O avanço das bicicletas elétricas como alternativa de mobilidade urbana vem transformando a forma de deslocamento em grandes centros ao redor do mundo. Ao mesmo tempo em que esses veículos ganham espaço por oferecerem praticidade, rapidez e menor impacto ambiental, médicos e especialistas em trauma observam um aumento no número de acidentes com lesões graves associadas a esse tipo de transporte.
A preocupação surge a partir de relatos registrados em hospitais e centros especializados em trauma de diversos países. Um dos casos que ilustra essa mudança no perfil dos acidentes ocorreu no Royal London Major Trauma Center, na Inglaterra, onde um homem na faixa dos 30 anos procurou atendimento após sofrer uma queda enquanto utilizava uma bicicleta elétrica compartilhada.

Inicialmente, o episódio parecia ser um acidente de baixa gravidade. O ciclista havia perdido o controle do veículo e caído durante o trajeto. No entanto, os exames revelaram um quadro muito mais complexo do que o esperado: uma fratura grave no tornozelo, com exposição óssea provocada pela perfuração da pele pela tíbia.
A gravidade da lesão exigiu um longo plano de tratamento. O paciente precisou ser submetido a múltiplas cirurgias para reconstrução da região afetada, além de procedimentos de enxertia de pele e tecido muscular. A recuperação inclui meses de reabilitação e um período prolongado afastado das atividades profissionais.
Segundo especialistas que atuam em centros de trauma, situações semelhantes têm sido observadas com frequência crescente. Médicos de diferentes países relatam aumento no atendimento de pacientes vítimas de acidentes envolvendo bicicletas elétricas, especialmente os modelos compartilhados amplamente utilizados em áreas urbanas.
O padrão das lesões também chama atenção. Diferentemente dos acidentes tradicionalmente associados ao ciclismo, que costumam resultar em escoriações, hematomas ou fraturas nos braços e punhos, os casos mais recentes apresentam danos mais severos, principalmente nos membros inferiores.
Entre as ocorrências mais registradas estão fraturas da tíbia, deslocamentos de joelho e tornozelo, além de lesões extensas que envolvem perda de pele e tecido muscular. Em muitos casos, os traumas apresentam características semelhantes às observadas em acidentes com motocicletas.
Especialistas apontam que parte dessa diferença está relacionada às próprias características das bicicletas elétricas. Os modelos utilizados em sistemas de compartilhamento costumam ser significativamente mais pesados do que bicicletas convencionais, chegando frequentemente a cerca de 30 quilos. Além disso, possuem aceleração mais rápida e exigem adaptação por parte dos usuários.
Quando ocorre uma perda de controle, o peso adicional do equipamento pode fazer com que a bicicleta tombe sobre a perna do ciclista ou a pressione contra o solo. Esse mecanismo gera forças de torção e compressão capazes de produzir lesões mais graves do que aquelas normalmente observadas em bicicletas tradicionais.
O crescimento acelerado desse meio de transporte também contribui para o aumento absoluto do número de acidentes. Nos últimos anos, sistemas de compartilhamento de bicicletas elétricas se expandiram rapidamente em cidades da Europa, América do Norte, Ásia e Austrália, tornando-se uma das modalidades de mobilidade urbana com maior ritmo de crescimento.
Dados observados em Londres mostram a dimensão da mudança. Atualmente, usuários de bicicletas elétricas compartilhadas representam cerca de 20% dos acidentes graves envolvendo ciclistas na cidade. Há menos de uma década, essa participação era de aproximadamente 1%.
Estudos internacionais também apontam uma tendência semelhante. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos analisou quase 14 mil ocorrências envolvendo bicicletas convencionais, bicicletas elétricas e patinetes elétricos. O levantamento constatou que as lesões relacionadas aos veículos motorizados dobraram entre 2021 e 2022.
Os resultados mostram ainda que aproximadamente 15% dos ciclistas feridos precisaram de internação hospitalar. As fraturas apareceram como o tipo de lesão mais frequente entre os pacientes atendidos.
Apesar do crescimento dos acidentes, pesquisadores destacam que a gravidade dos casos não está relacionada apenas ao uso das bicicletas elétricas. Diversos fatores influenciam o risco de lesões mais severas, incluindo idade avançada, consumo de álcool e colisões envolvendo veículos motorizados. Quando esses fatores são considerados nas análises estatísticas, os estudos indicam que usuários de bicicletas elétricas não apresentam probabilidade maior de hospitalização do que ciclistas que utilizam bicicletas convencionais.
Ainda assim, especialistas observam que muitos acidentes graves ocorrem devido à falta de familiaridade dos usuários com o comportamento das bicicletas elétricas. A aceleração mais intensa, o peso elevado e a dinâmica de condução diferente exigem um período de adaptação que nem sempre é respeitado pelos ciclistas.
Outra situação frequentemente identificada está relacionada à velocidade incompatível com as condições da via. Buracos, irregularidades no pavimento, curvas, cruzamentos e áreas de grande circulação de pedestres podem aumentar significativamente o risco de perda de controle quando o veículo trafega acima do adequado.
Com a expansão contínua das bicicletas elétricas nas cidades, profissionais da área de saúde e mobilidade defendem campanhas de conscientização voltadas ao uso seguro desses veículos. O objetivo é reduzir a ocorrência de acidentes graves sem comprometer os benefícios que a modalidade oferece para a mobilidade urbana e para a redução do uso de automóveis nos centros urbanos.
Enquanto o número de usuários continua crescendo, hospitais e centros de trauma seguem monitorando a evolução dos casos para compreender melhor os impactos desse novo perfil de transporte sobre a segurança pública e os sistemas de saúde.