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Cultue

Hip-hop transforma comunidade da Redinha e forma nova geração de artistas

Projeto AfriCores reúne oficinas, festivais e ações culturais que fortalecem a identidade de crianças e jovens na comunidade da África
Izabelle Vicente
17/07/2026 | 11:19

Na comunidade da África, localizada no bairro da Redinha, na zona Norte de Natal, a cultura hip-hop deixou de ser apenas uma expressão artística para se tornar uma ferramenta de educação, fortalecimento da identidade e transformação social. Há quase duas décadas, o educador popular, artista de grafite e MC, Miguel Nery Santos Silva, conhecido popularmente como Miguel Carcará, desenvolve ações culturais que mudaram a realidade de centenas de crianças, adolescentes e jovens da comunidade.

A iniciativa começou em 2006, quando Miguel percebeu a ausência de espaços destinados às atividades culturais na região. O objetivo inicial era simples: promover oficinas e apresentar os elementos da cultura hip-hop para as crianças do bairro. Com o passar dos anos, as ações ganharam força e continuidade. Em 2013, foi criado o Movimento Cultural “Nossos Valores”, coletivo que passou a reunir artistas e moradores em torno da valorização da cultura periférica. Quatro anos depois, surgiu o Projeto “AfriCores”, consolidando um trabalho voltado à formação artística e à educação popular.

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Projeto AfriCores promove oficinas de grafite, break, fotografia, audiovisual e tranças afro para crianças, adolescentes e jovens da comunidade da África - Foto: Africores/Arquivo

“O projeto surge justamente com a necessidade de ter atividades culturais na Redinha, na comunidade da África. Não existia nada desse tipo. A ideia era desenvolver oficinas e apresentar o hip-hop para a molecada”, relembra Miguel.

Hoje, o AfriCores oferece oficinas de break, grafite, tranças afro, fotografia e audiovisual. Mas a atuação vai além das salas de aula. O projeto promove festivais de dança e música, apresentações de DJs, mutirões de grafite com mais de 50 artistas convidados e diversas atividades que movimentam a comunidade ao longo do ano.

Segundo Miguel, o crescimento da participação popular demonstra o reconhecimento do trabalho desenvolvido. “Cada ano que passa a gente vê uma adesão maior das pessoas. Isso representa desenvolvimento. As pessoas respeitam o que fazemos e querem participar.”

Mais do que ensinar técnicas artísticas, o projeto trabalha a autoestima e o reconhecimento das raízes culturais da população negra. Para o educador, o hip-hop carrega uma estética própria que fortalece a identidade de quem participa. “Quando a gente fala de ancestralidade, fala também da autoestima. O hip-hop já traz uma autoestima poderosa. Está nas cores do grafite, na música, na dança, no cabelo, no jeito de falar. Tudo isso fortalece as pessoas.”

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Criado por Miguel Carcará, AfriCores aposta na cultura para enfrentar estigmas e criar oportunidades – Foto: Africores/Arquivo

Ressignificando a comunidade

O Movimento Cultural “Nossos Valores” nasceu com um objetivo claro: combater a imagem negativa que a comunidade da África recebia da imprensa local. Na época, segundo Miguel, o território era frequentemente associado apenas à violência, criminalidade e conflitos, invisibilizando as histórias positivas construídas pelos moradores. “O nome Nossos Valores surgiu justamente para mostrar os valores que existiam ali através da arte.” O próprio nome AfriCores também carrega esse significado simbólico. A proposta é apresentar uma nova narrativa sobre a comunidade, marcada pela arte, pela diversidade e pela beleza. “O projeto vem colorindo a comunidade da África, trazendo movimentação cultural e valorização da nossa identidade.”

A história de transformação do AfriCores também passa pela trajetória do próprio fundador. Miguel conta que conheceu a cultura hip-hop ainda adolescente e encontrou nela uma oportunidade de aprender e ensinar ao mesmo tempo. Essa experiência despertou sua vocação como educador, levou-o à formação em Pedagogia e ao aprofundamento em áreas como elaboração de projetos e captação de recursos.
Hoje, jovens que participaram das primeiras oficinas retornam como colaboradores e educadores do próprio projeto. “Alguns cresceram dentro do projeto e hoje trabalham com a gente. A transformação acontece todos os dias.” Segundo ele, essa continuidade representa um dos maiores resultados alcançados pela iniciativa: formar pessoas capazes de multiplicar conhecimento e contribuir para o desenvolvimento da própria comunidade.

Nos últimos anos, o AfriCores ampliou sua rede de apoiadores, contando com empresas, parlamentares e recursos provenientes de editais públicos. Entre os principais parceiros está a Neoenergia Cosern, que contribui para a realização de diversas ações culturais e amplia a visibilidade do projeto. Além disso, iniciativas financiadas por editais estaduais e federais e pela Lei Câmara Cascudo têm possibilitado a continuidade das atividades. Segundo Miguel, cada parceria representa mais do que investimento financeiro: significa reconhecimento da importância do trabalho desenvolvido dentro da comunidade.