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Economia

Agro do Agro do RN busca qualificação no campobusca qualificação no campo

Em entrevista à TV Agora RN, José Vieira aponta falta de trabalhadores, defende retomada de projeto irrigado e diz que Faern prepara agenda para candidatos ao governo
Por Elias Luz, O Correio de Hoje
03/08/2026 | 13:00

A escassez de trabalhadores qualificados, o envelhecimento da população rural e a dificuldade de manter jovens nas propriedades passaram a limitar a expansão da agropecuária no Rio Grande do Norte. A avaliação é do presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Estado (Faern), José Vieira, que defendeu a ampliação da formação técnica e dos investimentos em irrigação durante entrevista ao podcast Economia & Negócios, da TV Agora RN, apresentado pelo jornalista Elias Luz.

“Nós estamos vivendo um apagão de mão de obra no campo, isso é a verdade”, afirmou Vieira. Segundo ele, parte dos trabalhadores mais experientes está envelhecendo, enquanto os mais jovens buscam oportunidades nas cidades. A falta de perspectivas de renda e de acesso a novas tecnologias também dificulta a sucessão familiar nas propriedades. “Nós não estamos tendo sucessores, nós estamos tendo herdeiros. E isso, para nós, preocupa muito”, disse.

José Vieira, presidente da FaeRio Grande do Norte, durante entrevista ao podcast Economia & Negócios, da TV Agora RN.
José Vieira, presidente da Faern, destacou que a presença feminina no campo está aumentando Foto: José Aldenir

Na avaliação do presidente da Faern, a permanência da nova geração depende da capacidade de transformar a propriedade em um negócio que gere renda. “Como é que eles vão permanecer no campo? Se eles tiverem oportunidade. Se eles forem qualificados, treinados, preparados para produzir mais, com menos e com mais qualidade também”, afirmou. O problema atinge tanto pequenos agricultores quanto empresas ligadas à fruticultura, à pecuária e a outras cadeias que necessitam de trabalhadores especializados.

Vieira também relacionou a dificuldade de contratação ao receio de beneficiários do Bolsa Família de perderem o pagamento após a formalização do vínculo. Ele citou a existência de cerca de 540 mil empregos com carteira assinada no Rio Grande do Norte e de quase meio milhão de famílias atendidas pelo programa. Os dados, contudo, representam bases diferentes: o mercado formal contabiliza vínculos trabalhistas, enquanto o Bolsa Família registra unidades familiares, que podem reunir mais de uma pessoa.

O presidente da Faern afirmou não ser contrário ao programa de transferência de renda, mas defendeu políticas que facilitem a entrada dos beneficiários no mercado de trabalho. “Eu não sou contra o Bolsa Família. Eu acho que o Bolsa Família é um programa social extremamente relevante. Mas nós precisamos procurar a porta de saída do Bolsa Família”, declarou. Pelas regras federais, podem ingressar no programa famílias com renda mensal de até R$ 218 por pessoa, por meio do Cadastro Único. Há ainda mecanismos de proteção temporária para famílias cuja renda aumente após a obtenção de emprego.

O problema do emprego ocorre num período de crescimento limitado do mercado formal potiguar. O Rio Grande do Norte abriu 287 vagas com carteira assinada em junho, resultado de 19.584 admissões e 19.297 desligamentos. No primeiro semestre, o saldo estadual ficou em 716 postos, abaixo dos resultados observados na maior parte do Nordeste. No País, foram criados 921,6 mil empregos entre janeiro e junho, e o estoque chegou a 48 milhões de vínculos.

Para ampliar a oferta de profissionais, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Rio Grande do Norte (Senar-RN), ligado ao sistema Faern, mantém mais de 500 alunos em cursos técnicos. As aulas foram retomadas em polos e unidades parceiras distribuídos pelo Estado. A formação inclui agricultura, agropecuária, fruticultura, zootecnia e segurança do trabalho no meio rural.

Os cursos duram, em média, dois anos e combinam atividades on-line, aulas presenciais, visitas e práticas em propriedades. Conforme Vieira, entre 250 e 300 técnicos são formados anualmente. A instituição também presta assistência técnica e gerencial a mais de 7 mil produtores nos 167 municípios potiguares, com acompanhamento de agrônomos, veterinários e técnicos agrícolas.

Antes da retomada das aulas, cerca de 300 profissionais participaram do seminário “Fortalecendo os Saberes”, no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. A programação abordou cadeias como suinocultura, apicultura, fruticultura, bovinocultura de leite e pecuária de corte. A intenção, segundo Vieira, é atualizar o conhecimento dos profissionais responsáveis por levar técnicas produtivas e ferramentas de gestão às propriedades.

