O talento individual continua sendo um dos principais elementos do futebol, mas especialistas apontam que o desempenho dentro de campo depende cada vez mais de fatores que vão além da técnica. Em uma modalidade marcada por resultados imprevisíveis e decisões tomadas em frações de segundo, aspectos psicológicos e cognitivos ganharam espaço entre os elementos que ajudam a explicar vitórias, empates e derrotas.
A avaliação é do neuropsicólogo Eric Zillmer, professor da Universidade Drexel, nos Estados Unidos, e diretor do Global Sport Leadership Solutions Lab. Em análise publicada pela plataforma acadêmica The Conversation, o especialista defende que a compreensão do comportamento humano se tornou tão importante quanto a preparação física e tática no futebol moderno. Segundo ele, as seleções que disputam a Copa do Mundo de 2026 oferecem exemplos claros de como fatores mentais podem influenciar o resultado de uma partida.

O pesquisador lembra que a imprevisibilidade continua sendo uma das características mais marcantes do futebol. Resultados inesperados registrados no torneio, como o empate de Cabo Verde diante da Espanha, considerada uma das favoritas ao título, ou o empate do Marrocos contra o Brasil, mostram que nem sempre a superioridade técnica determina o placar final.
Para Zillmer, embora qualidade dos jogadores, preparação física e competência das comissões técnicas sejam fundamentais, o esporte passou a incorporar cada vez mais ferramentas relacionadas à análise de desempenho, inteligência artificial, geolocalização de atletas e modelos preditivos capazes de auxiliar decisões durante as partidas. Ainda assim, ele afirma que a psicologia esportiva permanece como um componente indispensável para compreender o sucesso das equipes.
Entre os fatores apontados pelo especialista está a capacidade de desorganizar o adversário. Segundo ele, equipes vencedoras costumam ser aquelas capazes de quebrar o ritmo do oponente e provocar desequilíbrios em sua estrutura tática. Isso pode ocorrer por meio de pressão intensa, contra-ataques rápidos, jogadas ensaiadas, marcação agressiva ou estratégias capazes de gerar confusão dentro de campo.
Na avaliação do pesquisador, essa habilidade permite que equipes teoricamente inferiores consigam equilibrar confrontos diante de adversários mais qualificados.
Outro aspecto destacado é a chamada aptidão atencional, característica frequentemente observada nos grandes atacantes do futebol mundial. Zillmer afirma que marcar gols em competições de alto nível exige mais do que habilidade técnica. O atleta precisa ser capaz de administrar diferentes focos de atenção simultaneamente, identificar espaços reduzidos e tomar decisões rápidas sob pressão.
Ele destaca que jogadores como Harry Kane, Kylian Mbappé e Erling Haaland demonstram essa capacidade de manter a concentração em momentos decisivos, mesmo diante de ambientes extremamente pressionados. De acordo com o especialista, uma das primeiras habilidades comprometidas em situações de estresse é justamente a concentração. Os grandes finalizadores conseguem preservar o foco quando ele é mais necessário.
Outro conceito apresentado é o chamado “devaneio controlado”, fenômeno que ocorre quando a mente se afasta temporariamente do foco principal para processar informações de forma mais ampla. Embora distrações sejam normalmente vistas como prejudiciais ao desempenho esportivo, pesquisas recentes em neurociência indicam que momentos breves de afastamento da atenção podem contribuir para uma leitura mais completa do ambiente.
Segundo Zillmer, jogadores de elite parecem alternar naturalmente entre períodos de atenção intensa e momentos de observação mais ampla do jogo. Um dos exemplos citados é Lionel Messi. Estudos que analisaram o direcionamento do olhar do craque argentino identificaram que ele frequentemente não mantém os olhos fixos na bola.
Em muitos momentos, Messi direciona sua atenção para outras regiões do campo, buscando compreender o posicionamento dos adversários, antecipar jogadas e identificar oportunidades que passam despercebidas por outros atletas.
“O cérebro de Messi parece realizar processos cognitivos que muitos adversários não conseguem reproduzir”, aponta o especialista.
A análise também dedica atenção ao trabalho dos árbitros, considerados por Zillmer profissionais submetidos a níveis elevados de pressão psicológica. Segundo ele, o futebol está entre os esportes mais difíceis de arbitrar devido à velocidade das jogadas, à constante contestação das decisões e à necessidade de administrar múltiplas informações simultaneamente.
Questões como impedimentos milimétricos, simulações de faltas e decisões relacionadas a pênaltis aumentam ainda mais a complexidade da função. Com a utilização de câmeras acopladas aos árbitros durante a Copa de 2026, a atuação desses profissionais passou a ser observada de forma ainda mais detalhada pelo público.
Nesse cenário, a resiliência surge como uma das competências mais importantes para quem conduz as partidas. O quinto elemento destacado pelo pesquisador é a criatividade tática. Segundo Zillmer, essa característica está relacionada à capacidade de encontrar soluções inesperadas para problemas complexos surgidos durante o jogo.