O que começou como uma ideia amadurecida durante o isolamento provocado pela pandemia da Covid-19 transformou-se em um projeto que pretende registrar parte da história da música negra produzida no Rio Grande do Norte. A série audiovisual Música Preta Potiguar, lançada no YouTube, reúne apresentações musicais gravadas em estúdio e entrevistas com artistas da cena independente para documentar não apenas suas canções, mas também as histórias, referências e processos criativos que moldam suas trajetórias.
Idealizado pelo produtor cultural Diego Andrade, o projeto surgiu da percepção de que, embora exista uma produção musical negra ampla e presente em diferentes estilos, muitos desses artistas ainda encontram menos espaço para circulação, reconhecimento e registro de suas obras. A proposta, segundo ele, foi além da criação de uma série de performances: tornou-se uma tentativa de construir memória.

“A ideia do Música Preta Potiguar nasceu ainda durante a pandemia. Guardei esse projeto por um tempo e, aos poucos, fui compartilhando a proposta com algumas pessoas. Em meio ao cenário difícil daquele período, surgiu a oportunidade de realizar uma versão reduzida da ideia, em 2021, por meio de um selo de música independente que hoje já não existe mais. Aquela experiência mostrou que o projeto era possível, mas, por falta de oportunidades e de recursos, ele acabou ficando em pausa até que, finalmente, conseguimos tirá-lo do papel da forma como sempre imaginamos”, conta.
O produtor afirma que acompanha há anos a cena musical potiguar e viu na iniciativa a oportunidade de direcionar o olhar para artistas negros, reunindo diferentes linguagens musicais em um mesmo espaço.
“Sempre acompanhei e consumi a cena musical potiguar e, quando surgiu a oportunidade de desenvolver um projeto voltado para a música, senti que fazia sentido colocar os artistas negros no centro dessa narrativa. Temos inúmeros artistas negros produzindo em diferentes estilos e linguagens, mas ainda existe uma desigualdade estrutural que faz com que muitos deles tenham menos oportunidades, menos visibilidade e menos reconhecimento do que artistas brancos. Muitas vezes, essa diferença é tão naturalizada que passa despercebida pelo público, pelos produtores e até pelos próprios artistas.”
Segundo Diego, a escolha do nome também faz parte dessa proposta. Em vez de apresentar apenas uma série sobre música independente, o projeto assume explicitamente o recorte da produção negra potiguar.
“Era importante porque o projeto não busca apenas documentar artistas independentes, mas evidenciar a contribuição e construção da música produzida no Rio Grande do Norte. Nomear essa identidade é uma forma de dar visibilidade a trajetórias que historicamente receberam menos espaço nos meios de comunicação, reconhecendo suas referências estéticas, culturais e ancestrais.”
Para ele, reconhecer essa identidade também fortalece o sentimento de pertencimento entre artistas e público e contribui para preservar parte da memória cultural do Estado.
“O projeto fortalece o sentimento de pertencimento entre artistas e público, amplia o debate sobre representatividade e contribui para a preservação da memória cultural do estado. Em vez de tratar os participantes apenas como integrantes da cena independente, o projeto valoriza a riqueza, a diversidade e o protagonismo da produção musical negra potiguar.”
O conceito da série não aparece apenas diante das câmeras. A equipe técnica foi formada majoritariamente por profissionais negros das áreas de audiovisual, música e produção cultural.
Para Diego Andrade, essa decisão faz parte da narrativa construída pelo projeto. “Essas escolhas refletem a própria diversidade da música preta potiguar. Reunir artistas de diferentes sonoridades demonstra que a produção musical potiguar é plural e não pode ser reduzida a um único estilo. O ponto de encontro entre eles é a identidade, a trajetória e a contribuição para a cultura do estado.”
