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Conexão saúde

Ciência e espiritualidade: progresso material veloz e a lentidão da moral

Em participação no podcast Conexão Saúde, o psiquiatra Francisco Rodrigues e o professor de música Alexandre Atmarama discutem tecnologia, consumo, ética, tolerância e o papel da formação espiritual na vida cotidiana
Agora RN
05/08/2026 | 08:53

O avanço científico e tecnológico ampliou a expectativa de vida, transformou o trabalho e alterou a maneira como as pessoas se relacionam. Para o médico psiquiatra Francisco Rodrigues, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e o professor de música Alexandre Atmarama, porém, a evolução material não tem sido acompanhada, na mesma velocidade, pelo desenvolvimento de valores morais e espirituais.

Os dois participaram do podcast Conexão Saúde, da TV Agora RN, apresentado pelo jornalista Elias Luz, exibido em 30 de julho. A conversa tratou das relações entre ciência, espiritualidade, consumo, tecnologia, ética e saúde, além de abordar como crenças religiosas e filosóficas podem influenciar escolhas individuais e comportamentos coletivos.

Conexão Saúde 01
Professor Alexandre Atmarama, jornalista Elias Luz e o médico psiquiatra da UFRN, doutor Francisco Rodrigues durante podcast - Foto: REPRODUÇÃO / TV AGORA RN

Atmarama, que leciona na Escola Estadual Professor Otto de Brito Guerra, é violonista, compositor e estudioso da cultura védica, conjunto de tradições filosóficas e religiosas originárias da Índia. Durante o programa, ele apresentou conceitos relacionados aos Vedas e ao “Bhagavad Gita”, enquanto Rodrigues recorreu principalmente a referências cristãs.

As interpretações religiosas apresentadas pelos entrevistados pertencem ao campo da fé e da reflexão filosófica. Não foram expostas como conclusões científicas ou como orientações clínicas. A discussão se concentrou na maneira como a espiritualidade pode funcionar, segundo os convidados, como referência para decisões éticas e para o uso dos recursos produzidos pela ciência.

Rodrigues afirmou que o ser humano é resultado de um processo de evolução biológica, mas defendeu que a busca pelo crescimento material não deveria ocupar todo o espaço da vida. Para ele, uma sociedade que prioriza apenas a obtenção de recursos, poder e conforto corre o risco de perder parâmetros de convivência. “Se não tiver o aspecto moral controlando, todos os recursos podem se desviar em vez de benefícios e malefícios”, declarou. O professor citou a energia atômica como exemplo de uma descoberta que pode ser empregada tanto em tratamentos médicos quanto na produção de armas.

Na avaliação do psiquiatra, o conhecimento técnico não determina, por si só, o uso que será feito de uma descoberta. A decisão depende dos interesses e dos valores de quem controla a ferramenta. Por isso, acrescentou, o avanço material deveria ser acompanhado por uma formação voltada ao respeito, à responsabilidade e à consideração pelos efeitos das ações sobre outras pessoas.

Atmarama também classificou a tecnologia como uma ferramenta sem orientação própria. “A tecnologia está neutra nesse ponto”, afirmou. Segundo ele, o afastamento em relação à espiritualidade não seria causado diretamente por máquinas, plataformas ou descobertas científicas, mas pela maneira como os seres humanos as utilizam.

Para ilustrar a diferença entre cuidado material e atenção à vida interior, o professor comparou o corpo a uma gaiola e a dimensão espiritual a um pássaro. Na analogia, uma pessoa pode gastar tempo limpando, pintando e ornamentando a gaiola, mas se esquecer de alimentar o animal que está dentro dela.

Na leitura apresentada por Atmarama, sociedades orientadas por desejos de consumo tendem a produzir estresse, impaciência e disputas permanentes. Ele ponderou, contudo, que os avanços da ciência devem ser reconhecidos e podem contribuir para o bem-estar quando subordinados a objetivos de interesse coletivo.

Tecnologia exige orientação ética

A discussão avançou para o impacto do conhecimento científico sobre a organização social. Rodrigues sustentou que a racionalidade e a capacidade técnica não eliminam comportamentos associados ao egoísmo, à violência ou à busca de poder. Sem limites éticos, afirmou, o desenvolvimento pode ampliar a capacidade de produzir danos.

O professor relacionou essa reflexão à corrupção. Ele contou que costuma discutir com os estudantes da universidade situações nas quais profissionais entram no mercado dispostos a servir à sociedade, mas posteriormente passam a ter acesso a dinheiro ou estruturas públicas. Nesse momento, disse, surgem decisões que colocam à prova os compromissos assumidos. “Todo dia você tem tentações, em todos os níveis”, afirmou Rodrigues. Para ele, a formação profissional precisa incluir a responsabilidade sobre as consequências sociais das escolhas, e não apenas o domínio de procedimentos técnicos.

