O macacão da Nike que cobre quase o corpo inteiro pôs inovação e patrocínio em rota de colisão no atletismo. A peça preta foi estreada pela britânica Keely Hodgkinson na competição Athlos e não poderá ser usada por ela nos Jogos Olímpicos. O motivo é contratual: a equipe olímpica da Grã-Bretanha tem parceria com a Adidas, marca concorrente.
Campeã olímpica dos 800 metros em Paris 2024, Hodgkinson é atleta da Nike. O macacão vai além de uma roupa de competição: faz parte de um estudo da empresa sobre quanto a área de pele coberta pelo tecido interfere no rendimento de quem corre. Quem apresentou a ideia à atleta foi Dan Farron, vice-presidente de inovação em design da companhia, partindo da hipótese de que tapar mais pele deixa o corredor mais veloz. A premissa do projeto, portanto, é que a superfície coberta pelo tecido influencia o tempo final da prova.

Foi quase um ano de conversa entre a corredora e a equipe de inovação da marca, ao longo de 12 meses, até sair a versão que foi para a pista. O modelo é todo preto e fecha braços, pernas, mãos e cabeça, sem deixar praticamente nenhuma parte descoberta. Sobrou pouca abertura no traje, e uma delas fica no capuz: um furo feito sob medida para o rabo de cavalo da atleta passar por ele e ficar de fora.
“Uma mistura de moda, velocidade e ciência, tudo junto”, afirmou Hodgkinson depois de competir com o uniforme.
A estreia num evento só de mulheres
A estreia foi no Athlos, competição só de mulheres criada por Alexis Ohanian, marido de Serena Williams — dona de 23 títulos de Grand Slam em simples. Na prova, a britânica venceu os 800 metros em 1min56s40. O tempo ficou pouco mais de dois segundos acima do recorde nacional dela, de 1min54s33.
Por si só, o resultado não diz quanto o traje ajudou, nem se chegou a ajudar em alguma medida. A aposta da Nike, no entanto, revela uma frente nova na disputa entre fabricantes por ganho marginal de desempenho. Depois do tênis, dos materiais e da aerodinâmica, agora é a roupa que entra na busca por frações de segundo, terreno em que as marcas disputam vantagem há décadas.
Além do desempenho, a atleta opinou na parte estética do projeto. Terminada a prova, disse que queria se sentir “sexy” na corrida, embora tenha feito a ressalva de que a escolha do uniforme ia além da aparência.
O palco escolhido conversa com isso. O Athlos reúne apenas mulheres e foi desenhado para aproximar o atletismo de um público mais amplo, misturando entretenimento e moda à programação esportiva. Foi nesse ambiente, e não num campeonato tradicional, que a marca decidiu mostrar a peça pela primeira vez.
“Um evento exclusivamente feminino, que gira em torno do brilho e do glamour, e que coloca as mulheres em evidência, um momento marcante, acho que foi a maneira perfeita de encerrar a temporada”, disse a atleta.
O contrato da delegação prevalece
A barreira aparece quando ela veste a camisa do país. O vínculo pessoal com a Nike continua valendo em prova individual, mas o uniforme da delegação britânica é da Adidas, e é ele que prevalece na Olimpíada. Quem decide o que aparece nas maiores vitrines do esporte, na prática, é o contrato assinado pela delegação, e não o acordo individual do atleta.
O episódio expõe uma disputa que passa longe da estética. Para as fabricantes, o atleta de elite acumula três papéis: compete, serve de vitrine comercial e ajuda a desenvolver produto. Uma inovação pensada para o desempenho de uma pessoa esbarra, então, no acordo coletivo de uma seleção inteira.
Para Hodgkinson, o macacão continua disponível como laboratório nas provas em que o uso está liberado — o que exclui justamente a competição de maior audiência do calendário. Na Olimpíada, a corrida entre as duas marcas termina antes de o tiro de largada soar.