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Ciência

Estudo identifica proteína que trava a regeneração do fígado mesmo depois que o paciente para de beber

Doenças hepáticas ligadas ao álcool causam cerca de 3 milhões de mortes por ano no mundo
Agora RN
02/09/2026 | 18:10

Poucos órgãos humanos têm uma capacidade de recuperação comparável à do fígado. Em condições normais, suas células conseguem mudar temporariamente de identidade para participar do reparo do tecido e, depois, retornar ao estado maduro. Em pessoas com danos graves provocados pelo álcool, porém, esse mecanismo pode simplesmente não terminar — mesmo depois que elas param de beber.

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, da Universidade Duke e do Chan Zuckerberg Biohub Chicago identificou um mecanismo que pode ajudar a explicar essa falha. O ponto central é a redução de uma proteína chamada ESRP2.

Drinque com gelo e rodela de limão servido no balcão de um bar
Doenças hepáticas ligadas ao álcool causam cerca de 3 milhões de mortes por ano no mundo. Foto: José Aldenir

Publicado na revista científica Nature Communications, o estudo indica que a inflamação desencadeada pelo metabolismo do álcool suprime essa proteína e interfere no processo necessário para que as células hepáticas completem sua regeneração.

O problema aparece em pacientes com hepatite alcoólica e cirrose. O consumo excessivo de álcool provoca inflamação nas células do fígado e pode deixá-las presas em uma espécie de estágio intermediário: elas começam o processo de transformação necessário à regeneração, mas não conseguem completá-lo nem recuperar plenamente suas funções. A descoberta ajuda a explicar por que interromper o consumo de álcool, embora seja fundamental, pode não ser suficiente para restaurar um fígado que já sofreu danos avançados.

Como o mecanismo funciona

O mecanismo envolve o chamado splicing do RNA, uma etapa da atividade celular responsável por processar as instruções genéticas antes que elas sejam usadas para produzir proteínas funcionais. A proteína ESRP2 desempenha um papel nesse processo. Quando seus níveis caem em razão da inflamação associada ao álcool, o processamento do RNA começa a apresentar falhas.

Segundo o estudo, essa deficiência provoca alterações em milhares de genes. Proteínas necessárias para a regeneração acabam retidas no citoplasma das células e não conseguem alcançar o núcleo, onde deveriam exercer suas funções. O resultado é um ciclo improdutivo: as células tentam participar da regeneração, mas permanecem em um estado no qual não funcionam normalmente nem conseguem concluir o reparo do órgão.

Os pesquisadores testaram essa hipótese em camundongos geneticamente modificados para não possuir o gene ESRP2. Os animais desenvolveram lesões semelhantes às observadas em casos avançados de hepatite alcoólica, reforçando a ligação entre a ausência da proteína e a dificuldade de regeneração.

Outro experimento trouxe uma possibilidade terapêutica. Em laboratório, o bloqueio de receptores envolvidos na inflamação conseguiu recuperar os níveis de ESRP2 e normalizar o splicing do RNA.

A descoberta aponta para duas possíveis frentes de tratamento: controlar o processo inflamatório responsável pela redução da ESRP2 ou corrigir diretamente os defeitos que surgem no processamento do RNA. A expectativa é que essas abordagens possam, no futuro, ajudar o fígado a retomar sua capacidade natural de recuperação e oferecer alternativas para pacientes com doença avançada que hoje podem depender de um transplante.

A equipe também identificou outra possível aplicação. As moléculas de RNA alteradas pela doença podem funcionar como marcadores biológicos, ajudando médicos a diagnosticar e acompanhar a evolução de problemas hepáticos relacionados ao álcool.

A dimensão dessa possibilidade é ampliada pelo peso das doenças associadas ao consumo de bebidas alcoólicas. As enfermidades hepáticas ligadas ao álcool são apontadas como a principal causa de mortes relacionadas ao fígado no mundo, com cerca de 3 milhões de óbitos por ano.

O estudo ainda não significa que exista um tratamento disponível capaz de reverter a hepatite alcoólica ou a cirrose por meio da ESRP2. A descoberta identifica, porém, uma etapa do processo que até agora ajudava a transformar a capacidade de regeneração do fígado em um mecanismo interrompido.

Entender como fazer essas células terminarem o caminho que já começaram pode abrir uma nova frente para tentar recuperar um órgão que, por natureza, foi feito para se reparar.