Em um mercado onde a maior parte dos músicos independentes ainda depende de repertórios de intérpretes consagrados para garantir espaço em bares e restaurantes, festivais de música autoral seguem funcionando como uma das poucas vitrines dedicadas à produção própria. É nessa lacuna que o Festival MPB 84 lança a quinta edição do seu concurso de bandas, desta vez voltado ao pop rock, gênero escolhido para dialogar com a programação principal do evento, marcada para novembro.
As inscrições seguem abertas até 5 de setembro e são gratuitas. Ao todo, 12 bandas serão selecionadas para a final, marcada para 24 de setembro, no Solar Bela Vista, em Natal. A vencedora retorna ao palco do Festival MPB 84 no dia 6 de novembro, ao lado das atrações nacionais da programação, que ainda serão anunciadas pela organização.

O produtor cultural e curador Marcelo Veni afirma que a proposta nasceu inspirada nos tradicionais festivais de música das décadas de 1960 e 1970 e também em experiências potiguares, como o Festival MPBeco, realizado no Centro Histórico de Natal.
“Em 2022, primeiro ano do festival, tivemos 360 inscrições, dos mais variados estilos musicais. No ano passado fizemos um recorte para a música regional, dedicado ao forró, xote, baião e xaxado. Agora escolhemos o pop rock porque ele conversa diretamente com o desenho artístico do festival em novembro”, afirmou.
Segundo ele, a escolha também acompanha a trajetória do gênero no Rio Grande do Norte, desde a cena dos anos 1990 até bandas que conquistaram projeção nacional nos últimos anos.
“O pop rock continua sendo a trilha sonora dos bares, restaurantes e pubs da cidade. Também tivemos bandas potiguares ocupando espaço nacional e entendemos que fazia sentido construir esse diálogo sonoro entre o concurso e o festival”, explicou.
Incentivo à produção independente
Mais do que premiar bandas, Marcelo Veni vê o concurso como um instrumento para ampliar a circulação da produção independente.
“O carro-chefe é a música autoral. O artista ganha um palco maior, toca para um público diferente e pode conquistar novos ouvintes”, destacou.
Além da apresentação no festival, o concurso distribuirá R$ 18 mil em premiações. O primeiro colocado receberá R$ 6 mil; o segundo, R$ 5 mil; o terceiro, R$ 4 mil; e haverá ainda R$ 3 mil destinados ao vocalista destaque.
Para o curador, o incentivo financeiro representa apenas uma parte do impacto da iniciativa.
“Você proporciona ao artista uma premiação financeira, um troféu, a possibilidade de estar ao lado de grandes atrações nacionais e mostrar seu trabalho para um público que talvez ainda não o conheça”, afirmou.
Seleção valoriza identidade artística
A curadoria reunirá produtores, músicos e compositores para avaliar as inscrições. O objetivo é identificar propostas que tragam identidade própria.
“Você sente quando não é mais do mesmo. Criatividade, inovação e originalidade são fatores importantes para definir os 12 finalistas”, disse Marcelo Veni.
Depois da etapa de seleção, o desempenho ao vivo passa a ter peso decisivo.
“Nas apresentações, cabe à banda mostrar seu potencial, sua performance e sua relação com o público”, explicou.
O regulamento permite a inscrição de músicas já lançadas, desde que elas não tenham sido premiadas anteriormente em concursos semelhantes. A regra abre espaço tanto para bandas com repertório consolidado quanto para artistas que desejem criar trabalhos especialmente para a competição.
“O concurso não é apenas para músicas inéditas. Quem lançou um disco recentemente pode participar. Mas também há quem queira escrever uma música pensando especificamente no festival”, afirmou.
Desafio ainda é encontrar espaço para música própria
Há mais de duas décadas ligado à produção musical potiguar, com atuação em projetos como o Prêmio Hangar de Música e outros festivais voltados à composição, Marcelo Veni considera que o maior desafio dos artistas independentes continua sendo encontrar espaços para apresentar repertório próprio.
“Raramente você vê uma banda indo para uma agenda comum fazendo apenas música autoral. Normalmente ela precisa recorrer ao repertório cover”, declarou.
Segundo ele, quando o artista opta por montar um espetáculo inteiramente autoral, surge outro obstáculo: formar público.
“Muitas vezes ele vai para um teatro ou auditório e sente o baque da pouca audiência. Mas isso também vem mudando. O público tem abraçado cada vez mais os artistas locais”, avaliou.
Na visão do produtor, festivais não transformam uma carreira de forma imediata, mas funcionam como etapas importantes de construção.
“Um festival não muda sozinho a vida de um artista, mas ele soma. Ele coloca aquele trabalho diante de novos públicos e desperta a curiosidade de quem ainda não conhece aquela produção”, afirmou.
Ele cita eventos como o Festival MADA e o Festival DoSol como iniciativas que ajudam a manter viva a cena independente do estado.
Novos nomes da música potiguar
Ao comentar artistas que merecem maior atenção do público, Marcelo Veni destaca a banda SOUREBEL, vencedora das duas últimas edições do Prêmio Hangar na categoria Banda do Ano.
“Se permitam conhecer a produção autoral potiguar. Tem muita gente boa produzindo música de qualidade no estado”, afirmou.
Como participar
As inscrições podem ser feitas até 5 de setembro por meio do perfil oficial do Festival MPB 84 no Instagram (@festivalmpb84), onde estão disponíveis o edital completo e o formulário de inscrição.
Os 12 finalistas serão anunciados em 15 de setembro. A apresentação decisiva acontece em 24 de setembro, no Solar Bela Vista. A banda vencedora retorna ao palco principal do Festival MPB 84, em novembro, dividindo a programação com atrações nacionais que ainda serão divulgadas.