BUSCAR
BUSCAR
Mercado de Trabalho

Pequenos negócios evitam saldo negativo de empregos no RN

Empresas de menor porte representam 88% dos negócios ativos e sustentam geração de vagas, mas saldo de empregos cai 89% no primeiro semestre
Por O Correio de Hoje
11/08/2026 | 16:51

Os pequenos negócios mantiveram o saldo de empregos formais do Rio Grande do Norte no campo positivo no primeiro semestre de 2026, apesar da desaceleração das contratações. Entre janeiro e junho, o Estado registrou 122.902 admissões e 122.186 desligamentos, com abertura líquida de apenas 716 postos de trabalho, o menor resultado para o período nos últimos cinco anos.

A diferença representa uma queda de 89,4% em relação ao saldo de 6.744 vagas registrado no primeiro semestre de 2025. Na comparação com 2024, quando foram criados 13.267 empregos, a retração chega a 94,6%. O desempenho de 2026 também ficou 91,4% abaixo da média de 8.351 vagas apurada entre 2022 e 2025.

Montagem mostra movimentação de pessoas em frente ao Midway Mall, em Natal, e mulher durante entrevista em estúdio
Apesar do saldo ser positivo na geração de empregos, a descaleração só não foi maior por causa das microempresas / Alinne Dantas, durante o podcast - Foto: josé aldenir/reprodução / tv agora rn

A perda de ritmo foi analisada pela gerente de Gestão Estratégica do Sebrae-RN, Alinne Dantas, durante entrevista ao podcast Economia e Negócios, da TV Agora RN, apresentado pelo jornalista Elias Luz. Segundo ela, as micro e pequenas empresas continuam responsáveis por sustentar o resultado positivo do mercado de trabalho potiguar.

“Quem mais gera emprego hoje, quando você vai analisar o primeiro semestre, os últimos 12 anos ou os últimos 10, 20 anos, quem sustentou a geração de emprego do Rio Grande do Norte foram os micro e pequenos negócios”, afirmou Alinne.

A série histórica mostra oscilações no emprego formal durante os primeiros semestres. O saldo passou de 7.312 vagas em 2022 para 6.080 em 2023, avançou para 13.267 em 2024 e voltou a cair para 6.744 no ano seguinte. Em 2026, a diferença entre entradas e saídas de trabalhadores praticamente desapareceu.

Alinne atribui o resultado tanto ao volume de demissões quanto à redução das admissões. As contratações caíram 6,7% em relação ao primeiro semestre de 2025, passando de 131.691 para 122.902. Os desligamentos recuaram em ritmo menor, de 124.947 para 122.186, uma queda de 2,2%. A combinação reduziu o saldo final.

“O resultado do primeiro semestre se deve não só aos números de desligamentos, mas também à redução do número de contratações. Houve essa redução no saldo positivo da geração de empregos formais do Rio Grande do Norte”, disse a gerente.

O setor de serviços foi o principal responsável pelas vagas abertas, com participação das atividades de fornecimento de mão de obra terceirizada. Alinne ponderou, no entanto, que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados considera somente vínculos formais e não alcança integralmente outras formas de ocupação e geração de renda. Essa mudança aparece na abertura de empresas ligadas ao transporte de passageiros e à entrega de mercadorias. O avanço dos aplicativos, do comércio eletrônico e das plataformas de entrega tem levado motoristas e motociclistas a formalizar atividades como microempreendedores individuais.

O Rio Grande do Norte possui 301.460 negócios ativos. Desse total, 266.226 são pequenos negócios, equivalentes a 88,3% da base empresarial do Estado. Entre as empresas de menor porte, 205.371 são optantes pelo Simples Nacional.

Os serviços concentram 107.346 pequenos negócios inscritos no regime simplificado, o equivalente a 52,3% do total. O comércio aparece em seguida, com 67.083 empresas, ou 32,7%. A indústria reúne 17.745 negócios; a construção, 12.128; e a agropecuária, 1.091.

As atividades mais numerosas refletem o peso do consumo cotidiano. O comércio varejista de vestuário e acessórios lidera, com 11.551 empresas ativas, seguido por cabeleireiros, manicures e pedicures, com 9.018. O varejo de mercadorias em geral, que inclui minimercados, mercearias e armazéns, soma 6.151 estabelecimentos.

