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Arte

Artista potiguar Caroline Santos expõe obras no Rio de Janeiro e defende maior acesso à arte

Artista visual natalense participa da mostra "Caleidoscópio" a partir deste sábado 30, no RJ, enquanto reflete sobre desafios e potências da cena local
Caroll Medeiros
29/08/2025 | 08:21

Definir Caroline Santos é estar sujeito ao equívoco. Nascida e criada em Natal, a artista visual, de 34 anos, prefere habitar a fluidez, o trânsito e o movimento. “Quem eu sou está sempre em construção”, afirma, como quem recusa se fixar em categorias. Desde 2020, assumiu oficialmente a arte como ofício, depois de mais de uma década de experimentações com o desenho e a pintura.

Seu trabalho, de traço intimista e atmosfera onírica, se desdobra entre o figurativo e o abstrato. Caroline não teme as incompletudes ou o erro: prefere se abrir ao que chama de “manifestações do inconsciente”. É nesse espaço que sua pintura se constrói, guiada pela organicidade das formas e pela intensidade das cores. “Gosto de deixar espaço para o espanto, sem medo dos ‘erros’. A pintura se revela no processo”, explica a artista visual.

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Caroline Santos participa de exposição no centro cultural do Rio de Janeiro a partir deste sábado 30. Foto: Cedida/Elisa Elsie

“Minhas obras atualmente estão atravessadas pelas tensões causadas pelas multiplicidades, ambiguidades e complexidades das relações consigo e com as alteridades. Minhas investigações sensíveis acabam por me levar a formas mais orgânicas, assimétricas, ambíguas, mais surreais, com ocos nas imagens”, reflete.

Autodidata, a artista construiu sua própria relação com as técnicas, tateando materiais e descobrindo processos a partir da insistência e da curiosidade. As únicas aulas formais foram no campo da escultura, já na fase adulta. O caminho independente, no entanto, tem seu peso: “Ser artista independente é muita luta. Há muitas limitações e dificuldades de sustentar esse fazer artístico, tanto material quanto simbolicamente. Mas a gente vai resistindo, encontrando alternativas de fôlego.”

Seus quadros carregam a memória e o sonho, mas também o chão onde pisa. Caroline sabe que a cultura potiguar se infiltra em suas telas, mesmo quando não está explícita. “Nossas paisagens, nossos cheiros, nossa forma de viver aparecem. O fato de ser artista daqui já é suficiente para estar atravessada pela cultura potiguar, que entendo de forma aberta, múltipla”, ressalta. Foi essa percepção que a levou a revisitar a paisagem de Ponta Negra em uma releitura e a participar de mostras como Caju, na Pinacoteca do Estado.

A artista, no entanto, não esconde a inquietação diante da falta de políticas e circuitos consistentes para as artes visuais em Natal. “Ainda estamos muito aquém do que poderíamos ser. Temos artistas incríveis sem perspectiva. É importante construir espaços que nos incorporem e que ampliem o acesso da população à arte.”

Duas de suas obras estarão na exposição Caleidoscópio, que abre para o público no dia 30 de agosto, na Galeria Angelo Venosa, no Castelinho do Flamengo, centro cultural do Rio de Janeiro, apresentado pelo Instituto Artistas Latinas com curadoria de Francela Carrera e Ana Carla Soler. A mostra também estará dentro da ocupação para a feira Art Rio e reúne 24 artistas do Brasil, Argentina, El Salvador, República Dominicana e Guatemala e faz alusão à simbologia desse objeto lúdico e hipnótico que, ao girar, transforma fragmentos visuais em padrões simétricos, coloridos e sempre mutantes.

No fundo, o trânsito — esse estado fluido que Caroline assume como identidade — também é a força que move sua obra. Suas pinturas, nascidas de lampejos, silêncios ou da alquimia lenta das cores, abrem espaços para que memórias, sonhos e inconsciente se materializem. Não é pouco: em um cenário que ainda oferece pouco fôlego aos artistas visuais, a artista potiguar insiste em construir brechas de imaginação.