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Enem

Enem: 63% dos estudantes relatam ansiedade antes da prova

Especialista explica como a pressão pela aprovação afeta a rotina dos candidatos e orienta sobre cuidados com a saúde mental
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
31/07/2026 | 17:22

A pouco mais de dois meses da aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), marcada para os dias 8 e 15 de novembro, a ansiedade já faz parte da rotina de milhares de estudantes. Levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), na pesquisa Escolha Profissional e Ansiedade, mostra que 63% dos alunos do Ensino Médio relatam ansiedade severa ao pensar no futuro profissional e na prova. Especialistas alertam que, quando não é controlada, a ansiedade pode comprometer tanto a preparação quanto o desempenho dos candidatos.

Segundo a psicóloga Brenda Barra, é natural sentir ansiedade diante de acontecimentos importantes, mas o quadro exige atenção quando passa a impedir atividades cotidianas. “Uma ótima régua é a gente pensar ‘será que a gente está deixando de fazer, de tomar atitudes que são importantes? […] Se impede você de fazer as coisas que são consideradas importantes, aquilo já passou de algo natural e passa a ser algo prejudicial”, afirmou. Para ela, muitos candidatos deixam de estudar ou até evitam comparecer à prova porque só de pensar no exame provoca sofrimento intenso.

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Especialistas alertam que a ansiedade excessiva compromete a preparação e desempenho dos candidatos; descanso, atividade física e pausas de lazer fazem parte da preparação - Foto: magnific

A psicóloga explica que a pressão vivida pelos estudantes favorece a chamada síndrome do desempenho, em que uma nota passa a definir a autoestima do jovem. “Quando a gente fala de ‘eu me dei mal na prova’, não é sobre a prova. O pensamento passa a ser ‘eu não sou bom o suficiente, eu não tenho capacidade’. Isso não define quem você é. É algo pontual daquele momento”, disse. Segundo Brenda, muitos candidatos chegam ao Enem com domínio do conteúdo, mas encontram dificuldade para demonstrar conhecimento devido ao estresse acumulado ao longo do ano.

Os primeiros sinais de esgotamento podem ser percebidos antes mesmo da prova. De acordo com a especialista, alunos antes interessados nas aulas passam a perder o interesse pelos estudos, apresentam dificuldade de concentração, cansaço constante e sintomas físicos, como taquicardia e sudorese.

“Tem muita gente que começa a não conseguir mais acessar os estudos. É um esgotamento tão grande que ela vai se distanciando dessa questão”, afirmou. A psicóloga acrescenta que professores e familiares costumam ser os primeiros a perceber mudanças de comportamento e podem contribuir para a identificação precoce do problema.

Descanso também faz parte da preparação

Outro ponto de atenção é o abandono do lazer em nome da preparação. Para Brenda, descanso faz parte do processo de aprendizagem e não deve ser encarado como perda de tempo. “É muito importante que se tenha momentos de lazer e de descanso”, afirmou.

Ela recomenda atividades culturais, prática de exercícios físicos e momentos em família, alertando para o consumo excessivo de redes sociais. Segundo a psicóloga, conteúdos publicados em plataformas como Instagram e TikTok frequentemente estimulam comparações e ampliam a sensação de insuficiência entre os estudantes.

A orientação também se estende aos pais e responsáveis. Brenda afirma que o incentivo pode se transformar em mais uma fonte de pressão quando o estudante é constantemente cobrado.

“Às vezes o jovem sai do quarto para descansar um pouco e escuta: ‘Você não vai estudar? Já parou?’. Isso vira uma pressão de pessoas em quem eles confiam”, disse. Para ela, a rede de apoio deve acolher o estudante e evitar discursos que aumentem a cobrança durante a preparação para o exame.

A busca por atendimento psicológico é indicada quando a ansiedade interfere na rotina, impede os estudos ou compromete atividades diárias. Brenda reconhece, no entanto, que o acesso ao tratamento ainda é limitado para parte da população. Enquanto isso, recomenda que estudantes procurem grupos de apoio, familiares e pessoas de confiança, sem substituir o acompanhamento profissional.

Ela também faz um alerta sobre a utilização de ferramentas de inteligência artificial como substitutas da terapia. “Isso não substitui o atendimento psicológico”, afirmou.

Nas semanas que antecedem o Enem, Brenda orienta que o foco deixe de ser apenas a revisão do conteúdo e inclua cuidados com a saúde mental.

“O objeto mais importante para que você se dê bem nessa prova é você enquanto indivíduo”, afirmou. Segundo ela, na véspera do exame o ideal é reduzir o ritmo de estudos, descansar, realizar atividades prazerosas e preservar o sono. “Respire, faça atividades que lhe dão prazer, esteja com a família. No dia anterior, relaxe”, recomendou.

Ao comentar a possibilidade de um resultado abaixo do esperado, Brenda afirma que a nota não deve ser interpretada como uma definição da capacidade do estudante. “As provas são um fragmento de um dia. Não definem quem você é nem se você tem valor”, disse.

Ela lembrou que iniciou a graduação em Psicologia aos 28 anos, após ter cursado Administração, e defendeu que trajetórias acadêmicas podem seguir caminhos diferentes sem representar fracasso. “Tem muito tempo ainda para errar, aprender e tentar novamente”, afirmou.

IFRN

A psicóloga afirma que a pressão emocional também alcança estudantes que disputam vagas no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), para muitos o primeiro processo seletivo de maior concorrência da vida escolar.

Com a prova marcada para 18 de outubro, adolescentes costumam concentrar no exame expectativas sobre o futuro, em uma fase ainda marcada pelo desenvolvimento emocional. Segundo Brenda Barra, isso faz com que muitos enxerguem a seleção como o momento mais importante de suas trajetórias.

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Brenda Barra: ansiedade é natural em provas, mas preocupa quando atrapalha a rotina – Foto: reprodução

A especialista relembrou a própria experiência na seleção do então CEFET-RN, atual IFRN. “Eu não queria nem fazer a prova. Minha mãe me deixou na porta da escola e eu ainda queria terminar um picolé antes de entrar”, contou.

Brenda afirmou que obteve uma pontuação elevada mesmo sem a tensão vivida por colegas que passaram meses estudando, mas acabaram prejudicados pelo nervosismo no dia da prova.

Para a psicóloga, a maturidade emocional influencia diretamente o desempenho dos estudantes. “Cada vez que uma pessoa é exposta a uma prova, ela vai ficando mais leve. A gente cobra muito de crianças e adolescentes, mas a mente deles ainda está em desenvolvimento”, disse.

Ela defende que pais e professores compreendam esse processo e evitem transformar a aprovação em um parâmetro definitivo sobre a capacidade ou o futuro dos jovens.

Brenda Barra ressalta que participar de processos seletivos faz parte da formação acadêmica e do amadurecimento emocional. Segundo ela, família e escola desempenham papel fundamental ao oferecer apoio e reduzir a pressão sobre os estudantes, ajudando-os a compreender que o resultado de uma prova representa apenas uma etapa da trajetória de aprendizagem, e não um julgamento sobre seu potencial.