A intensificação dos ataques ucranianos contra refinarias e instalações petrolíferas russas começou a produzir efeitos visíveis no cotidiano da população da Rússia. O país, terceiro maior produtor mundial de petróleo, enfrenta uma escassez de combustíveis que levou ao racionamento em diversas regiões, filas de até 18 horas em postos e ao fechamento de estabelecimentos sem estoque. O cenário levou autoridades russas a admitirem negociações para avaliar a importação de petróleo, medida considerada incomum para um dos principais exportadores globais da commodity.
O problema surgiu inicialmente na Crimeia ocupada, em maio, e se espalhou pela Rússia continental, atingindo inclusive regiões distantes da fronteira com a Ucrânia, como a Sibéria. Em Novorossiysk, onde está localizado o principal terminal de exportação de petróleo do país, autoridades suspenderam a venda de gasolina para consumidores individuais. Apenas as regiões de Chukotka e Kalmykia não registraram restrições ao abastecimento, segundo jornais independentes.

O impacto é mais evidente nas grandes filas formadas nos postos de combustíveis. Em Irkutsk, no leste da Sibéria, a moradora Alyona Sadovnikova contou ter aguardado cerca de 18 horas para conseguir abastecer. Ela relatou que inicialmente encontrou apenas postos atendendo consumidores com cupons de racionamento e comparou a situação aos tempos da União Soviética. Na região, as filas se tornaram tão extensas que o governo prometeu instalar banheiros químicos ao longo das rodovias, enquanto o governador Igor Kobzev decretou estado de alerta elevado.
Especialistas atribuem a escassez aos danos provocados pelos ataques de drones ucranianos. Segundo Ronald P. Smith, sócio-fundador da consultoria Emerging Markets Oil and Gas Consulting Partners, cerca de um terço da capacidade de refino da Rússia — aproximadamente 2,2 milhões de barris por dia — ficou temporariamente fora de operação em junho. Outras estimativas apontam uma redução próxima de 25% da capacidade nacional. Refinarias estratégicas, como a de Moscou e outra localizada na República do Tartaristão, que juntas respondem por cerca de 10% da produção de gasolina do país, interromperam as atividades após ataques.
A escassez também começou a pressionar os preços. Dados da agência oficial de estatísticas russa mostram que o litro da gasolina alcançou, na última semana de junho, média de US$ 0,93, alta de 1,6% em relação à semana anterior. Em algumas regiões, como a Chechênia, consumidores relataram aumentos superiores a 40% nos postos independentes. Enquanto a estatal Rosneft mantém preços subsidiados, as filas em suas unidades cresceram significativamente, levando parte dos motoristas a buscar combustível em regiões vizinhas, onde também passaram a vigorar limites de abastecimento.
O governo russo estuda medidas para reduzir os efeitos da crise. Além da possibilidade de importar petróleo, autoridades avaliam autorizar novamente a produção e comercialização de gasolina com maior teor de enxofre, proibida desde 2013. O ministro da Energia, Alexander Novak, afirmou que o país enfrenta apenas problemas pontuais de abastecimento. Já o presidente Vladimir Putin reconheceu pela primeira vez a existência de “um certo déficit” de combustível, embora tenha afirmado que a situação não é crítica e atribuído os problemas aos ataques ucranianos, que, segundo ele, buscam provocar instabilidade interna durante a guerra.