A Fifa reagiu nesta sexta-feira 31 às críticas sobre a proposta de criar uma empresa para concentrar as operações comerciais e a realização de seus torneios. Em comunicado, a entidade afirmou que “ninguém está vendendo o futebol” e assegurou que manterá o controle da Copa do Mundo, do Mundial de Clubes e das demais competições.
A Fifa Forward Enterprise (FFE) seria uma subsidiária controlada pela própria Fifa. O projeto prevê transferir para a nova companhia atividades relacionadas a direitos de transmissão, patrocínios, venda de ingressos, licenciamento de produtos e organização operacional dos eventos.

A Fifa estima a empresa em cerca de US$ 20 bilhões e pretende oferecer a investidores externos uma participação minoritária de até 20%. A operação poderia levantar US$ 4,2 bilhões. Segundo a entidade, os sócios privados não teriam poder sobre regras esportivas, calendário, formato das competições ou decisões regulatórias.
Um veículo ligado à Thrive Eternal, iniciativa de investimentos fundada por Joshua Kushner, é apontado como possível líder do grupo de investidores. A Fifa trabalha com o banco JPMorgan na elaboração da operação, segundo a Reuters.
Como parte da proposta, cada uma das 211 associações nacionais receberia US$ 20 milhões do Fifa Forward entre 2027 e 2030. O valor supera os US$ 8 milhões previstos anteriormente para o período e seria pago independentemente da posição adotada pela federação durante as discussões.
O projeto também cria o FIFA Fast Forward, programa voluntário que prevê um aporte extraordinário de US$ 20 milhões por associação. Essa parcela dependeria da entrada dos investidores externos e seria destinada a projetos específicos de desenvolvimento do futebol.
Somados, os programas poderiam direcionar mais de US$ 10 bilhões às federações ao longo dos próximos ciclos. A Fifa afirma que a nova estrutura permitiria ampliar as receitas comerciais e distribuir uma parcela maior dos recursos entre países com menor capacidade financeira.
No comunicado oficial, a entidade disse que as informações divulgadas inicialmente pela imprensa prejudicaram a consulta planejada. A Fifa informou que retomará as discussões e que as federações poderão aprovar, rejeitar ou sugerir alterações em qualquer parte do projeto.
A proposta provocou reação da Uefa, da Concacaf e da Confederação Asiática de Futebol (AFC). As organizações criticaram a falta de consulta prévia, o prazo para análise e a ausência de detalhes sobre governança, investidores e compromissos financeiros de longo prazo.
As três confederações representam 143 das 211 associações filiadas à Fifa. A Uefa afirmou que a operação ultrapassa um limite ao transformar ativos ligados ao futebol em participação societária. Já a Concacaf declarou que tomou conhecimento de pontos do plano por meio da imprensa, antes de uma discussão interna.
A divergência também provocou uma baixa na estrutura da Fifa. Carlos Cordeiro, assessor do presidente Gianni Infantino e ex-dirigente da Federação de Futebol dos Estados Unidos, renunciou ao cargo nesta sexta-feira 31. Ele classificou o projeto como “um mau negócio para o futebol” e questionou a necessidade de levantar US$ 4,2 bilhões por meio da venda de participação em uma empresa que reuniria os principais ativos comerciais da entidade.
A Fifa afirma que a FFE somente será criada se receber o apoio da maioria das associações nacionais. Caso a proposta seja rejeitada, as operações comerciais e a organização dos torneios permanecerão sob o modelo atual.
A entidade sustenta que os investidores teriam participação econômica, mas não controle operacional. Para os críticos, porém, a entrada de capital privado pode criar pressão por aumento de receitas, mais competições, elevação dos preços dos ingressos e ampliação do calendário.
O debate deverá se concentrar na diferença entre controle formal e influência econômica. Embora a Fifa prometa preservar a governança esportiva, investidores que aportarem bilhões de dólares terão expectativa de retorno sobre o capital. As condições de saída, remuneração e proteção desses acionistas ainda não foram apresentadas integralmente às federações.
Com a resistência das confederações e a renúncia de um assessor de Infantino, a aprovação deixou de ser apenas uma discussão financeira. O projeto passou a colocar em disputa a forma como a Fifa administra seus ativos, distribui receitas e divide decisões entre a direção central e as 211 federações que formalmente controlam a entidade.