Vieira cobrou maior aproximação entre as instituições de ensino e as demandas das empresas e dos produtores. Segundo ele, parte dos recém-formados chega ao mercado sem conhecimento prático suficiente para atuar nas propriedades. “Nós precisamos, cada vez mais, com os nossos profissionais e alunos, fazer com que eles estejam bem próximos da vida como ela é”, afirmou.

A participação feminina é uma das mudanças identificadas pela entidade. De acordo com o presidente, as mulheres já são maioria entre agrônomos, veterinários e técnicos contratados pelo sistema Faern/Senar para prestar assistência no interior. Elas também ocupam a maior parte dos postos administrativos da instituição e ampliaram a presença em atividades de plantio, colheita, seleção de frutas e operação de equipamentos.

Vieira reconheceu que técnicas jovens ainda podem enfrentar resistência de produtores mais antigos, mas disse que o conhecimento apresentado durante o acompanhamento tende a romper essa barreira. A Faern mantém uma comissão voltada às mulheres do campo e realiza, durante a Festa do Boi, um encontro para discutir empreendedorismo, gestão rural e participação feminina nas cadeias produtivas.

Além da mão de obra, a disponibilidade de água aparece como uma das principais condições para elevar a produção estadual. Cerca de 93% do território do Rio Grande do Norte está no semiárido, segundo Vieira. Em parte dessas áreas, o subsolo cristalino dificulta a perfuração de poços e pode fornecer água com elevada concentração de sais. Por isso, a produção comercial de frutas, hortaliças e outras culturas depende de sistemas de irrigação.

As maiores áreas irrigadas estão concentradas no Vale do Açu, no Mato Grande, em Mossoró, Baraúna e na Chapada do Apodi. Essas regiões reúnem parte da fruticultura destinada aos mercados interno e externo. Nas áreas do Seridó, do Potengi e de parte da região Central, a disponibilidade hídrica menor restringe a expansão das lavouras tecnificadas.

Nesse contexto, Vieira defendeu a conclusão do Projeto Público de Irrigação Santa Cruz do Apodi, cujas obras permanecem paralisadas. O empreendimento foi planejado para atender áreas de Apodi e Felipe Guerra, aproveitando água regularizada pela Barragem de Santa Cruz. A primeira etapa, prevista inicialmente para aproximadamente 5,2 mil hectares, começou a ser executada em 2012, mas não foi concluída. O projeto completo possui potencial irrigável estimado em 9.236 hectares.

A expectativa de chegada das águas do Projeto de Integração do Rio São Francisco ao Oeste potiguar criou uma nova possibilidade de retomada. O Ramal do Apodi alcançou 91,86% de execução física no fim de 2025 e tem operação prevista para o segundo semestre de 2026. Com 115,5 quilômetros e vazão total projetada de 20 metros cúbicos por segundo, o sistema deverá atender 54 municípios do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba, alcançando cerca de 750 mil moradores.

Para Vieira, a segurança hídrica permitirá atrair empresas e produtores, mas a retomada precisa ser acompanhada por um modelo de administração que reduza interferências políticas. Ele propôs uma parceria entre poder público e iniciativa privada para operar a infraestrutura. O desenho apresentado prevê mais de 300 lotes, com áreas destinadas a pequenos e médios produtores.

O presidente da Faern também defendeu a conciliação entre atividade econômica e preservação ambiental. Segundo ele, o produtor depende da conservação de nascentes, do solo e da vegetação para manter a oferta de água e a produtividade. Ao mesmo tempo, argumentou que as normas precisam permitir atividades econômicas regulares em regiões sujeitas a restrições ambientais.

A Federação prepara ainda um documento com propostas para os candidatos ao governo do Rio Grande do Norte nas eleições deste ano. O material será elaborado a partir do “Rally do Agro”, levantamento realizado por técnicos em diferentes regiões para ouvir produtores e mapear problemas e oportunidades. Após a consolidação dos dados, a entidade pretende apresentar a agenda aos candidatos e parlamentares.

“Não adianta nós só reclamarmos. Se tem um problema, precisamos verificar qual é o problema e a forma de resolver”, afirmou Vieira. A pauta deverá reunir propostas sobre formação profissional, irrigação, crédito, segurança hídrica, legislação ambiental, assistência técnica e sucessão no campo, temas que, segundo o dirigente, determinarão a capacidade da agropecuária potiguar de gerar renda e ampliar a produção nos próximos anos.