Às vésperas das comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos, um debate que parecia encerrado há mais de um século voltou ao centro da política americana. Discursos de integrantes da direita conservadora defendendo restrições ao sufrágio feminino e propostas para limitar o acesso às urnas reacenderam preocupações entre historiadores e cientistas políticos sobre o futuro dos direitos das mulheres no país. O movimento ocorre em meio à análise, no Senado, do projeto conhecido como Save Act, tratado pelo presidente Donald Trump como prioridade antes das eleições legislativas.
A discussão ganhou visibilidade após o secretário de Defesa, Pete Hegseth, compartilhar uma entrevista do pastor conservador Doug Wilson, que defendeu um modelo em que as famílias votariam como uma única unidade, com o marido depositando o voto. Embora o Pentágono tenha afirmado posteriormente que Hegseth apoia o direito de voto das mulheres, a proximidade entre o secretário e o líder religioso ampliou a repercussão do episódio. Ao mesmo tempo, empresários e influenciadores ligados à direita, como Elon Musk, Peter Thiel e Andrew Tate, também manifestaram apoio, em diferentes momentos, a restrições ao sufrágio universal ou a modelos de representação familiar.

Especialistas ouvidos pelo jornal O Globo avaliam que a revogação da 19ª Emenda — que garantiu o voto feminino em 1920 — é improvável, pois exigiria ampla maioria no Congresso e ratificação por três quartos dos Estados. Ainda assim, alertam que governos estaduais poderiam aprovar medidas indiretas para restringir o acesso às urnas. A historiadora Lisa Tetrault, da Universidade Carnegie Mellon, afirma que Estados poderiam tentar limitar o voto aos chamados “chefes de família”, deixando a interpretação final para uma Suprema Corte considerada mais receptiva a argumentos conservadores do que em décadas anteriores.
Outra frente de preocupação é o Save Act, projeto que exigiria documentação adicional para comprovação da cidadania no momento do registro eleitoral. A proposta prevê a apresentação de documentos como passaporte ou certidão de nascimento, requisito que, segundo estudos citados por especialistas, afetaria milhões de eleitores. Estima-se que cerca de 11% dos eleitores elegíveis não possuam certidão de nascimento acessível, enquanto mais da metade não dispõe de passaporte válido. Entre os grupos mais impactados estariam mulheres que alteraram legalmente o sobrenome após o casamento, pessoas trans e cidadãos que mudam frequentemente de residência.
Para pesquisadores, o debate atual reflete uma reorganização do conservadorismo americano em torno de pautas ligadas ao nacionalismo cristão e aos papéis tradicionais de gênero. Ryan Dawkins, professor de ciência política do Carleton College, afirma que a ascensão de Trump fortaleceu setores que buscam substituir o conservadorismo tradicional por uma agenda mais populista e nacionalista. Já Sophia Rosenfeld, historiadora da Universidade da Pensilvânia, considera improvável a revogação da 19ª Emenda, mas alerta que a simples presença desse tema no debate político amplia os limites do discurso público e desloca a discussão sobre democracia, eleições e igualdade de gênero para posições antes consideradas marginais.