Bear (Michael Johnston) é apaixonado por sua melhor amiga, Nikki (Inde Navarrette), mas não tem coragem de chamá-la para sair. Sem esperança, ele apela para o One Wish Willow, que lhe concede o desejo de que Nikki o ame incondicionalmente. Obsession (2026) se utiliza de algo que eu amo nos filmes de terror: o medo do real. Particularmente, o subgênero do terror psicológico me atrai pela sagacidade com que aproxima o espectador da narrativa. Eu não consigo acreditar no capeta que possui uma boneca sinistra, mas consigo conceber um homem que escolhe retirar a liberdade de uma mulher em prol da realização de seu amor platônico.
O magnetismo desse filme perpassa pelo terror inteligente e factível, disfarçado de sobrenatural. A entidade maligna aqui é o desejo de posse entranhado em certas formas masculinas de se relacionar. O afeto levado ao extremo, às custas da despersonalização de Nikki, não pesa sobre a consciência de Bear, porque ele se perde no prazer colossal de ser, perenemente, o objeto de devoção dessa mulher. É uma carícia ao ego tão irresistível que pouco importa que ela não seja real.

Os números mostram que eu não sou a única que amou essa história. Com o singelo orçamento de 750 mil dólares, pouco menos de 4 milhões de reais, o longa já arrecadou mais de 427,3 milhões de dólares em bilheteria em todo o mundo, segundo o Box Office Mojo, o que representa mais de 400 vezes o custo de produção.
A atuação de Inde Navarrette é estarrecedora e brilhante. Eu sinto o medo de estar na pele dela, uma mulher reduzida à inexistência em vida. Chego a pressentir seu sufocamento nas cenas que se estendem até o maior desconforto possível. É uma experiência quase sinestésica, angustiante.
Nesses momentos, foi fácil pensar que poderia ser eu, uma Nikki, daí minha empatia por ela. Michael Johnston também interpreta com louvor e entrega um homem leviano, dócil, em quem costumamos confiar. Ele constrói esse personagem de forma cirúrgica, nos ensinando que a estratégia de um homem obsessivo, quando confrontado com suas próprias faltas, é neutralizar qualquer manifestação de desejo do objeto amado, porque isso lhe tira o gozo do controle e o leva à angústia de não ser o provedor das necessidades de uma mulher. É um desses personagens tão medíocres que me irritam.
Afinal, Bear consegue suplantar todos os desejos de Nikki, em sua condição de possuída, exceto aquele que recai sobre ele mesmo. Aqui o roteiro é profundo: ele não consegue deter o curso de seu próprio desejo, nem quando tenta escapar dele. Mesmo morta em seus quereres e programada a nada desejar para si, Nikki, em sua versão possuída, o faz experimentar, então, o pesadelo de lidar com o único remanescente incorruptível da vontade de seu objeto: o próprio Bear. Só aí a violação da humanidade de Nikki se torna um problema: quando passa a violar a dele também.
Minha cena preferida é aquela em que Nikki tem seu momento de exorcismo e retoma sua consciência, desesperada e pedindo para morrer. Ele lhe responde perguntando o que havia de tão ruim em ficar com ele. É um filme com final feliz, posso dizer. Nessa história, ela acaba viva.