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Saúde do Idoso

Quando exames deixam de valer a pena para idosos

Estudos indicam que colonoscopias, tratamentos para hipotireoidismo subclínico e remoção de lesões na pele podem deixar de trazer benefícios para parte dos idosos
Por O Correio de Hoje
30/07/2026 | 16:58

Exames preventivos, medicamentos e procedimentos considerados rotina ao longo da vida podem deixar de oferecer vantagens para parte da população idosa. Pesquisas recentes mostram que, à medida que a idade avança, a relação entre riscos e benefícios dessas intervenções muda, tornando necessária uma avaliação individualizada antes de manter tratamentos ou repetir exames. Especialistas ressaltam, no entanto, que nenhuma decisão deve ser tomada sem acompanhamento médico.

O tema ganhou espaço em diferentes estudos internacionais que analisaram desde a necessidade de repetir colonoscopias em idosos até o tratamento do hipotireoidismo subclínico e a remoção de lesões cutâneas comuns em pessoas mais velhas.

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Estudos questionam benefícios de exames e tratamentos de rotina para parte dos idosos - Foto: magnific

O gastroenterologista Steven Itzkowitz, da Escola de Medicina Icahn, do Hospital Mount Sinai, em Nova York, relata o caso de uma paciente de 85 anos que havia chegado ao momento recomendado para repetir a colonoscopia. Embora estivesse em boas condições de saúde, o procedimento exigiria a suspensão temporária dos anticoagulantes utilizados devido a stents cardíacos, aumentando os riscos.

Segundo o médico, anos atrás ele provavelmente teria solicitado o exame sem hesitação. Hoje, porém, novas evidências científicas indicam que os benefícios do rastreamento do câncer colorretal diminuem após os 75 anos.

Nos Estados Unidos, o Grupo de Trabalho de Serviços Preventivos (USPSTF) classifica o rastreamento para pessoas acima de 76 anos como uma recomendação de grau C, indicando que o benefício esperado é pequeno.

Mesmo assim, um estudo publicado em 2023 revelou que quase 60% dos idosos que já haviam realizado colonoscopias anteriormente e possuíam expectativa de vida inferior a cinco anos continuavam recebendo indicação para repetir o exame.

Para o gastroenterologista Samir Gupta, da Universidade da Califórnia, em San Diego, essa situação é frequente. “Sei que esses pacientes têm um risco muito baixo de desenvolver câncer colorretal e, ainda assim, estou expondo-os a riscos adicionais”, afirma o médico.

Entre esses riscos estão sangramento, complicações relacionadas à anestesia e perfuração intestinal. Um estudo recente mostrou que quase 7% dos pacientes com mais de 75 anos precisaram de atendimento em pronto-socorro ou de internação hospitalar até um mês após a realização da colonoscopia.

Gupta coordenou uma pesquisa envolvendo aproximadamente 92 mil pacientes do sistema de saúde para veteranos dos Estados Unidos, todos com mais de 75 anos e que já haviam realizado colonoscopias anteriormente.

Cerca de 28% haviam apresentado adenomas — pólipos que podem evoluir para câncer — em exames anteriores. Apesar disso, após dez anos de acompanhamento, a incidência de câncer colorretal permaneceu muito baixa em todos os grupos.

O dado considerado mais relevante pelos pesquisadores foi a mortalidade. Apenas 0,5% dos pacientes que já haviam apresentado adenomas morreram em consequência de câncer colorretal durante o período analisado. Entre aqueles que nunca tiveram pólipos, o índice foi de 0,4%.

Enquanto isso, quase metade dos participantes morreu por outras causas ao longo dos dez anos de acompanhamento. Para Steven Itzkowitz, esses números ajudam a colocar o exame em perspectiva. “Mesmo quando o procedimento ocorre sem complicações, o mais provável é que não encontre nada.”

Em outro momento, ele acrescenta: “Mesmo em pessoas que já tiveram pólipos, a probabilidade de morrer por câncer colorretal é muito pequena quando comparada às inúmeras outras causas que podem levar ao óbito nessa fase”, afirma Itzkowitz.

Após discutir essas evidências com a paciente de 85 anos, o médico explicou que ela poderia deixar de repetir a colonoscopia. Segundo ele, a paciente ficou satisfeita com a decisão.

