Reconhecido como um dos principais cartões postais do Rio Grande do Norte, o Morro do Careca continua com problemas de erosão e desgaste. O processo de aparecimento de falésias, que tem se dado naturalmente pela ação do mar, segundo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema), tem sido agravado e acelerado com atividades de visitantes na praia, os quais sobem na duna e chegam a degradar ainda mais o local.
Procurado pela equipe do AGORA RN, o Idema confirmou que a erosão incidente no Morro tem se acelerado mais recentemente e resultou na formação da falésia, o que facilita o processo de perda gradativa da vegetação de restinga, típica de planícies costeiras e dunas, situada nas laterais da faixa desnudas e nas proximidades da nova linha de ruptura da encosta.

O professor do Departamento de Geologia da UFRN Ricardo Farias afirma que o processo de erosão é natural e ocorre em todas as praias do Rio Grande do Norte e do Brasil. “Por exemplo, o nível do mar sobre aos pouquinhos, ele está subindo nesse momento, a taxa é uma coisa pequena, mas é constante, contínua”, citou, como um dos motivos para o processo.
Ricardo Farias afirma que existem maneiras de saber se o mar está avançando, e uma delas é pelo surgimento das falésias. “As falésias só estão aparecendo porque o mar avança e quando isso acontece, ele vai desgastando aos poucos as falésias. Então, a falésia é um indicador da elevação do nível do mar e do avanço do mar sobre o continente”, completou.
Entre as dificuldades enfrentadas pelo Idema na preservação do Morro do Careca, conter o acesso indevido de visitantes está entre as principais.
Subir no Morro do Careca e ultrapassar a área delimitada é uma infração ambiental. Pisar na duna, que integra uma área de preservação ambiental (APA), agrava o processo de erosão. Desde 1997, a Justiça proibiu o acesso à duna por causa disso. Segundo o Idema, com base nos artigos 72 e 73 do Decreto Federal nº 6.514, de 2008, a subida pode render multa que varia entre R$ 10 mil e R$ 200 mil.
Apesar disso, a fiscalização é precária e o local está sem isolamento. A área de contenção na base do Morro do Careca contava com uma cerca para bloquear a entrada. Hoje, com suportes de madeira, mas sem as cercas para impedir o acesso, os visitantes da orla conseguem entrar dentro da área e correm o risco de serem atingidos pelos sedimentos que deslizam a partir do processo de erosão. O Idema informou ao AGORA RN que “a cerca ainda está danificada, mas nos próximos dias devemos estar fazendo a restauração”.
Além dos processos de erosão presentes no Morro do Careca, um incêndio atingiu o topo da duna em 6 de fevereiro e afetou a vegetação local. As chamas foram controladas pelo Corpo de Bombeiros, que informou que a principal suspeita é que o incêndio começou por meio de ação humana, intencionalmente ou não. “Possivelmente deveria ter gente ali. Devem ter feito uma fogueira e essa fogueira saiu do controle. A perícia vai identificar se foi humano ou natural e, se foi humano, verificar se foi querendo ou se foi sem querer”, alegou o tenente-coronel Renato Paulo, do Corpo de Bombeiros.
O Idema informou, ainda, que, por ter ocorrido na base alta do Morro, o incêndio não chegou a afetar a base da falésia, mas prejudicou a vegetação do local. Após o incidente, o Instituto Técnico-Científico de Perícia (Itep-RN) coletou os materiais da área afetada pelo fogo para realizar a perícia do local, no entanto, o laudo sobre as causas do incidente ainda não está pronto e tem previsão para ser divulgado ainda em março.
Ambulantes denunciam que visitantes ignoram proibição e sobem morro
Felipe Freitas trabalha na orla de Ponta Negra há 15 anos e conta que sempre vê pessoas subindo na duna. “Dia sim, dia não. Às vezes passam a semana [subindo o Morro], mas sobem”, afirmou. Ele também menciona que os policiais estão diariamente na orla da praia, mas mesmo com a fiscalização, as atividades proibidas ocorrem.
O ambulante disse que muitos turistas não conhecem a norma de proibição, mas costumam perguntar se a subida é permitida no ponto turístico. “Perguntam à gente, aos garçons e nos bares se tem o acesso, se tem algum atrativo, mas alguns ficam subindo”, completou.
Uma das turistas que visitam a praia é Victória Araújo, que veio de Manaus para Natal com a família pela segunda vez e não sabia que é proibido subir no Morro do Careca. “Não sabia. Ninguém nunca falou”, disse.
O principal motivo da visita de Victória em Ponta Negra foi pela beleza do local, mas ela também explica que narram para ela uma época em que o Morro não estava tão desgastado. “É bem bonito, vim ano passado. Falaram que ele tinha mais areia e que agora está ficando sem. Meu pai até falou: tirem bastante foto porque daqui a pouco pode ser que não tem mais areia”, contou.
José Antônio trabalha como ambulante na praia de Ponta Negra há 24 anos e afirma que sempre vê pessoas subindo no Morro, bem como acessando a área proibida na base da duna. Ele afirma que especialmente turistas acessam o local, pois costumam não saber que a entrada no local e subida no Morro é proibida. “As pessoas que sobem é mais no final de semana, quando vem pessoas de fora que não tem informação sobre o Morro. Eles perguntam sobre o Morro e se pode subir, mas eu falo que já está interditado. Vi tanta gente subir que devastou a paisagem”, disse.
“De vez em quando a gente vê alguém subindo, até porque não tem seguranças lá para falar que não pode subir, apesar que tem uma cerca, mas não tem pessoas para orientar os turistas”, relatou. No entanto, para José, essa não é a única irregularidade na praia de Ponta Negra.
“Tem esse esgoto que infelizmente cai na minha barraca, desce na galeria cai aqui na minha barraca. Isso nos prejudica já há muitos anos e isso não é de agora. Aí eu pergunto: como é que eles querem fazer? Como querem fazer um engordamento da praia de Ponta Negra, se não tem nem infraestrutura em termos de saneamento básico”, argumentou.
Semurb afirma que única alternativa é engorda da praia de Ponta Negra
Procurado pela reportagem, o secretário da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Thiago Mesquita, afirmou que não existe outro caminho para a melhoria na conservação do Morro do Careca além da engorda de Ponta Negra. “Não existe outra alternativa que não seja a engorda da praia de Ponta Negra. Isso foi apontado nos estudos feitos pela Universidade Federal do RN, a empresa Tetra Tech, através do Estudo de Viabilidade Econômica e Ambiental, também apontou como alternativa o aterro hidráulico, a engorda”, disse.
“Do ponto de vista técnico-científico, a única alternativa para reverter a problemática de toda a dinâmica costeira da praia de Ponta Negra e, obviamente, também do Morro do Careca, que está na ponta do continente, é o aterro hidráulico. Não há outra alternativa, até porque é um equipamento turístico, não tem que realmente colocar um enrocamento, colocar pedras e rochas para deixar comprometido o aspecto turístico ali. O Morro do Careca é a principal imagem turística que representa a cidade de Natal, como símbolo maior do turismo de Natal, a gente precisa o mais rápido possível resolver essa situação para que esse comprometimento não venha a chegar no futuro”, concluiu.