O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, viajou na sexta-feira 31, a Ceuta após uma entrada sem precedentes de migrantes procedentes do Marrocos. A estimativa do governo regional aponta que cerca de 60 mil pessoas cruzaram a fronteira por terra e pelo mar, enquanto o Ministério do Interior espanhol contabilizou aproximadamente 49 mil.
O número de mortos subiu para 57 no fim da tarde de sexta-feira 31, segundo atualização do governo espanhol. As mortes ocorreram por afogamento e durante tumultos nas áreas de passagem. Equipes de resgate retiraram corpos do mar, enquanto boias, roupas e objetos pessoais permaneceram espalhados pelas praias próximas à cerca fronteiriça.

A chegada em poucas horas correspondeu a mais de 70% da população de Ceuta, estimada em 83 mil habitantes. “Esse número demonstra que é impossível absorver tamanha pressão. É completamente impossível”, afirmou o presidente do governo local, Juan Jesús Vivas.
Milhares de pessoas, principalmente jovens marroquinos, entraram a nado, caminharam pela faixa costeira ou ultrapassaram as cercas que separam o enclave espanhol do território do Marrocos. Sem vagas nos centros de acolhimento, parte dos recém-chegados passou a noite em ruas, praças e calçadas.
As forças de segurança espanholas e marroquinas tiveram dificuldade para conter as travessias simultâneas. Houve confrontos na cidade marroquina de Fnideq, onde grupos tentaram derrubar barreiras e lançaram pedras contra os agentes. Veículos foram incendiados, enquanto policiais utilizaram cassetetes, gás lacrimogêneo e canhões de água.
Sánchez classificou a entrada em massa como uma violação da integridade territorial espanhola e atribuiu o movimento a redes de tráfico de pessoas e a informações falsas divulgadas nas redes sociais. O governo enviou militares, policiais e integrantes da Guarda Civil para reforçar a fronteira e organizar o atendimento aos migrantes.
Ao longo da sexta-feira 31, o fluxo começou a mudar de direção. O Ministério do Interior informou que aproximadamente 48,3 mil pessoas já haviam retornado ao Marrocos, parte delas voluntariamente. Imagens registraram grupos deixando Ceuta pelo mesmo ponto utilizado para entrar, enquanto outros migrantes continuavam chegando.
Uma das explicações investigadas envolve uma decisão do Supremo Tribunal espanhol de 29 de junho. O tribunal determinou que migrantes interceptados no mar ao tentar chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser submetidos às devoluções sumárias previstas para quem ultrapassa as barreiras terrestres.
A decisão não garante permanência automática na Espanha, mas exige identificação, análise individual e acesso aos procedimentos previstos na legislação migratória. O Ministério do Interior afirma que redes de tráfico exploraram uma interpretação incorreta da sentença para divulgar que a fronteira estaria aberta.
A crise também ocorre em meio a uma nova tensão entre Espanha e Marrocos. Sánchez visitou a Argélia em 20 de julho, país que apoia a independência do Saara Ocidental, território reivindicado por Rabat. O governo espanhol não afirmou que as autoridades marroquinas facilitaram as travessias, mas o precedente de 2021 voltou a ser lembrado.
Naquele ano, cerca de 10 mil pessoas entraram em Ceuta depois que a Espanha recebeu para tratamento médico Brahim Ghali, líder da Frente Polisário. O Marrocos reduziu temporariamente o controle da fronteira, em uma ação interpretada pelo governo espanhol como forma de pressão diplomática.
A crise atual provocou repercussão imediata na União Europeia. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, defendeu a possibilidade de suspender a Espanha do Espaço Schengen, área que permite circulação sem controles permanentes entre os países participantes. O chanceler italiano, Antonio Tajani, responsabilizou as políticas de Sánchez pelo aumento das travessias.
Madri reagiu convocando o embaixador italiano para prestar esclarecimentos. Finlândia, Áustria e Dinamarca manifestaram apoio à discussão de medidas contra a Espanha. A França anunciou o reforço dos controles em sua fronteira terrestre com o país para acompanhar possíveis deslocamentos após a saída de Ceuta.
A suspensão de um integrante de Schengen não ocorre por decisão isolada de outro país e dependeria dos procedimentos europeus. Os governos nacionais, entretanto, podem restabelecer temporariamente controles em suas próprias fronteiras quando alegam ameaça à segurança ou pressão migratória.
O episódio aumenta a disputa política sobre imigração dentro da Espanha. Partidos conservadores classificaram a entrada como falha do governo na proteção da fronteira, enquanto Sánchez mantém que a migração regular contribui para suprir a falta de trabalhadores e sustentar o crescimento econômico do país.
Em Ceuta, a prioridade imediata permanece na identificação das vítimas, no atendimento às pessoas que ainda estão nas ruas e na reorganização da fronteira. A queda no número de migrantes presentes reduz parte da pressão sobre a cidade, mas não encerra a crise diplomática nem o debate europeu sobre quem deve arcar com os custos da proteção das fronteiras externas do bloco.