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Saúde

Como identificar sinais de sofrimento além das “birras”

Especialista explica como diferenciar comportamentos normais do desenvolvimento infantil de possíveis transtornos e destaca papel da família e da escola
Por O Correio de Hoje
06/07/2026 | 15:40

Mudanças de comportamento, crises de birra, uso excessivo de telas, dificuldades escolares e alterações no sono estão entre as principais dúvidas apresentadas por pais e responsáveis sobre a saúde mental infantil. A psicóloga infantil Maria Clara Dantas explicou como diferenciar comportamentos esperados do desenvolvimento de sinais que podem indicar sofrimento psicológico e exigir acompanhamento profissional. Segundo ela, o primeiro passo é observar se as mudanças persistem e vêm acompanhadas de sofrimento emocional.

De acordo com a psicóloga, nem toda alteração de comportamento representa um transtorno. Ela explica que birras, por exemplo, fazem parte do desenvolvimento infantil, principalmente até os seis anos de idade, quando a criança ainda está aprendendo a lidar com frustrações, limites e emoções.

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Psicóloga infantil Maria Clara Dantas é preciso estabelecer limites claros.

“Quando a gente fala de comportamento, de mudança de comportamento infantil, é sempre importante a gente se atentar se ele vem acompanhado de algum tipo de sofrimento. Toda mãe, todo pai conhece seu filho. Toda mãe, todo pai sabe quando a criança realmente está sofrendo, quando realmente está incomodada, quando realmente está nervosa. Quando essa mudança de comportamento vem acompanhada desses sinais de sofrimento, a gente deve realmente procurar ajuda”, afirmou.

Ela destaca ainda que outro fator importante é observar se a mudança persiste mesmo após tentativas de intervenção da família e se a escola também percebe alterações no comportamento da criança.

“Quando a gente percebe também que aquele comportamento não melhora, a gente intervém em casa e, mesmo assim, não tem uma melhora. A escola avisa, a escola é sempre muito atenta a esses sinais, são profissionais que conhecem as etapas do desenvolvimento. Quando a escola comunica que alguma coisa está saindo do controle, essas conversas são extremamente construtivas e importantes para poder identificar.”

Birras fazem parte do desenvolvimento

Durante a entrevista, Maria Clara respondeu a dúvidas de pais sobre crianças que fazem birra diante de negativas. Segundo ela, esse comportamento é esperado durante a primeira infância.

“É normal que a criança faça birra até os seis anos de idade. Ela ainda não está madura o suficiente para saber comunicar o que sente, o que deseja e lidar com a frustração. Lidar com a frustração é uma habilidade que a gente vai aprendendo ao longo da vida.”

Segundo a psicóloga, muitas vezes a criança utiliza o choro, os gritos e outras reações porque percebe que esses comportamentos podem levá-la a conseguir aquilo que deseja.

“A criança lê o ambiente. Ela sabe que, se chorar no supermercado, por exemplo, pode constranger os pais e conseguir o que quer. É importante que os pais sejam firmes, conversem, tentem mudar o foco da atenção da criança e não respondam com estresse.”

Ela orienta que, em vez de entrar em confronto, os responsáveis procurem redirecionar a atenção da criança para outras atividades ou objetos.

Impacto das telas e redes sociais

Outro tema abordado foi o impacto das redes sociais e dos jogos eletrônicos sobre crianças e adolescentes. Para Maria Clara, o uso excessivo das telas pode interferir diretamente no desenvolvimento emocional e social.

“A rede social está piorando bastante a nossa saúde mental de maneira geral. E a criança ainda está em desenvolvimento, está aprendendo conceitos, está aprendendo a se localizar no mundo.”

Segundo ela, muitos conteúdos consumidos por crianças estimulam padrões de consumo e comparações.

“É muito comum os conteúdos dos youtubers serem voltados para essa questão de ‘eu tenho e você não tem’, ‘eu viajei para Disney e você não foi’. Isso incentiva comportamentos que não são saudáveis.”

Ela afirma que os impactos podem ser ainda maiores entre crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.

“Já presenciei casos de crianças autistas que se fecharam completamente no mundo dos jogos online e passaram a evitar as interações sociais reais. A gente percebe que há um problema e precisa trabalhar isso.”

Limites e acompanhamento dos pais

Para a psicóloga, cabe aos pais acompanhar tanto o tempo quanto o conteúdo acessado pelos filhos. Ela explica que estabelecer regras claras e consequências ajuda a criança a compreender que suas escolhas produzem resultados.

“A criança precisa entender que existe um limite. É importante conversar e manter o combinado. Toda a nossa vida tem consequências, e a gente aprende isso ainda na infância.”

Ela também comentou casos de crianças que apresentam comportamento muito diferente em casa e na escola, como aquelas que permanecem isoladas durante as aulas. Segundo ela, esse comportamento, por si só, não significa autismo.

“O diagnóstico de autismo não é tão simples assim. Vale a pena investigar junto com a escola o que está acontecendo.”

Maria Clara destaca que a parceria entre família, escola e profissionais de saúde é indispensável para compreender a origem dessas dificuldades. Ela também orienta que os pais procurem profissionais qualificados sempre que perceberem alterações persistentes no comportamento dos filhos.