ligados à construção da identidade e ao sentimento de pertencimento. No entanto, conforme cartilha do Ministério da Saúde sobre prevenção da automutilação e do suicídio, a vulnerabilidade pode ser agravada por fatores como negligência familiar, conflitos domésticos, preconceito, exposição à violência — seja psicológica, física ou sexual —, problemas de saúde, uso de álcool e outras substâncias, privação de sono, transtornos mentais e uso excessivo de redes sociais.

O ambiente digital, inclusive, pode favorecer situações de isolamento, pressão estética e episódios frequentes de agressão. “O bullying vai além de brincadeiras. Trata-se de uma violência que pode ser tanto física quanto psicológica, muitas vezes intensa. Há uma relação de submissão, em que a vítima pode se sentir como refém”, explica o psiquiatra Elton Yoji Kanomata, professor do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.

Os dados também indicam que adolescentes entre 15 e 19 anos, especialmente residentes nas regiões Sul e Sudeste, concentram maior número de casos. As internações foram mais frequentes entre meninas, enquanto os óbitos ocorreram em maior proporção entre meninos, sugerindo diferenças nos padrões e na gravidade das tentativas.

Outro recorte relevante mostra maior incidência entre jovens pretos e pardos, tanto em internações quanto em mortes. Situações como racismo, desigualdades sociais, desemprego dos responsáveis e dificuldade de acesso a direitos básicos — como saúde, educação, moradia e alimentação — estão relacionadas ao sofrimento mental dessa população.

Entre os sinais mais comuns de sofrimento psicológico estão alterações de humor, como ansiedade, irritabilidade e tristeza, além de isolamento social, rompimento de vínculos, recusa em sair de casa, queda no desempenho escolar, redução de energia e aumento do tempo de uso de telas.

Especialistas ressaltam que não há um padrão único para identificar situações de vulnerabilidade emocional, o que exige atenção individualizada. Nesse processo, a participação de pais e responsáveis é considerada fundamental. “É importante respeitar a privacidade e estimular a autonomia dos jovens, mas isso não significa desconhecer a rotina e os desafios que eles enfrentam”, observa Kanomata.

Quando os sinais ainda não comprometem a rotina, a orientação é buscar diálogo com professores e a equipe pedagógica, para ampliar a observação sobre o comportamento do jovem. Em casos mais graves, a recomendação é procurar acompanhamento especializado em saúde mental, com psicólogos e psiquiatras.

A autora do estudo destaca a importância de ações preventivas. “O direcionamento de políticas públicas para estratégias de prevenção na atenção primária pode contribuir para reduzir as internações hospitalares por autolesão, além de melhorar a qualidade de vida e a saúde mental dos jovens”, diz Gabriela Laguna. “É fundamental identificar vulnerabilidade, como o bullying, e intervir precocemente, antes que a autolesão se torne um mecanismo de enfrentamento.”