Ele acrescenta que o mesmo princípio orientou a formação da equipe. “Contar essa história com uma equipe formada em sua maioria por profissionais negros reforça que eles também ocupem lugares de criação, decisão e liderança nos bastidores. Isso amplia as oportunidades para esses profissionais e contribui para que as narrativas sejam construídas a partir de vivências e referências que dialogam diretamente com o universo retratado, valorizando talentos diante e atrás das câmeras.”
Responsável pelo roteiro e pelas entrevistas, Erick Allan explica que as gravações buscaram fugir do formato convencional de divulgação artística. A intenção era compreender como cada músico construiu sua trajetória e quais experiências atravessam sua produção.
“Como responsável pelas entrevistas e pelo roteiro, procurei conduzir conversas que permitissem aos artistas compartilhar suas origens, a construção de suas trajetórias, suas referências e os caminhos que desejam seguir. Meu objetivo era ir além da música e compreender também as experiências que moldam suas carreiras.”
Ao longo das conversas com Jennify C., Sourebel e Gracinha, um tema apareceu repetidamente. “O que mais apareceu nas entrevistas foi a ideia de que ser um artista negro potiguar é estar em um processo constante de resistência. Cada um tem uma trajetória muito particular, mas todos falaram, de alguma forma, sobre a necessidade de construir espaços para si, porque esses espaços nem sempre estão dados.”
Segundo Erick, outro aspecto recorrente foi a forma como os artistas enxergam a própria criação. “Também me chamou atenção como a arte surge não apenas como profissão, mas como uma forma de sobrevivência, de cura e de afirmação da identidade. Eles falam sobre fazer música para existir, para contar suas histórias e para fortalecer outras pessoas negras que vêm depois.”
A percepção também foi compartilhada por Diego Andrade após acompanhar todas as gravações. “Cada conversa trouxe perspectivas muito particulares, mas todas convergiram para um ponto em comum: a potência da música preta potiguar e os desafios enfrentados por quem constrói essa trajetória no estado. Os relatos evidenciaram como a arte está profundamente ligada às suas vivências, às suas identidades, aos territórios de onde vêm e às suas formas de resistência.”

Um acervo para o futuro
Mais do que encerrar uma primeira temporada, os idealizadores afirmam que pretendem transformar o Música Preta Potiguar em um registro permanente da produção musical negra do Estado.
“A intenção é transformar o Música Preta Potiguar em um acervo permanente da música negra produzida no estado, registrando artistas, sonoridades e histórias que ajudam a compor a identidade cultural potiguar, articulando as linguagens do audiovisual, da música e do documentário musical para registrar performances ao vivo, trajetórias artísticas e processos criativos”, afirma Diego.
Segundo ele, ampliar a circulação dessas produções também pode criar novas oportunidades para os artistas. “Acreditamos que difundir essa produção é uma forma de fortalecer o presente e construir o futuro da música preta no Rio Grande do Norte, incentivando que mais artistas ocupem espaços e que suas histórias sejam reconhecidas como parte fundamental da cultura potiguar.”
Erick Allan diz que a equipe vê a primeira temporada como um ponto de partida. “Encerramos esta primeira temporada com a sensação de que conseguimos criar um material importante, tanto pela qualidade técnica quanto pelo registro histórico que ele representa. Mas, para nós, esse é apenas o começo.”
A expectativa é ampliar o projeto nas próximas edições. “Nosso desejo é que o projeto continue crescendo e inspirando outras iniciativas. Não apenas que mais pessoas negras se sintam incentivadas a produzir arte, mas também que o público passe a conhecer, consumir e valorizar cada vez mais a música preta potiguar.”
A primeira temporada reúne três episódios, lançados semanalmente no YouTube. Participam da série a DJ, rapper, produtora musical e performer Jennify C., a banda Sourebel, que une reggae e influências afro-nordestinas, e a cantora, compositora e multi-instrumentista Gracinha. O projeto foi realizado por meio do Edital de Fomento ao Audiovisual e Jogos Eletrônicos, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).