Durante décadas, a comunidade científica considerou que os ovários deixavam de exercer funções relevantes após a menopausa, período marcado pelo encerramento da fase reprodutiva feminina e pela interrupção da liberação de óvulos. Uma nova pesquisa, no entanto, indica que esses órgãos permanecem biologicamente ativos e podem assumir um papel relacionado ao sistema imunológico.
A descoberta foi publicada na revista científica Molecular Human Reproduction, editada pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e é resultado de um estudo liderado pela pesquisadora Francesca Duncan. Segundo os cientistas, após deixarem de desempenhar sua função reprodutiva, os ovários passam a apresentar alterações celulares que sugerem uma nova atuação no organismo.

A pesquisa teve origem em um projeto iniciado em 2021, quando Francesca Duncan passou a integrar uma iniciativa dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos Estados Unidos, voltada ao estudo das chamadas células senescentes — processo conhecido como “aposentadoria das células”. Nesse estágio, elas permanecem vivas, mas deixam de se dividir.
O objetivo inicial do projeto era compreender de que forma o acúmulo dessas células poderia estar relacionado ao envelhecimento. Durante o desenvolvimento da pesquisa, os cientistas passaram a analisar ovários de mulheres na pós-menopausa e observaram mudanças que não eram esperadas.
Ao avaliar tecidos ovarianos de mulheres com idades entre 50 e 75 anos, a equipe identificou que as células continuavam modificando sua atividade ao longo do tempo, produzindo proteínas diferentes conforme o envelhecimento avançava.
Para Francesca Duncan, o resultado revelou que os ovários permanecem exercendo alguma função mesmo após o encerramento da vida reprodutiva.
“Para mim, isso foi realmente revelador, porque se esse órgão não estivesse fazendo nada, seria de se esperar que não houvesse mudanças com a idade. Tudo pareceria igual. Isso nos mostrou que há algo mais acontecendo com esse órgão”, afirmou Duncan, em entrevista à revista Science.
Para aprofundar a investigação, os pesquisadores recorreram a experimentos com ovários de camundongos, que passam por um processo semelhante de perda da função reprodutiva.
As análises mostraram que os ovários de animais mais velhos apresentavam concentrações significativamente maiores de diferentes tipos de células do sistema imunológico em comparação aos animais jovens. Além disso, os pesquisadores identificaram maior atividade de genes relacionados à produção de moléculas imunológicas responsáveis por circular pelo organismo através da corrente sanguínea.
Esses resultados reforçam a hipótese de que os ovários continuam desempenhando funções fisiológicas importantes mesmo após a menopausa. Apesar da descoberta, os pesquisadores afirmam que ainda será necessário compreender exatamente qual é a função exercida pelos ovários nessa fase da vida.
Entre as hipóteses investigadas está a possibilidade de que esses órgãos passem a atuar como um centro de sinalização do sistema imunológico ou funcionem como um reservatório de células imunológicas. Outra linha de pesquisa busca verificar se essa atividade pode estar relacionada às alterações inflamatórias observadas durante o envelhecimento feminino.
Os cientistas pretendem investigar se os ovários contribuem para a produção de moléculas associadas à inflamação crônica, condição frequentemente observada após a menopausa e que pode influenciar o surgimento de diversas doenças ao longo do envelhecimento.
Segundo a equipe, compreender esse mecanismo poderá ampliar o conhecimento sobre os processos biológicos que ocorrem após a menopausa e abrir caminho para novas pesquisas sobre saúde feminina e envelhecimento.