Um dos autores mais procurados da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), encerrada no último domingo, o escritor português Valter Hugo Mãe aproveitou o lançamento do romance “O século dos imbecis”, publicado pela Biblioteca Azul, para defender uma postura mais crítica diante da sociedade contemporânea. Em entrevista ao jornal O Globo, o autor afirmou que a normalização de discursos de ódio, o excesso de respostas prontas e o avanço da tecnologia desafiam a capacidade de reflexão das pessoas.
Ao longo da programação da Flip, Valter participou de cinco mesas na programação paralela, todas com grande público, tornando-se um dos autores mais vendidos do evento, segundo a organização. O novo romance apresenta uma narrativa satírica ambientada em uma comunidade montanhosa marcada pela disseminação de boatos, pela mesquinhez e pela perda do senso crítico. Na história, o protagonista vive uma regra incomum: quanto mais sobe a montanha, mais lúcido se torna; quanto mais desce em direção à vila, mais embrutecido fica.

O escritor, que completa 30 anos de carreira, afirmou que a Flip teve papel decisivo em sua trajetória literária. “A Flip virou um fenômeno na minha vida. Ofereceu à minha vida algo da dimensão do fenômeno e hoje é tudo uma alegria regressar, poder regressar e ver também a Flip transformada, exponenciada. Cresceu muito, complexificou. Li algures que durante esses dias existiam mais de mil mesas. É um absurdo de oferta, que eu não vou dizer que é muito porque quero mais. No sentido em que, mesmo assim, mesmo com mil mesas, a gente sempre sonha encontrar mais alguém. Há sempre um autor que a gente pensa: ‘Este ano não veio’, e eu gostaria de encontrar. Então virou uma terra de pura fantasia literária.”
Segundo o autor, o novo livro marca uma mudança em sua produção literária, ao incorporar o sarcasmo como ferramenta para interpretar a realidade contemporânea. “Eu acredito que alguma coisa muda. Tenho alguma avidez por fugir daquilo que já escrevi, por isso, de livro para livro, vou acrescentando alguma coisa ou procurando alguma coisa que não era procurada antes. ‘O século dos imbecis’ inaugura um ciclo que me proponho escrever agora, que tem o sarcasmo e uma tradução da contemporaneidade mais direta. Vai tanto para a alegoria quanto para a paródia.”
Ao comentar o cenário político e social, Valter afirmou que observa um enfraquecimento dos valores éticos e democráticos. “Nós estamos a assistir a uma certa derrocada da justiça e da ética. Sou licenciado em Direito, confinado pela necessidade de obedecermos a parâmetros de justiça. Precisamos de sistemas de justiça para nos contermos, mas também para nos potenciarmos. Estamos num tempo em que, depois da pandemia, abriu-se uma mensagem em que todas as vilanias se têm vindo a normalizar. O racismo, a xenofobia, o machismo, tudo quanto parece ter o pé no ódio vem sendo mais e mais defendido e posto em prática.”
Embora reconheça que a literatura não seja capaz de transformar, sozinha, a realidade, o escritor considera importante registrar esse momento histórico. “Se eu acredito que vou poder fazer alguma coisa para impedir a hecatombe? Não acredito. Mas não poderia deixar de ser testemunha. Acho que o mínimo que nós podemos fazer é reconhecer que estamos piorando como espécie.”
Na avaliação do autor, as mudanças começam pelas escolhas individuais. “Você tem que decidir se quer viver no mundo como os outros impõem ou se quer viver no mundo em que acredita. Ficar esperando que alguém venha entregar um mundo em que você acredita pronto para consumo não é só ingênuo, é leviano. Se você acredita no mundo de uma determinada maneira, instale-o ao seu redor. Faça o seu gesto corresponder à sua convicção ética.”
Em “O século dos imbecis”, Valter também aborda o impacto das redes sociais e da tecnologia sobre o comportamento humano. Para ele, a facilidade proporcionada pelos recursos digitais pode comprometer a autonomia das pessoas.
“Eu queria muito aludir a esta época em que subitamente facilitamos de tal maneira a nossa vida, que parece tão facilitada por todos os instrumentos que a Humanidade soube produzir, que estamos diante de um dilema: saber se a máquina que criamos vai apenas fazer o que nós faríamos ou se ela vai ser o que nós seríamos. Dá a sensação de que há uma euforia em muita gente que entrega não só os afazeres, mas inclusive as identidades.”
O escritor afirmou manter perfis em redes sociais, mas disse utilizá-las de forma crítica. “Eu estou lá. Não quero ser uma criatura que não saiba eventualmente o que as coisas são. Não poderia ter um pensamento crítico sem poder sujar um pouco as mãos. Tenho, por exemplo, redes sociais. Gosto da ideia disso, ser um conector entre pessoas à distância, entre pessoas que nunca se viram, e que exista até esse conceito estranho de sermos amigos de quem nunca vimos.”
Valter também comentou sua primeira experiência utilizando inteligência artificial para criar imagens inspiradas na obra de Marc Chagall. Segundo ele, o resultado chamou a atenção, mas também despertou preocupação. “Passei dois ou três dias meio intoxicado com aquilo. O que me assusta é que a plataforma lida comigo apelando a uma empatia que eu não consigo corresponder.”
Ao explicar o desconforto, acrescentou: “Ela cumprimenta, diz: ‘Olá, Walter, que bom que veio outra vez. Que boa ideia que você teve. Você prefere fundo azul ou fundo verde?’ Eu digo: ‘Fundo azul.’ E ela responde: ‘Que boa ideia, Walter. Acho que vai ficar muito bem.’ Aquilo é assustador, porque, se alguém aqui devia ser educado, sou eu. Como um algoritmo tem a veleidade, a desfaçatez, de imitar o melhor de mim? Há uma inversão de papéis. Parece que eu não estou só entregando à máquina aquilo que não quero ou não sei fazer. Estou entregando à máquina aquilo que eu deveria ser.”
Na avaliação do escritor, a popularização da inteligência artificial poderá reduzir o interesse das pessoas em desenvolver habilidades próprias. “Se eu for criado nesse ambiente, com essa oportunidade de mandar uma máquina fazer qualquer coisa, não vou ter motivo para aprender a pintar.”