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Educação

Sisu aumenta notas de corte e eleva concorrência

Nova regra permitiu uso das notas das três últimas edições do Enem; apesar do aumento da disputa, 76% dos selecionados ingressaram com a nota mais recente do exame
Por O Correio de Hoje
06/07/2026 | 14:54

A primeira edição do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) com possibilidade de utilização das notas das três últimas edições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) provocou aumento da concorrência e elevou as notas de corte em boa parte dos cursos ofertados pelas universidades públicas. Apesar da expectativa de que candidatos de anos anteriores dominassem as vagas, dados do Ministério da Educação (MEC) mostram que 76% dos aprovados utilizaram as notas obtidas no Enem de 2025. Em cursos de Medicina, esse percentual chegou a 90%.

A principal novidade do Sisu 2026 permitiu que estudantes utilizassem as notas das edições de 2023, 2024 e 2025 do Enem para disputar vagas. A mudança gerou preocupação entre alunos que concluíram o ensino médio neste ano, que projetavam uma disputa mais acirrada diante do aumento do número de candidatos aptos.

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Primeira edição do Sisu com reaproveitamento das notas das três últimas edições do Enem ampliou a concorrência - Foto: josé CRUZ / AGÊNCIA BRASIL

Os números confirmam que a concorrência aumentou. Segundo o MEC, houve crescimento de 146% no total de candidatos aptos e de 39% no número de inscrições em comparação com a edição anterior. De acordo com avaliação preliminar da pasta, a alteração também contribuiu para reduzir a quantidade de vagas ociosas nas instituições públicas de ensino superior.

Embora as notas de corte tenham aumentado na ampla concorrência, o impacto foi considerado moderado. Levantamento realizado com os 50 cursos mais ofertados pelo Sisu aponta aumento médio de 43 pontos em relação a 2025. Na comparação com 2024, porém, a diferença foi de apenas sete pontos. Em 14 desses cursos, incluindo Medicina, Psicologia, Engenharia Ambiental e Arquitetura, a nota de corte de 2026 ficou abaixo da registrada em 2024.

Especialistas atribuem a elevação das notas principalmente à nova regra que ampliou o universo de candidatos. “São mais notas concorrendo pelas mesmas vagas das universidades”, resume Sabrina Oliveira, professora especialista em Enem e Sisu.

Segundo ela, a possibilidade de reaproveitamento das notas aumentou naturalmente a competição por vagas, sem que houvesse ampliação proporcional da oferta de cursos nas universidades públicas.

Além da mudança promovida em 2026, especialistas lembram que outras alterações recentes influenciaram o comportamento das notas de corte. O diretor de ensino e inovações educacionais da Arco Educação, Ademar Celedônio, cita a reformulação promovida pela nova Lei de Cotas em 2025.

A partir dessa mudança, todos os candidatos passaram a disputar inicialmente as vagas da ampla concorrência, independentemente de terem direito às cotas. “Todos os candidatos passaram a concorrer primeiro na ampla concorrência. Isso significa que alunos com perfil de cotista e notas muito altas passaram a ocupar vagas da ampla concorrência, deixando as vagas reservadas para outros candidatos cotistas com notas menores”, explica.

Segundo Celedônio, esse novo modelo ajuda a explicar por que as notas de corte entre os cotistas foram mais elevadas em 2024 e apresentaram comportamento diferente nos anos seguintes.

Outra alteração lembrada por especialistas ocorreu em 2024, quando deixaram de existir programas de bônus regional em 16 instituições de ensino superior. Até então, estudantes residentes na cidade ou em municípios próximos às universidades, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, recebiam pontuação adicional para ingresso. De acordo com Sabrina Oliveira, a extinção dessa política também influenciou a redução das notas de corte observada em 2025.

O Ministério da Educação ressalta que a nota de corte depende de diversos fatores além da mudança nas regras do Sisu. Entre eles estão o número de vagas disponíveis, o perfil dos candidatos inscritos, as políticas de ações afirmativas vigentes, a distribuição das escolhas por curso, turno e campus e os pesos atribuídos por cada universidade às áreas avaliadas pelo Enem.

Na modalidade de cotas, o comportamento foi diferente da ampla concorrência. Em comparação com 2025, as notas de corte aumentaram em 49 dos 50 cursos mais ofertados pelo Sisu. No entanto, quando comparadas às registradas em 2024, todas as 50 graduações analisadas apresentaram redução da nota mínima necessária para aprovação.

Mesmo com o aumento da concorrência, o desempenho dos estudantes que fizeram o Enem em 2025 permaneceu predominante no processo seletivo. Segundo o MEC, três em cada quatro aprovados utilizaram as notas obtidas na edição mais recente do exame. Em Medicina, nove em cada dez vagas ficaram com candidatos que fizeram a prova em 2025.

Para o ministério, os dados indicam que a nova regra não prejudicou os estudantes concluintes do ensino médio. “Ao reduzir vagas ociosas, a nova regra está ampliando o aproveitamento da oferta pública de educação superior”, afirma a pasta.

O governo federal também avalia que a ampliação do banco de notas permitiu maior ocupação das vagas disponíveis, sem impedir que candidatos que realizaram o Enem em 2025 permanecessem como maioria entre os aprovados.