Vontade dá e passa? Ou a vontade não passa nunca, ainda que satisfeita? Quais e quantas são as necessidades? Porque elas variam tanto de pessoa a pessoa? Navegar pelos mares que envolvem desejos, necessidades, ganhos e perdas, tanto soa turbulento como prazeroso. Mas e a dor; o quanto pode ser dolorosa a travessia na tempestade das emoções divididas? Por isso, sábio é aquele que consegue, ainda que impossível fazer na exata (certa?) medida, passar pela vida alternando vontades e necessidades, desejos e renúncias, mesmo sofrimentos e prazeres.
A pretensão é refletir sobre a diferença entre vontade e desejo, vontade e necessidade. Na dicção de Alexandre Herculano, “É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os”. Para Shopenhauer, para cada desejo satisfeito existem dez que não o são. Sob a perspectiva de sua visão pessimista da existência, complementa: “A vida é uma constante oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir”.

O fato é que muito nos inquietamos defronte a inescapável realidade de que a maioria de nossos desejos não são alcançados. Porém, o primeiro passo para que evoluamos é destacar o que é vontade e o que é desejo. Desejar e não ter vontade significa inércia que pode ou não nos combalir. Contudo, se desejamos, em princípio a vontade é o elemento que falta para a obtenção de algo que nos fará bem.
Segundo passo vem com a compreensão do que é alcançável e o que não o é, a evitar frustração e inerente materialização do pensamento de Shopenhauer. Para que desejar se nem a vontade é capaz de nos satisfazer.
Depois, o controle do hedonismo impõe que se consiga detectar se o desejo e vontade caminharão verdadeiramente em nosso proveito. O desejo pode entristecer pela sua negação ou, até pior, pela sua realização. É nesse ponto que se chega a mais relevante reflexão: a necessidade coincide com o desejo e a vontade?Pela resposta negativa, há de se separar o joio do trigo, o que é relevante do que é irrelevante. Seriam muitos os exemplos, mas fiquemos em poucos.
Porque acumular riqueza material, em detrimento de qualidade de vida? Porque optar pelo trabalho em detrimento do convívio familiar? Porque ostentar em risco para a sua segurança? Porque buscar relações não saudáveis por força de status e vaidade?
A vida é um trilhar, onde, por vezes, se dá um passo para trás ou para o lado, a fim de um caminhar mais firme e consistente. É inerente à condição humana a dúvida sobre que desejos incrementar com a vontade; que interesse deve superar a não necessidade. Por isso, a encetar uma bússola, por mais falível que seja, há de se lembrar do dizer de Sartre; “Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo”. Que os nossos instintos e a nossa razão consigam nos orientar sobre aquilo que valha a pena lutar.