A China realizou nesta segunda-feira 6, um teste de um míssil balístico de longo alcance lançado por um submarino de propulsão nuclear, reacendendo preocupações sobre a crescente presença militar de Pequim no Oceano Pacífico. Segundo a agência estatal Xinhua, o projétil transportava uma ogiva simulada, atingiu com precisão a área prevista e não foi direcionado contra qualquer país específico. O governo chinês, no entanto, não informou o ponto exato do lançamento nem o local da queda do míssil, limitando-se a afirmar que países da região foram notificados previamente.
O teste ocorre em um momento de aumento da disputa estratégica no Indo-Pacífico, marcado pela expansão das capacidades militares chinesas e pelo fortalecimento das alianças de segurança entre países da região e seus parceiros ocidentais. No mesmo dia do lançamento, Austrália e Fiji anunciaram um tratado de defesa mútua e uma nova aliança regional de segurança, movimento interpretado por analistas como parte da estratégia de Camberra para conter a influência de Pequim entre os países insulares do Pacífico.

A reação dos governos da região foi imediata. O ministro das Relações Exteriores da Nova Zelândia, Winston Peters, afirmou que o país está “profundamente preocupado” e classificou o lançamento como parte de um padrão recorrente da atuação chinesa no Pacífico Sul.
“A Nova Zelândia considera este um desenvolvimento indesejado e preocupante. Assim como nossos vizinhos de outros países do Pacífico, não temos interesse em que a China utilize o Pacífico Sul como área de testes para sua capacidade de mísseis”, declarou.
Na Austrália, a ministra das Relações Exteriores, Penny Wong, afirmou que o lançamento é “desestabilizador para a região” e ocorre em meio à rápida expansão militar chinesa. O governo japonês também manifestou “séria preocupação” e informou ter solicitado a Pequim que reconsiderasse o teste após receber a notificação prévia do disparo.
O lançamento sucede outro teste realizado em setembro de 2024, quando a China disparou um míssil balístico intercontinental com capacidade nuclear sobre o Pacífico em direção a águas próximas da Polinésia Francesa. Na ocasião, o episódio representou o primeiro lançamento conhecido de um míssil intercontinental chinês sobre o oceano em cerca de quatro décadas e também provocou críticas de países da região.
Embora Pequim não tenha revelado qual armamento foi utilizado desta vez, especialistas acreditam que o teste envolveu o míssil balístico intercontinental JL-3, desenvolvido para lançamento a partir de submarinos. Segundo Jeffrey Lewis, pesquisador do Middlebury College especializado na modernização do arsenal nuclear chinês, o modelo integra a nova geração de sistemas estratégicos capazes de ampliar o alcance da capacidade de dissuasão nuclear da China, incluindo alvos no território continental dos Estados Unidos.
Para John Blaxland, professor de segurança internacional da Universidade Nacional da Austrália e ex-oficial de inteligência militar australiano, o objetivo de Pequim vai além da validação técnica do armamento. Segundo ele, a China procura medir a reação dos países da região e dos Estados Unidos enquanto amplia gradualmente sua presença militar no Pacífico.
“O que a China está fazendo, assim como faz em relação a Taiwan, é sondar, testar e gradualmente acostumar os demais a um comportamento intrusivo, assertivo e autoritário”, afirmou.
Nos últimos anos, o Exército de Libertação Popular vem investindo na modernização de sua força submarina e de seus mísseis balísticos lançados do mar, tradicionalmente considerados um dos pontos mais vulneráveis de sua estratégia de dissuasão nuclear. Relatórios do Departamento de Defesa dos Estados Unidos indicam que a incorporação do JL-3 aos novos submarinos chineses amplia a capacidade do país de realizar ataques nucleares de longo alcance a partir de áreas próximas ao seu litoral, reforçando o equilíbrio estratégico na região do Indo-Pacífico.