A lista ainda inclui promoção de vendas, com 5.941 negócios; outras atividades de ensino, com 4.496; lanchonetes e casas de sucos, com 4.351; e restaurantes, com 3.975. Serviços administrativos, fornecimento de alimentos para consumo domiciliar e atividades de estética também aparecem entre os dez ramos mais numerosos. Apesar do tamanho da base empresarial, a abertura de negócios perdeu velocidade. No primeiro semestre de 2026, foram constituídas 32.004 empresas no Estado, das quais 31.070 eram pequenos negócios e 934 pertenciam às demais categorias. No mesmo período, 19.196 empresas encerraram as atividades, sendo 18.840 pequenos negócios.

A diferença entre aberturas e fechamentos foi positiva em 12.808 empresas. Entre os pequenos negócios, o saldo ficou em 12.230. O resultado, entretanto, mostra desaceleração diante de 2025, quando foram abertos 53.475 pequenos negócios e fechados 31.289, deixando uma diferença de 22.186 empresas.

Logística e transporte formaram o grupo com maior número de pequenos negócios abertos em 2026. Foram 4.048 registros de microempreendedores individuais, 223 microempresas e 35 empresas de pequeno porte, totalizando 4.306 novos CNPJs.

Segundo Alinne Dantas, o movimento inclui motoristas de aplicativos e trabalhadores que realizam entregas para empresas como Amazon, Shopee e Mercado Livre. “Junto com os Ubers, foi o segmento que mais se abriu no número de empresas em 2026”, afirmou. A gerente avalia que o crescimento deve continuar porque a atividade já integra a estrutura do comércio e do consumo. Ela também chamou atenção para o aumento da presença feminina nas entregas. A flexibilidade de horário permite conciliar o trabalho com tarefas familiares, embora a atividade esteja sujeita aos riscos do trânsito e à instabilidade da renda.

A formalização como microempreendedor individual oferece acesso à Previdência Social, emissão de notas fiscais e melhores condições para solicitar crédito. Alinne Dantas ressalvou que não existem dados suficientes para relacionar diretamente o crescimento do segmento à expansão dos financiamentos de motocicletas, mas reconheceu que a disponibilidade de crédito favorece a entrada na atividade.

Saúde e bem-estar aparecem na segunda posição, com 3.632 empresas abertas. O número reúne 2.189 MEIs, 1.248 microempresas e 195 empresas de pequeno porte. Segundo a gerente, o segmento cresceu 62% nos últimos sete anos, impulsionado por academias, fisioterapeutas, assessorias de corrida e outros serviços relacionados à atividade física.

Casa e construção tiveram 2.659 aberturas, seguidas pelos serviços de alimentação, com 2.640, e pela educação, com 2.244. Os dados mostram que o empreendedorismo está concentrado em atividades vinculadas a mudanças de consumo, serviços pessoais, urbanização e novas formas de trabalho.

O Sebrae-RN espera melhora do emprego a partir de outubro, período em que comércio, serviços e turismo começam a contratar para o fim do ano. Agosto e setembro ainda devem apresentar saldos próximos ao observado em junho, segundo Alinne.

A recuperação dependerá da capacidade dos negócios de organizar as finanças, ampliar vendas e acompanhar os hábitos dos consumidores. Para a gerente, o empreendedor precisa manter controles básicos, como fluxo de caixa e separação entre as contas da pessoa física e da empresa, além de comunicar produtos e serviços pelas redes sociais.

“O empreendedor tem que fazer o básico bem-feito. Ele tem que separar o que é do CPF dele, o que é do CNPJ”, afirmou. “Mas também tente observar como está o comportamento da sociedade ao seu redor. O que as pessoas estão fazendo? O que está acontecendo aqui ao seu redor?”

O Sebrae-RN mantém oito agências e duas lojas para atender os 167 municípios potiguares. Em 2025, a instituição prestou atendimento a 117 mil pequenos negócios com apoio de 120 colaboradores e de uma rede de consultores credenciados. Para Alinne, ampliar esse suporte será necessário para que o segmento continue gerando renda e evitando que o mercado de trabalho do Estado passe ao campo negativo.