Em um cenário em que os índices de leitura no Brasil seguem em queda, comunidades leitoras têm se consolidado como espaços de encontro, pertencimento e construção coletiva. Entre elas está o Goodebooks, um clube de leitura criado por mulheres e voltado exclusivamente para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, que transformou a experiência da leitura em algo que ultrapassa as páginas dos livros.
O que começou como um grupo para discutir literatura acabou se tornando uma rede de apoio, amizade e acolhimento. Hoje, com 48 integrantes, majoritariamente mulheres entre 25 e 30 anos, o Goodebooks reúne participantes de diferentes trajetórias, identidades e contextos sociais, unidas inicialmente pelo interesse em comum pela leitura.

A história do clube está diretamente ligada à trajetória de sua fundadora, a jornalista e social media Ana Clarice Sousa, de 27 anos. No início de 2024, após precisar deixar o trabalho em decorrência de um quadro de burnout, Ana se viu diante de uma experiência inédita: a interrupção de uma rotina inteiramente dedicada ao trabalho.
“Eu nunca tinha ficado sem trabalhar”, relembra.
Em meio à culpa e à pressão de uma lógica que associa produtividade ao valor pessoal, ela reencontrou nos livros um espaço de refúgio e reconstrução. Embora a leitura sempre tivesse feito parte de sua vida desde a infância, o hábito havia sido deixado em segundo plano durante os anos de vestibular, faculdade e trabalho em tempo integral.
Foi durante a pandemia de covid-19 que Ana retomou a leitura de forma mais consistente. Em meio ao isolamento social e às incertezas daquele período, os livros se transformaram em uma ferramenta de enfrentamento da ansiedade. Anos depois, seriam também a base para a construção de uma comunidade.
“O Goodebooks não é mais somente um clube do livro. Ele se tornou uma comunidade. A gente se apoia em tudo”, afirma.
Desde o início, a proposta era criar um espaço diferente dos clubes de leitura tradicionais. Mais do que promover debates literários, o objetivo era construir um ambiente seguro e confortável, onde mulheres pudessem compartilhar não apenas interpretações sobre obras, mas também experiências pessoais.
“A gente queria um espaço em que as mulheres se sentissem à vontade para falar das próprias vivências”, explica Ana.
A escolha por delimitar a participação a mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ surgiu justamente dessa necessidade de criar um ambiente de confiança e acolhimento. E, para as integrantes, essa decisão impacta diretamente a qualidade das discussões.
“Não é mais somente um clube do livro. A gente se apoia em tudo”, relata a estudante de Ciências Biológicas e integrante do grupo, Raquel Hadassa. “A possibilidade de discutir obras apenas entre mulheres faz toda a diferença.”
A diversidade de participantes se tornou um dos principais pilares do Goodebooks. Mulheres pretas, gordas, LGBTQIAPN+ e de diferentes realidades sociais compartilham perspectivas próprias sobre as leituras escolhidas, transformando cada encontro em uma experiência coletiva de escuta e aprendizado.
“Às vezes, uma coisa que escapa da minha realidade é totalmente a realidade da outra pessoa”, observa Raquel.

No Goodebooks, as conversas raramente terminam quando o livro acaba. Os debates sobre personagens, narrativas e contextos históricos, frequentemente, se expandem para questões sociais, afetivas e políticas que atravessam a vida das participantes. A leitura deixa de ser uma experiência individual para se tornar um exercício de reconhecimento mútuo.
Nos bastidores, porém, manter a comunidade ativa exige mais do que escolher livros e organizar encontros mensais. Existe um trabalho contínuo de mediação, organização e cuidado coletivo, como destaca Ana. “Manter um clube de leitura ativo parece simples quando visto de fora”, afirma. “Mas existe toda uma rede de organização, cuidado emocional e esforço coletivo que sustenta esses espaços”, conclui.
“Manter um clube de leitura ativo parece simples quando visto de fora”, afirma Ana. “Mas existe toda uma rede de organização, cuidado emocional e esforço coletivo que sustenta esses espaços.”
Em um País onde, segundo a sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro (IPL) 53% da população se declarou não leitora, iniciativas como o Goodebooks revelam outra dimensão da experiência literária: a leitura como ferramenta de encontro, pertencimento e transformação social.
Mais do que um espaço para falar sobre livros, o Goodebooks se tornou um lugar onde mulheres encontram escuta, identificação e comunidade. E, talvez, seja justamente essa a força dos clubes de leitura contemporâneos: lembrar que ler, no fim das contas, nunca é um ato completamente solitário.