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Sono

Acordar às 5h da manhã não aumenta produtividade para maioria das pessoas, diz especialista

Professor especializado em sono afirma que reduzir horas de descanso para aumentar a produtividade prejudica o organismo
Por O Correio de Hoje
30/07/2026 | 17:21

A rotina de acordar às 5h da manhã, popularizada por influenciadores digitais e livros de desenvolvimento pessoal como estratégia para aumentar a produtividade, não encontra respaldo científico para a maior parte da população. A avaliação é do psicólogo Alfredo Rodríguez, professor especializado em sono e bem-estar no trabalho, que afirma que sacrificar horas de descanso para começar o dia mais cedo pode comprometer a saúde física, mental e o desempenho diário.

Em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, Rodríguez, autor do livro Dormir para Viver: A Ciência do Descanso na Era da Fadiga (Editora Kailas), analisou a popularização da chamada “rotina das 5h”, difundida por obras como O Clube das 5 da Manhã, de Robin Sharma.

RELOGIO
Apenas pessoas com predisposição biológica conseguem adaptar-se de forma natural à rotina de acordar às 5h. - Foto: magnific

Segundo o especialista, a proposta se baseia na ideia de conquistar mais horas de produtividade antes do início do expediente convencional, mas ignora as necessidades biológicas da maioria das pessoas.

“É uma moda passageira, e tem a ver com a ideia de ganhar horas sacrificando o sono, para que, quando todos os outros começarem a trabalhar, você já tenha sido produtivo por um tempo. Acordar tão cedo nos dá uma sensação de controle sobre o nosso dia”, afirmou.

De acordo com Rodríguez, apenas pessoas com uma predisposição genética “extremamente matutina” conseguem adaptar-se naturalmente a esse horário sem prejuízos. Para os demais, forçar o organismo a despertar muito cedo interfere nos ritmos circadianos, responsáveis por regular funções como o sono, a produção hormonal e a temperatura corporal.

Para ilustrar os efeitos da privação de sono, o psicólogo utiliza uma comparação: “Como vender o carro para comprar gasolina”. Na avaliação do especialista, reduzir o tempo de descanso para ganhar algumas horas de atividade acaba produzindo efeito contrário ao desejado. “Na realidade, levantar às cinco da manhã não faz muito sentido do ponto de vista biológico.”

Segundo Rodríguez, dormir menos do que o necessário afeta diretamente diversas funções cognitivas e emocionais. Entre os principais impactos estão a redução da capacidade de tomar decisões, já que um cérebro privado de sono apresenta maior dificuldade para avaliar riscos e alternativas; o aumento da irritabilidade devido à pior regulação emocional; e a perda de habilidades sociais, tornando a pessoa menos sensível às emoções e aos estímulos de quem está ao redor.

O psicólogo também ressalta que os prejuízos provocados pela privação de sono são cumulativos. Processos importantes que ocorrem durante a noite, como a eliminação de toxinas do cérebro, não são compensados apenas dormindo mais nos fins de semana.

Em vez de estabelecer um horário fixo para acordar, Rodríguez recomenda a adoção de hábitos que favoreçam um sono regular e de qualidade.

Entre as principais orientações estão manter horários consistentes para dormir e acordar diariamente, reduzir gradualmente a iluminação do ambiente antes de deitar, evitar o uso de telas no período noturno e estabelecer limites para o trabalho e para o uso de dispositivos eletrônicos à noite.

Segundo o psicólogo, essas medidas contribuem para preservar o ritmo biológico e melhorar a qualidade do descanso. Para ele, a sociedade precisa rever a forma como enxerga o sono e deixar de tratá-lo como tempo perdido.

“Hoje sabemos que dormir, comer bem e fazer exercício são os três grandes pilares da saúde. O sono não é uma interrupção da vida, mas uma das condições que permitem ter uma boa vida”, afirmou.