No Rio Grande do Norte, a famosa “sangria” tem predominado nos reservatórios de água. De acordo com o Instituto de Gestão das Águas do Estado (Igarn), 16 reservatórios atingiram a capacidade máxima de água nos últimos meses e dois estão com 90% da capacidade preenchida. Com o abastecimento em seu alcance máximo, os recursos hídricos têm trazido grande desenvolvimento econômico no interior do Estado, não só para a agricultura, mas também para o turismo regional.
Como forma de ter uma gestão adequada dos recursos hídricos no Estado, o diretor do Igarn, Paulo Sidney, apontou a outorga de direito de uso como principal instrumento, que envolve análise cuidadosa da demanda dos usuários e da disponibilidade hídrica, seja de superfície ou subterrânea. Um exemplo dessa gestão, explicou o diretor, ocorreu durante uma reunião de alocação de águas do complexo Armando Ribeiro Gonçalves Mendubim, onde foi revelado que 98% do volume destinado à produção já estava outorgado.

Situações como a redução drástica dos níveis de aquíferos em Baraúnas nos anos 1990 evidenciam a importância de evitar crises hídricas, como a que levou o reservatório da Armando Ribeiro a atingir apenas 11% de seu volume em 2018, destacando a necessidade de uma gestão eficaz para garantir a disponibilidade de água, especialmente em períodos de escassez.
Em relação às medidas adotadas pelo Igarn para garantir a gestão dos recursos hídricos, Paulo Sidney apontou a estratégias como a alocação negociada de água, que permite aos usuários definirem cenários de utilização conforme a disponibilidade hídrica.
“Se faz um estudo hidrológico dos próximos 12 meses, como aquele reservatório vai se comportar caso não haja a chuva suficiente para melhorar a sua reserva, a sua capacidade, caso ele não receba água e, a partir daí, se prepara cenários para os usuários. Aquela água, de acordo com o estágio, de acordo com a classificação que é feita, e os usuários é quem vão definir qual desses estágios eles vão adotar e é tirado uma comissão composta por usuários, pelos representantes do Estado, para garantir que aquela decisão seja cumprida”, disse.
Além disso, o diretor também citou a cobrança da água bruta e os planos de bacia como ferramentas essenciais para promover o uso racional dos recursos hídricos. Para a água bruta, ele relatou que, quando o usuário começa a pagar mesmo valores simbólicos por aquela água que ele está utilizando, ele vai entender que a água é um bem-dotado de valor econômico e que precisa ser racionado.
Economista chama atenção para qualidade da água
Se tratando de atração de investimentos, desenvolvimento de novos negócios e criação de novos empregos no interior potiguar, com a gestão de água, o economista William Eufrásio afirmou que um ponto fundamental da água e da energia está na garantia da qualidade de vida e no funcionamento de empresas. Isso porque a garantia da quantidade e qualidade da água é fundamentada para promover a estabilidade dos investimentos públicos e privados.
“A água em quantidade e qualidade possibilita o aumento da produção de produtos agropecuários favorecendo assim a agricultura familiar como também as empresas que utilizam a irrigação para sua produção. Em resumo, a garantia de um fornecimento estável de água, cria a possibilidade de estabilidade nos investimentos, por consequência, garante os empregos no setor privado e familiar.
Quando se fala que água é vida, está se afirmando que a água garante a produção primária e os demais processos produtivos, garante-se o emprego, a renda, os tributos e o lucro na economia”, ressaltou.
A longo prazo, o economista comentou que a gestão sustentável dos recursos hídricos também é fundamental para a manutenção do crescimento econômico, já que a água é um fator escasso no semiárido potiguar. Sendo assim, William afirma que é preciso controlar o consumo e os processos de captação se tornam essenciais para que esse fator não sofra reduções na oferta criando insuficiências para o processo produtivo.
“A instabilidade ou a insuficiência na oferta de água prejudica principalmente os mais pobres, que se veem excluídos das condições mínimas para sua existência. Nesse sentido, é fundamental que a oferta hídrica seja adequada para garantir a inclusão social dos mais pobres, garantindo condições de saúde adequadas e reduzindo os gastos com saúde”.
Sobre uma das formas de aumento da produção agrícola que resulta de uma gestão de água adequada, Paulo Sidney citou a carcinicultura, a técnica de criação de camarões em viveiros. “Nós temos exemplos no Estado da utilização da reciclagem da água, de modo a utilizar basicamente o mesmo volume de água durante determinados ciclos de produção da carcinicultura. É óbvio que fazer a reciclagem dessa água, usar essa tecnologia, acima de tudo esse princípio, possibilita que os custos de produção daquele ciclo da carcinicultura sejam reduzidos”, assegurou.
Sobre a relação de como a gestão desses recursos são integrados ao planejamento econômico regional, o economista William Eufrásio enfatiza que é necessário controlar e gerir a água para poder planejar o investimento produtivo público e privado, além de garantir o abastecimento mínimo para a população.
“Sem o controle dos recursos hídricos perde-se a possibilidade de realização de planejamento econômico viável e praticável. Para o investimento, em especial, privado, a estabilidade do fornecimento dos recursos produtivos é fundamental para sua manutenção”.