BUSCAR
BUSCAR
Crise

Recessão pôs 4 em cada 10 cidades de SP no vermelho

Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE) detectou que 263 cidades (41%) registraram déficit financeiro
Agência Estado
25/03/2017 | 10:02

Quatro em cada dez municípios paulistas fecharam no vermelho o primeiro ano da recessão econômica brasileira. Levantamento do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE) detectou que 263 cidades (41%) registraram déficit financeiro em 2015, quando o PIB nacional encolheu 3,8%. Em 197 das prefeituras, o rombo foi superior a 25% da receita.

O retrato fiscal é apenas uma das 230 fotografias analisadas pelo TCE sobre cada um dos 644 municípios que fiscaliza – apenas a capital fica de fora porque é fiscalizada pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) – , com base no Índice de Efetividade da Gestão Municipal (IEGM), que foi criado em 2014 para avaliar os resultados das políticas públicas nas cidades.

Recessão pôs 4 em cada 10 cidades de sp no vermelho

“É uma mudança de paradigma no modelo de auditoria. Antes a gente analisava a conformidade e a legalidade das contas, se estavam cumprindo o mínimo constitucional de gastar 25% com educação, por exemplo. Agora, a gente mede a qualidade dos gastos, se ele resultou na melhora do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)”, explica o presidente do TCE, Sidney Beraldo.

Com base em um questionário respondido pelas prefeituras, a Corte avalia anualmente os resultados das ações municipais em sete áreas (Educação, Saúde, Planejamento, Gestão Fiscal, Meio Ambiente, Proteção aos Cidadãos e Tecnologia da Informação). Com os dados compilados e auditados, o TCE classifica os 644 municípios em cinco categorias de gestão, que vai do “altamente efetiva” até a do “baixo nível de adequação”.

Segundo o IEGM, 424 municípios, 67% do total, tiveram uma gestão efetiva em 2015, ou seja, com índices que variaram entre 60% e 75% da nota máxima para cada área avaliada. Apenas 63 cidades (10%), entre as quais São Bernardo do Campo, São José dos Campos e Sorocaba, foram classificadas como muito efetivas. Nenhum município foi enquadrado como altamente efetivo na análise das sete áreas.

Na gestão fiscal, por exemplo, o maior déficit financeiro foi registrado pela cidade de Santos, no litoral paulista, com rombo de R$ 258 milhões. A prefeitura de Santos, porém, administrada pelo prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), já contestou dados do TCE e afirmou ter registrado superávit de R$ 76,4 milhões em 2015. Por isso, completa, “apresentou defesa perante o TCE demonstrando os números oficiais e reais da execução orçamentária de 2015 e apontando as divergências entre os dados publicados e os apresentados pelo TCE”.

Planejamento

Responsável pela adoção do índice em São Paulo, o conselheiro Sidney Beraldo acredita que o “principal indicador” responsável pelo desempenho das prefeituras é o de Planejamento. “Constatamos uma inconsistência muito grande entre o Plano Plurianual (PPA), que são as metas para quatro anos, com a Lei Orçamentária Anual (LOA). Cerca de 40% das metas do PPA não são executadas por falta de recursos previstos. Não há uma aderência entre as metas estabelecidas e o resultado final”, diz.

De acordo com o IEGM, por exemplo, quase 85% dos municípios paulistas aplicaram menos de 15% da receita arrecadada em obras e programas. Cerca de 12%, ou 81 cidades, investiram menos de 2% do que arrecadaram e só 17 municípios (2,8%) aplicaram mais de 15% em novas ações, que não incluem gastos de manutenção e pagamentos de salário a servidores.

Educação

A área da Educação é que a tem mais itens avaliados pelos auditores do tribunal, que vão da qualificação dos professores à qualidade da merenda escolar. O levantamento constatou, por exemplo, que só 422 escolas municipais (8%) do Ciclo 1 (1.º ao 5 º ano) do Estado oferecem ensino em tempo integral, com pelo menos sete horas/aula por dia. No caso da pré-escola, o índice é de 25% e nas creches, de 76%. A meta do Plano Nacional da Educação é que pelo menos 25% do total de alunos da educação básica tenham educação em tempo integral.

Ainda segundo o IEGM, 30% das escolas do Ciclo 1 não possuem laboratório de informática, 48% dos municípios paulistas não entregaram uniforme escolar aos alunos, 44% não entregaram kit escolar e 48% das creches, pré-escolas e escolas do Ciclo 1 precisam de algum tipo de reparo, como conserto de janelas, rachadura, infiltração e fiação elétrica.

Na Saúde, o levantamento constatou que apenas 437 dos 644 municípios têm alvará de funcionamento da vigilância sanitária em todos os locais de atendimento médico ou hospitalar e o tempo médio de espera para realizar um exame clínico na rede pública municipal é de 28 dias. Na área ambiental, o TCE apurou que no ano da pior crise hídrica da história do Estado, 411 cidades (63,8%) não possuíam plano emergencial com ações no caso de escassez de água potável.

As prefeituras têm até o fim de março para responderem o questionário do IEGM. Depois, técnicos do TCE compilam e checam os dados enviados e encaminham relatório aos auditores e conselheiros, que analisarão e julgarão as contas municipais daquele ano, podendo aprová-las ou rejeitá-las. A partir deste ano, o modelo será adotado pelos tribunais de contas dos demais Estados do País.

Beraldo afirma que o TCE já está trabalhando para lançar um índice semelhante para medir a eficiência das políticas públicos do governo do Estado, que também é fiscalizado pelo órgão. “E devemos levar em conta as regiões do Estado, que possuem realidades sociais e econômicas diferentes”, afirma.