Outro tema avaliado pelos pesquisadores é o uso da levotiroxina, medicamento amplamente prescrito para tratar o hipotireoidismo.

Enquanto o tratamento do hipotireoidismo confirmado continua sendo indicado, estudos recentes colocam em discussão seu uso em pacientes com hipotireoidismo subclínico, condição em que os níveis hormonais apresentam pequenas alterações, geralmente sem sintomas.

Jacobijn Gussekloo, médica de atenção primária e pesquisadora do Centro Médico da Universidade de Leiden, na Holanda, explica que o hipotireoidismo provoca sintomas como ganho de peso, cansaço e ressecamento da pele. “Tudo no organismo fica mais lento”, explica.

Segundo pesquisas conduzidas por sua equipe, muitos idosos com hipotireoidismo subclínico apresentaram normalização espontânea dos hormônios da tireoide, sem necessidade de tratamento permanente. Os estudos também não identificaram melhora significativa dos sintomas nem benefícios clínicos relevantes com o uso contínuo da levotiroxina nesse grupo.

Além da ausência de benefícios em parte dos pacientes, o medicamento pode exigir exames frequentes, acompanhamento constante e apresentar interações com outros remédios utilizados por idosos.

Maria Papaleontiou, endocrinologista da Universidade de Michigan e autora de um editorial publicado na revista JAMA, destaca que doses elevadas podem aumentar o risco de arritmias cardíacas e perda de massa óssea. “O tratamento requer exames laboratoriais frequentes, consultas de acompanhamento, mais visitas ao médico e maiores custos”, afirma.

Pesquisadores holandeses desenvolveram um protocolo de redução gradual da medicação durante 30 semanas, acompanhado por exames periódicos. Ao final de um ano, um quarto dos 370 participantes, todos com mais de 60 anos, conseguiu suspender completamente o medicamento mantendo a função da tireoide dentro dos níveis considerados normais.

Apesar disso, Papaleontiou reforça que a interrupção nunca deve ocorrer sem supervisão médica. Segundo ela, alguns pacientes continuarão precisando da levotiroxina por toda a vida, enquanto outros poderão suspender o tratamento de forma segura após avaliação especializada.

Outra prática colocada em discussão envolve as queratoses actínicas, manchas avermelhadas ou ásperas provocadas pela exposição acumulada ao sol e bastante frequentes em pessoas idosas. Essas lesões costumam ser tratadas com crioterapia, cremes tópicos ou laser devido ao receio de evolução para câncer de pele.

Entretanto, segundo a dermatologista Allison Billi, da Universidade de Michigan, a maioria dessas lesões nunca evolui para um tumor. Uma metanálise publicada em 2013 mostrou que, em pacientes sem histórico de câncer de pele, a chance de uma queratose actínica tornar-se maligna é inferior a uma em mil.

Além disso, muitas desaparecem espontaneamente. Billi destaca que o tratamento pode ser mais incômodo do que a própria lesão. “A remoção costuma ser extremamente dolorosa, tanto durante quanto depois do procedimento.” Além da dor, o tratamento pode provocar irritação, inchaço e alterações permanentes na coloração da pele.

Como alternativa, a dermatologista defende o acompanhamento periódico dessas lesões durante consultas de rotina, reservando a remoção apenas para casos que apresentem crescimento acelerado, sangramento ou outras alterações suspeitas. Mesmo assim, ela reforça uma recomendação considerada indispensável: o uso diário de protetor solar para prevenir o surgimento de novas lesões.

Os especialistas destacam que os resultados dessas pesquisas não significam que idosos devam abandonar exames preventivos ou interromper medicamentos por conta própria. A principal conclusão é que decisões relacionadas ao tratamento precisam levar em consideração idade, expectativa de vida, estado geral de saúde, doenças associadas e preferências do paciente.

Embora muitos procedimentos continuem sendo importantes, as evidências mostram que, para parte da população idosa, alguns exames e tratamentos de rotina podem oferecer benefícios cada vez menores diante dos riscos envolvidos. Por isso, médicos defendem que a continuidade dessas intervenções seja discutida individualmente, com base nas melhores evidências científicas disponíveis e em avaliação clínica cuidadosa.