O psiquiatra também defendeu que a redução dos conflitos passa pelo rompimento de ciclos de retaliação. Ao recorrer ao ensinamento cristão de oferecer a outra face, explicou que a passagem pode ser interpretada como uma tentativa de interromper a sucessão de agressões. “Se eu vou dar outro tapa de volta e vem outro tapa de volta, então a coisa vai entrando em bola de neve”, disse.

Atmarama abordou o mesmo tema a partir da tradição védica. Em sua avaliação, a busca por posições de comando e superioridade pode fazer com que indivíduos se considerem proprietários absolutos da vida e do conhecimento. Para ele, reconhecer os limites individuais seria uma forma de diminuir a arrogância e orientar as habilidades profissionais para finalidades coletivas.

A conversa também tratou da relação entre o ritmo de consumo e o sofrimento emocional. O apresentador citou situações em que pessoas adoecem por não conseguirem comprar um telefone ou outro produto adquirido por conhecidos. Embora o programa não tenha apresentado pesquisas ou indicadores clínicos sobre o tema, os participantes associaram esse comportamento à comparação social e à colocação de bens materiais no centro da identidade.

Rodrigues avaliou que escolas e universidades poderiam reservar mais espaço para o debate sobre valores, convivência e responsabilidade. Já Atmarama afirmou que a educação não deveria se limitar à preparação para o trabalho e para a geração de renda, mas também estimular perguntas sobre identidade, propósito e efeitos das ações sobre a comunidade.

Trabalho como exercício de consciência

Ao serem questionados sobre como conciliar espiritualidade, trabalho e obrigações familiares, os entrevistados rejeitaram a ideia de que o desenvolvimento espiritual dependa do abandono da vida cotidiana.

Rodrigues afirmou que o progresso material e o espiritual podem caminhar juntos. A principal dificuldade, segundo ele, está em aplicar valores abstratos a situações concretas, como divergências em reuniões, conflitos familiares, alimentação e controle da raiva

Como referência prática, o médico recomendou que as pessoas se coloquem no lugar de quem será afetado por uma decisão. “Se eu estivesse no lugar dela, o que eu gostaria de ser feito?”, questionou. Segundo ele, esse exercício pode funcionar como uma “bússola comportamental”, embora não elimine erros nem reações impulsivas.

O psiquiatra também citou a oração como um momento de reflexão individual. Na visão apresentada durante o podcast, conversar com Deus sobre dificuldades e escolhas pode ajudar o indivíduo a examinar o próprio comportamento. Rodrigues reconheceu que a concentração exige disciplina e pode ser interrompida por preocupações, dispositivos eletrônicos e outras interferências do cotidiano.

Para Atmarama, o ponto de partida não é trocar de profissão ou abandonar responsabilidades, mas modificar a intenção associada ao trabalho. “Nós não precisamos sair do mundo, precisamos apenas espiritualizar nossas ações”, declarou.

Ele exemplificou que um cientista pode permanecer no laboratório, assim como médicos, professores e comerciantes podem continuar exercendo suas atividades. O desenvolvimento espiritual, em sua avaliação, estaria na destinação dos resultados do trabalho ao bem comum.

“Quando usamos o nosso corpo e o resultado do nosso esforço como ferramentas de serviço e devoção, o trabalho cotidiano se transforma em uma oração”, afirmou Atmarama. O mesmo princípio, acrescentou, poderia orientar pais e mães no cuidado com os filhos.

Na parte final do programa, os convidados apontaram a humildade, a educação e a tolerância como caminhos para uma mudança de comportamento. Atmarama recorreu ao “Bhagavad Gita” para falar sobre a necessidade de suportar períodos de felicidade e sofrimento sem perder o equilíbrio.

Rodrigues pediu atenção ao que chamou de banalização do mal. Segundo ele, injustiças, pobreza, violência e agressões podem ser normalizadas quando aparecem de maneira repetida no cotidiano. A reação, afirmou, deveria combinar indignação, responsabilidade e recusa à vingança.

Ao encerrar a participação, o psiquiatra resumiu a proposta discutida no Conexão Saúde: o objetivo não seria impedir a evolução material, mas retirar dela o papel de finalidade principal. “A gente nunca vai deixar de evoluir materialmente, mas [é preciso] deixar de tê-lo como principal e colocar o espiritual como principal, que deve direcionar nossas ações materiais”, declarou.